Não foi um ano fácil. Na esteira da crise, 2017 continuou castigando trabalhadores e empresários, mas a boa notícia é que o pior já passou. Segundo especialistas ouvidos pelo JC, o novo ano que começa hoje será de recuperação, mesmo que em velocidade menor do que todos desejavam.
Mas, mais do que esperar este novo ciclo acontecer, é importante refletir, hoje, sobre o que cada um de nós pode fazer para tornar 2018 um ano mais produtivo, criativo e ético. É o momento de revisitar posturas e maneiras de olhar para si mesmo e para a vida, com o objetivo de proporcionar a transformação individual e coletiva que tanto almejamos.
Trata-se de uma prática que deve ser adotada o ano todo, mas que ganhará especial importância em 7 de outubro, quando ocorrem, num contexto de escândalos de corrupção e polarização dos discursos, as eleições gerais para a escolha de deputados estaduais e federais, senadores, governadores e Presidente da República.
"E devemos dar especial atenção à escolha dos políticos que irão compor o Legislativo, porque ficou bem claro, nos últimos tempos, que deputados e senadores têm um papel decisivo nos rumos do País. Não adianta só escolher um bom presidente", esclarece o professor de realidade brasileira Maximiliano Martin Vicente, da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac) da Unesp de Bauru.
Além das eleições, outro evento relevante será a Copa do Mundo, entre junho e julho, que deve beneficiar setores específicos do comércio, como bares e restaurantes, mas prejudicar outros, já que, durante as partidas da seleção brasileira, o País costuma "parar". Teremos, ainda, 12 feriados, alguns deles emendáveis, que também influenciam no ritmo de vendas.
PROJEÇÕES e AÇÕES
Para 2018, as projeções apontam que o País registrará índice de inflação de 3,96% e crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) na ordem de 2,68%.
Não será suficiente para a recuperação integral dos efeitos da crise que nos atinge diretamente nos últimos três anos, até porque todos os postos de trabalho perdidos não deverão ser retomados em apenas 12 meses. Em razão disso, Vicente lembra que cada um de nós precisa encontrar meios para superar nossos dramas individuais, em um esforço consciente para sair da inércia e buscar aprimoramento profissional e fortalecimento de sua rede de relacionamentos, seja para se recolocar no mercado de trabalho, para manter o emprego, conquistar uma promoção na empresa ou mesmo abrir o próprio negócio.
"Os empregos, cada vez mais, demandam qualificação das pessoas. E há muitos cursos gratuitos sendo oferecidos", orienta.
Também professor da Faac da Unesp de Bauru, o antropólogo Cláudio Bertolli Filho sugere uma revolução interna ainda mais ampla, expandida para além do campo profissional, de renúncia ao pensamento individualista.
Assim, ganhamos melhores ferramentas para desenvolver nossa consciência humanitária, política e econômica, com foco no bem estar da coletividade.
"Chega de produzir aqueles velhos textões no Facebook. Um feriado, como o do primeiro dia do ano, é um momento oportuno para refletir e começar a mudar a forma de interagir com o mundo. Não basta soltar rojões, beber, comer e ficar desejando um ano melhor. É hora de participar mais das discussões sobre os temas que nos afetam, participar mais da esfera política e fugir dos comodismos e lamentações do cotidiano", completa.
Investimentos e reformas no centro do debate
"A recessão acabou e 2018 será melhor do que os três anos que se passaram", afirma o professor sênior da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), Manuel Enriquez Garcia. Considerado um dos pesquisadores brasileiros mais importantes na área, ele destaca que uma das maiores incertezas a serem superadas em 2018 será a capacidade de investimento do setores público, que registra déficit orçamentário e não tem recursos para aplicar em infraestrutura, e privado, ainda tentando emergir de um ambiente de desconfiança.
"Outro fator é que o consumo aumentou em 2017, visto que os reajustes salariais foram, em média, superiores ao índice de inflação, o que não vai ocorrer de novo em 2018. Então, o consumo não deve puxar a economia, como puxou no ano que passou. Já o setor da agropecuária tem boas perspectivas de safra, mas não tão boas como a de 2017. Então, a grande incógnita para 2018 é qual será o papel dos empresários no tocante à renovação do parque de máquinas e equipamentos, o que determinará o percentual de crescimento do País", analisa ele, que também é presidente da Ordem dos Economistas do Brasil e presidente do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP).
"Hoje, já enxergamos luz no fim do túnel, mas o túnel é comprido. Serão muitos quilômetros até chegar a esta luz, inclusive quanto à recuperação do nível de emprego. Mas não vamos voltar ao patamar crítico dos anos anteriores. Por mais que seja lento, o ritmo é de crescimento", observa.
Este cenário, ele frisa, poderá ser alicerçado pela aprovação da Reforma da Previdência, em tramitação na Câmara dos Deputados. "A intenção da reforma é diminuir as diferenças gravíssimas entre os servidores públicos e os trabalhadores da iniciativa privada. Mas, pode ser que não seja aprovada, o que pode gerar fortes desequilíbrios nas contas do setor público", assinala, apontando, ainda, benefícios para a economia com a aprovação da Reforma Trabalhista, em 2017.
"Ela criou uma base jurídica mais forte e ajustou a legislação aos tempos modernos. É prematura a tentativa de atribuir à reforma o fechamento de vagas de trabalho em novembro passado. As mudanças podem fazer muitas pessoas se sentirem desprotegidas, mas, no conjunto da economia, depois de um certo tempo, elas serão extremamente favoráveis", pondera.
Resultado das eleições deve ser ditado pela economia, acredita especialista
O desempenho da economia em 2018 deve ser definitivo para o resultado das eleições de outubro, na análise do professor Maximiliano Martin Vicente. Para ele, se o País conseguir se recuperar da crise, com melhora do nível de emprego, o grupo político de centro, incluindo PSDB e MDB, deve ser favorecido nas urnas. Em contrapartida, se o cenário econômico permanecer o mesmo, a tendência é de o grupo de oposição mais próximo à esquerda obter êxito. "Já a liderança que está emergindo à direita terá ido por água abaixo até a hora da eleição", avalia.
Independentemente dos candidatos que tiverem condições de participar da disputa, o jornalista Zarcillo Barbosa avalia que as eleições serão decisivas para definir, após o governo de transição do presidente Michel Temer, se o País seguirá na trilha do desenvolvimento sustentável, implantando as reformas econômicas que o mercado exige.
"Para tanto, os eleitores precisam votar bem. O critério básico é escolher candidatos com ficha limpa, para acabar com esta política corrupta, e que tenham capacidade para dirigir o País neste momento em tentamos deixar de lado nossa pior crise histórica. Só assim ganharemos um novo ímpeto para recuperar a confiança do mercado, atrair novos investimentos e gerar empregos", completa.
O novo também pode nascer em você
| Quioshi Goto/JC Imagens |
| Barbosa: identificar atitudes que não trazem efeitos práticos |
Sabe aquela "limpa" que a gente faz no armário periodicamente para retirar peças que não servem mais ou que já estão demasiadamente desbotadas? Pois 2018 começa, hoje, como uma oportunidade para fazermos esta mesma "faxina" em nossos pensamentos e comportamentos desgastados.
É hora de identificar tudo aquilo que ficou velho em você: atitudes e uma visão de mundo que não trazem efeitos práticos e, pior do que isso, podem impedi-lo de sair da inércia e fazer deste o ano que você realmente gostaria que ele fosse.
"O primeiro exercício é colocar em uma planilha tudo o que você deseja mudar e dizer para você mesmo, todo dia e toda noite, que aquilo que você deseja alcançar já é realidade, por mais que ainda não seja verdade. Esta repetição é um instrumento poderoso para modificar a tomada de decisões", explica o professor Roger Dias Barbosa, terapeuta e palestrante na área de reprogramação mental e programação neurolinguística.
Ele explica que, desde a infância nosso cérebro é treinado, pela família e a escola, para obedecer padrões. Na vida adulta, a partir do nosso subconsciente, eles passam a reger pensamentos e comportamentos, demandando de nós um ato voluntário e racional para serem modificados.
"Via de regra, não temos o costume de mexer neste lixo emocional, mesmo que, conscientemente, saibamos que deveríamos pensar diferente. Mas, na hora que surge uma determinada situação, aquele padrão limitante e repetitivo tem mais força", observa.
MUDANÇA PRA VIDA
Isso ocorre, segundo o terapeuta, a partir de um mecanismo de defesa acionado pelo subconsciente, como forma de garantir que o indivíduo não se frustre diante de uma tentativa infrutífera de promover as mudanças que ele sabe que são necessárias. "Assim, o desânimo se torna maior que a coragem e a pessoa não se decepciona, porque já estava esperando pelo pior. É um terreno fértil que só alimenta um círculo vicioso de remorsos e ressentimentos", acrescenta.
Por mais que o cenário macroeconômico não seja o mais favorável, concentrar energias em concepções negativas em nada contribui para alterar o estado de coisas, lembra Barbosa. "Se você se deixar tomar pela aura negativa da crise, tudo se torna mais difícil, porque você cria, de antemão, uma rejeição a algo que poderia alcançar. Mas, se você acredita que tem um bom emprego ou um negócio próspero, são muito maiores as chances de você conseguir focar seus esforços para que isso aconteça. E este pode ser o ponto de partida para uma mudança da vida toda", completa.
Descomplique!
| João Rosan |
| Sandra Leal Calais, doutora em psicologia |
Mudar hábitos alimentares, fazer um curso ou iniciar um trabalho voluntário podem ser o ponto de partida no sentido de ampliar horizontes para resolver velhos problemas e, assim, promover mudanças muito mais profundas de vida. Descomplicar o que pode ser simplificado e estreitar relações interpessoais também são dicas da professora Sandra Leal Calais, doutora em psicologia e docente da graduação e pós-graduação da Psicologia da Unesp de Bauru.
"Em meio a tantas dificuldades no País, o contato com o outro, o encontro olho no olho é importante para nos fortalecer como seres humanos. Estamos perdendo um tempo absurdo em redes sociais, no celular, e este excesso faz muito mal para a gente", analisa.
Para viver melhor e fazer do mundo um lugar melhor, vale exercitar, diariamente, a gentileza, a paciência, a empatia, o respeito ao meio ambiente e a tolerância com as diferenças. "São coisas que fazem bem para o outro, mas também para quem pratica. Se você entrega um sorriso para alguém, essa pessoa muda o jeito de tratar você. Todo mundo prega a paz no mundo, mas, antes, precisamos aprender a praticar a paz ao nosso redor", destaca.