08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Mar de água clara

Fabiana R. Rosa
| Tempo de leitura: 1 min

Numa fria manhã de outono, a menina escreveu uma carta endereçada a seu anjo da guarda pedindo coisas frugais, daquelas que todo mundo pede: saúde, paz, harmonia e, altruísta que é, pedia tanto para ela quanto para todos os seus amigos e parentes. Pedia, também, um amor. Pedia com urgência, a mesma urgência que faz com que todo ser humano, por mais vil que o seja, no fundo, no fundo, deseje apenas amar e ser amado.

Dez anos mais tarde, quando já nem mais se lembrava do que um dia pedira, seu desejo fora atendido:

- "Quando a luz dos olhos teus e a luz dos olhos meus resolvem se encontrar..."

Sem príncipes, muito menos cavalos brancos, com sua chegada causara estranheza a todos os presentes: cabelos pretos, uma mecha branquinha no topete esvoaçado, tão branca quanto a sua pele, sorriso largo, peito aberto, peito no qual ela repousa e deposita seus desejos e preocupações todas as noites, aconchegada nos seios que não são seus, mas por direito lhe pertencem; bate o coração, ritmada canção de ninar a lhe embalar os sonhos. Agora, a menina dorme tranquila...

Durma menina, respire, não corra, ore, dance, cante, repare as borboletas no quintal, a vida é tamanha. Não te apresses, não te aborreças com a mesquinhez do mundo que te cerca, escreva outra carta e agradeça que teu anjo te escuta! Mesmo quando estás em silêncio, ele te ouve. Se achegue, se apoie nos seios que não são teus, mas por direito lhe pertencem e viva um dia de cada vez, que a vida é onda...