11 de julho de 2026
Economia & Negócios

Aposentados terão o menor reajuste dos últimos 24 anos

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

A curva descendente dos índices de inflação no ano passado fará com que os benefícios de aposentados e pensionistas tenham a menor correção desde a implantação do Plano Real, em 1994. A previsão é de que, em 2018, o reajuste anual aos segurados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) que ganham acima de um salário mínimo seja de 1,88%.

O percentual corresponde à alta prevista pelo governo para 2017 do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), utilizado para a revisão dos valores dos benefícios. A correção também deveria se basear na variação do resultado do Produto Interno Bruto (PIB) de dois anos antes, mas, como o montante de 2016 foi negativo, acabou por ser desconsiderado.

"Foi o reajuste que o governo pôde conceder em função da limitação das contas públicas. Nós não podemos esquecer que a Previdência tem um déficit brutal. Além do problema de fraudes, com desvios de finalidade dos recursos, a população idosa está aumentando, com um número cada vez menor de pessoas no mercado de trabalho, contribuindo para a Previdência", analisa o economista Fernando Pinho.

Desde que o Real se tornou a moeda oficial do País, o menor reajuste aplicado havia sido de 3,3%, em abril de 2007. A expectativa é de que o percentual de 1,88% também incida sobre o teto dos benefícios, que deverá aumentar de R$ 5.531,31 para R$ 5.635,30.

Já aposentados e pensionistas que recebem o piso devem obter reajuste de 1,81%, índice correspondente ao aumento do salário mínimo, que variou de R$ 937,00 para R$ 954,00. A confirmação dos percentuais ocorrerá, contudo, quando o decreto do presidente Michel Temer for publicado no Diário Oficial da União, algo previsto para este mês. Quando o índice for publicado, todos os pagamentos serão feitos retroativamente a 1.º de janeiro.

NA PELE

Pinho explica que o aumento oferecido em 2018 está em consonância com a política de austeridade adotada pelo atual governo, que segue direção oposta às medidas impostas durante a última década e meia. Para ele, as gestões anteriores tentaram recuperar o poder de compra da população por intermédio do aumento artificial dos valores do salário mínimo e das aposentadorias, levando mais em consideração a necessidade dos trabalhadores e um projeto de poder do que a capacidade de a economia suportar estas altas.

"Não podemos esquecer que mérito é uma coisa e possibilidade é outra. O ideal, apontam estudos, seria se todos ganhassem um salário médio de R$ 3,8 mil, mas seria algo inviável em uma economia como a nossa, que tem baixa produtividade e mão de obra, em sua maioria, de baixa qualidade", frisa, ponderando os custos envolvidos para a manutenção da folha de pagamento das empresas e da administração pública.

Malavolta Jr.
"A gente consegue comprar cada vez menos com o que ganha", Valquíria Valério, Associação dos Aposentados

Diante do atual cenário, trabalhadores e os segurados do INSS sentem na pele. Presidente da Associação dos Aposentados e Idosos de Bauru e Região, Valquíria Pinheiro Valério questiona os índices utilizados para o cálculo do benefício, salientando que, na prática, a população percebe que as inflações foram elevadas nos últimos anos.

"No bolso, a gente sente bem diferente e consegue comprar cada vez menos com o que ganha. Combustível, alimentação, medicamento: tudo está aumentando. Um reajuste desse é triste, mas algo esperado diante de tudo o que já vem acontecendo no País", reclama ela, que, mesmo aposentada, continua trabalhando como podóloga para complementar a renda. "E, pelo jeito, seguirei assim até quando minha saúde permitir", completa.

FUTURO

Malavolta Jr.
Fernando Pinho: “Foi o reajuste possível diante da limitação”

O economista Fernando Pinho adianta que, em razão da concorrência internacional de países como a China - cujos trabalhadores recebem salários muito baixos por uma produtividade alta, a tendência é de que o reajuste do salário mínimo e de benefícios no Brasil seja cada vez mais baixo. Em razão disso, ele orienta, quem se aposenta terá, cada vez mais, de buscar outras fontes de renda para se manter.

"Em todos os lugares do mundo, mesmo quando as aposentadorias são altas, as pessoas não param de trabalhar. Em alguns países europeus, por exemplo, a pessoa com 75 anos ainda não conseguiu se aposentar. O valor recebido da aposentadoria vai se tornar, cada vez mais, uma forma de complementar a renda", considera.

Confira algumas orientações sobre como lidar com o ‘dinheiro curto’ 

Diante da notícia do baixo reajuste aos segurados do INSS, que também deve se estender, em maior ou menor medida, aos salários dos trabalhadores em 2018, o economista Diogo Nunes Pereira lista algumas medidas prioritárias para fazer o orçamento doméstico resistir até o fim de cada mês. A primeira dica é planilhar as despesas para maior controle e definir uma meta de quanto gastar.

Também é importante conter gastos desnecessários, incluindo o desperdício doméstico com energia elétrica e água. "Tenha, ainda, cuidado com cartão de crédito e cheque especial, evite financiamentos longos, controle os gastos no supermercado e poupe, se possível", elenca.

Para que a estratégia dê certo, o economista orienta, todos os membros da família precisam estar cientes e mobilizados sobre a necessidade de controle das despesas. "Para tanto, a melhor maneira é reunir toda a família e, juntos, decidir as prioridades e o que é considerado secundário. As necessidades básicas geralmente devem estar entre as prioridades. Gastos com lazer e bem-estar, viagens, troca de carro podem esperar", observa.

A regra vale tanto para trabalhadores inseridos no mercado de trabalho quanto para os aposentados. "Porém, no caso dos aposentados, os cuidados maiores são evitar desperdícios domésticos, gastos supérfluos e financiamentos longos", ressalta Diogo Pereira.