09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Policlínica 'Condor'

Roque Roberto Pires de Carvalho
| Tempo de leitura: 2 min

Ele caminhava pelas ruas da cidade e era quase noitinha. A lua cheia mostrava desde logo sua beleza. Frente ao jardim da praça, ele não sabia se olhava para o céu com suas estrelas ou para o jardim tão próximo das suas mãos. Pela leitura de um livro, ficou sabendo que Deus começou a sua obra criando as estrelas e depois revestiu a terra com a delicadeza dos jardins e ele, ali, contemplava sozinho as belezas da natureza. Caminhando mais, encontrou uma placa luminosa onde era anunciada a existência de uma Policlínica com o nome de uma ave chilena, sugerindo tratar-se de um atendimento generalizado para pessoas acima de 50 anos. Era o seu caso.

De fato, vez por outra queixava-se de algumas dores pelo corpo e falhas de memória. Naquele horário, não era possível marcar nenhuma consulta mas, no dia seguinte, iria reservar uma vaga para ser atendido. No dia e horas aprazadas, lá compareceu e assustou-se com a quantidade de pessoas aguardando chamada. Olhando as presenças, não reconheceu nenhuma conhecida. Faixas etárias iguais ou próximas da sua, para mais ou para menos. Dissimulando ler uma revista, passou a ouvir as conversas laterais dos pacientes. Queixas de todo tipo - braços, pernas, cotovelos, colunas, nevralgias, amnésia, estômago, diurese, panarício, febres, enxaquecas, lumbago e outras tantas doenças ou sintomas dos quais também fora vítima, em alguma oportunidade da sua longa vida. Em verdade, estava assistindo e participando de um "feirão" de doenças, queridas ou não, e o nome da policlínica estava adequado aos interesses de cada um. Ao retornar, munido de um receituário de causar inveja, prometeu para si mesmo - alô memória! - não esquecer de procurar uma farmácia. Antes das providências, quis conhecer o pensamento do Espírito León Denis sobre a dor e sua interpretação na obra: "O problema do ser, do destino e da dor". Sintetizando, diz o Luminar da Doutrina Espírita: "...fundamentalmente considerada, a dor é uma lei de equilíbrio e educação. O sofrimento não é, muitas vezes, mais do que a repercussão das violações da ordem cometidas. A dor é benfazeja para quem sabe compreendê-la, mas somente podem compreendê-la aqueles que lhe sentiram os poderosos efeitos e tiveram a coragem de suportá-la. O homem precisa do sofrimento, assim como o fruto da videira precisa do néctar para se lhe extrair o licor precioso". No dia seguinte, logo pela manhã, dirigiu-se sem demora para a farmácia da esquina.... Afinal, estava carente do néctar ou do amargo dos remédios.