08 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana: Alexei Lisounenko

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 7 min

As notas de uma vida guiada pela música

Malavolta Jr.
Alexei Lisounenko com o piano onde ministra suas aulas
Fotos: Arquivo Pessoal
O maestro junto da esposa Eleine Vidor Lima Lisounenko, ladeando o avô, também de nome Alexei, que já faleceu
Alexei no encontro com futuros pianistas russos, em Moscou
Malavolta Jr.
O maestro, a esposa e a pet Tifany, que ele trouxe de São Paulo, onde residia antes de vir morar em Bauru, há 6 anos
Arquivo Pessoal
Aos quatro meses, com a avó Alexandra
O entrevistado pelo traço do artista Romero Britto

Professor, concertista, regente, compositor, camerista, roteirista, pianista e - ou também - simplesmente maestro. Alexei Lisounenko é, desde os 10 anos de idade, um apaixonado pela música e por tudo de bom que ela representa na vida do ser humano. Descendente de russos, Alexei é também um cidadão do mundo e tem várias incursões internacionais.  Vivendo profissionalmente no eixo Bauru-São Paulo - onde nasceu e se criou -, ele utiliza as novas ferramentas computadorizadas para dar aulas de piano e canto, através de videoconferências. Já participou de um sem número de projetos e ainda tem muitas ideias para colocar em prática. Confira:

Jornal da Cidade - Começando a entrevista de trás para a frente, do presente para o passado, o que o trouxe para Bauru depois de uma carreira consolidada na Capital?

Maestro Alexei Lisounenko - Na verdade, sempre me preparei para viver no Interior. Não que não goste de São Paulo, mas, como todos os paulistanos, tenho consciência de que a grande metrópole está impraticável. Chega um momento em que queremos qualidade de vida. Eu sempre me projetava trabalhando e vivendo no Interior.

JC - E Bauru? Onde entra?

Alexei - Confesso que nunca havia ouvido falar em Bauru até conhecer a Eleine Vidor Lima Lisounenko, minha esposa. Foi ela quem me trouxe para cá. Antes dela, Bauru, para mim, era só o sanduíche (risos).  Nunca imaginei que existia uma cidade com esse nome e, menos ainda, com tanto potencial. Um dos aspectos que mais valorizo é o céu, como uma dedicatória do Lucius de Mello.

JC - Como assim? 

Alexei - Em São Paulo, nos melhores dias, o céu é sempre cinza. Aqui, conheci o jornalista e escritor Lucius de Mello e, na dedicatória do livro dele sobre a Eny, ele escreveu: "As pessoas reclamam que Bauru não tem praia, é só olhar para o céu e ver a imensidão desse mar". Aqui, a gente realmente vê as estrelas, é um espetáculo.

JC - Suas palestras, seus recitais, o levaram à terra de seus antepassados?

Alexei -  De fato! Em 2010, estive em Moscou e fiz concerto didático lá e em várias outras cidades da região. A convite, levei o concerto que eu havia formatado "Uma noite/tarde na vida de Chopin". Foi uma experiência enriquecedora, não só porque pude aplicar e mostrar nos recitais as obras de compositores eruditos e brasileiros, mas porque tive a possibilidade de me desenvolver mais ainda, com aulas de interpretação musical e regência do mestre Dimitry Chertchenko, do Conservatório de Moscou. Para mim, pela minha história pessoal, foi um momento mais do que marcante. Até porque minha avó morreu, aqui no Brasil, no exato momento em que eu me apresentava lá, na Igreja da Sagrada Mãe de Deus, que ela sempre teve o sonho de conhecer. 

JC - Seus avós saíram de lá e nunca mais voltaram...

Alexei - Sim, o casal Alexei e Alexandra chegou em São Paulo em 1953. É onde minha história começa, bem antes de eu nascer, né? (risos). Minha avó veio gestando meu pai, Pedro, e eles tinham outro filho, o Nicolau. Eram da Rússia Oriental, bem lá em cima, praticamente na China. Tiveram só um mês para aprender a língua, precisaram se virar e se viraram. Meu avô aprendeu rápido e escrevia muito bem. Meu pai, Pedro, teve três filhos: Sérgio; eu, Alexei (tanto que sou Lisounenko Neto); e Pedro. Acabei sendo criado pelos meus avós. E isso foi ótimo... agradeço muito. Concordo com a ideia de que "avós são os pais com açúcar". E conheci a música graças ao meu avô. Um dia, ele soube que havia um professor de piano perto de casa e me matriculou. Meu mundo se abriu.

JC - Você viveu também uma temporada nos EUA?

Alexei - Sim, meu avô era muito religioso e foi convidado a assumir a Igreja Ortodoxa Russa. Então, ele foi fazer um curso de preparação no Estado de Nova York, nos EUA, e, dos três netos dele, eu é que fui morar lá, junto deles. Nunca mais vou esquecer a imagem da minha avó chorando ao ver a neve, coisa que, aqui no Brasil, eles não tinham mais. 

JC - Já adulto, claro, você optou pela carreira musical né?

Alexei - Nada disso. Aqui é muito difícil viver de música. É questão cultural. Poucos enxergam a música como primeira profissão. Acham que é um hobby ou atividade paralela. Ninguém para para pensar o quanto ela é importante. Ninguém vive sem música hoje em dia. Há música em todos os ambientes. Nessa época, morava com minha mãe, Célia Lúcia, e ela, corretora, achava que advocacia era o futuro. Mas, três anos depois, eu fiz vestibular de música e passei tanto na USP quanto na Unesp. Escolhi a Unesp. Cheguei em casa e falei: "Mãe, tenho uma notícia excelente! Você não vai ter mais que pagar minha faculdade". 

JC - E ela?

Alexei - Primeiro, achou que eu tinha ganho uma bolsa,  tomou um susto com a novidade. Depois, se acostumou. A música é uma ferramenta excelente, para todo mundo, em qualquer área, ela desenvolve o raciocínio lógico, além de não ter contraindicação. Acalma, relaxa, estimula a sensibilidade, é reconhecidamente uma grande terapia.

JC - Através da música, você faz trabalhos solidários...

Alexei - Sim, dou aqui minha aulas, para cada aluno há um desafio (Alexei está à frente de um piano Fritz Dobbert, da única fábrica brasileira). Cada aluno é um tesouro, aprendo mais com eles do que eles comigo, mas vou para onde há necessidade. Nem sempre o aluno pode pagar, então já trabalhei com bolsa e muitos dos concertos são totalmente grátis. Me sinto privilegiado e procuro retribuir e mostrar às pessoas o valor de cada música executada, por isso, costumo interagir muito com a plateia.

"A música acalma, relaxa, estimula a sensibilidade, é reconhecidamente uma grande terapia",  Alexei Lisounenko

JC - Você é muito comunicativo...

Alexei - Sou, mas, antes da música, era um garoto bem introvertido. Até nisso ela me ajudou. Quando estava na faculdade, aprendi a necessidade dessa comunicação. A gente pode até ser um virtuose, mas precisa saber expor isso. Além disso, aí está outro ensinamento do meu avô, a quem devo muito, no que a cultura deles tinha de valorização da ética, da honestidade, dos compromissos firmados. Meu avô sempre dizia que, em cada encontro, há uma oportunidade de evoluir. Então, com todo mundo que passou e passa pela minha vida, procuro ir além do encontro banal.

JC - Foi assim que Romero Britto (o famoso artista plástico brasileiro, sucesso internacional a partir de Miami) entrou na sua vida?

Alexei - Sim, nos encontramos em uma homenagem à Columba Bush, mulher do ex-governador da Flórida, Jeb Bush. E lá, ao longo da minha regência, ele fez um desenho do meu perfil (veja ao lado). Isso eu exibo com o maior orgulho. E, indo além, já pensamos em um evento, para o grande público, por exemplo, no Ibirapuera, em São Paulo, onde ele também retrataria as pessoas. Ele adorou a ideia, mas há uma burocracia. Quem sabe, um dia... é mais um dos muitos sonhos.

JC - E para Bauru? Você ainda tem muitos sonhos? 

Alexei- Sim. Há um potencial muito grande para uma boa sala na antiga Estação Ferroviária, continuar com os espetáculos em datas especiais na cidade, outros com o Zoológico (lá, fiz uma homenagem à Lorena, do Careca TV ) e, quem sabe, no Jardim Botânico.

JC - E para a Copa? Afinal, é na Rússia... já criou algo especial para marcar o evento?

Alexei - Então, em São Paulo, já fomos convidados e vamos fazer um espetáculo antes do início da Copa, com músicas populares brasileiras e russas. Aliás, deixa eu contar, lá na Rússia, o povo conhece nossas cantigas tipo "ciranda-cirandinha" como sendo do nosso grande maestro Villa-Lobos. Mais um sonho: quem sabe esse espetáculo não vem também para Bauru, seria o máximo, não?

Perfil e obras

Um crítico do Brasil Post disse que a mistura do sangue brasileiro com o russo no maestro Lisounenko resultou em um artista que une "técnica e paixão" de forma empolgante. Nascido em São Paulo, ele, que é casado com Eleine Vidor Lima Lisounenko, é detentor de inúmeros títulos e prêmios, como o terceiro lugar no Concurso Latino-americano de Curitiba, Alexei Lisounenko é autor de espetáculos, como o "Contos da Rússia" que é um evento fixo do calendário anual da Embaixada Russa no Brasil. Há também o "Contos da Rússia II" e ainda o concerto didático "Uma Noite/Tarde na vida de Chopin". 

Confira os vídeos com apresentações de Alexei Lisounenko: