10 de julho de 2026
Articulistas

'O destino de uma nação'

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Entre os impérios da modernidade, o Império Britânico foi o maior de todos. Do seu ventre nasceram os Estados Unidos, o Canadá, a Austrália, a Nova Zelândia e a Irlanda. Também originaram dentro dele Hong Kong e Cingapura. Sem os britânicos, a Índia não seria uma das maiores democracias do mundo e nem a África do Sul estaria na liderança das nações africanas. No filme "O destino de uma nação" (em exibição em Bauru), o leão imperialista já está meio desdentado para enfrentar uma guerra contra a Alemanha de Hitler. Mesmo assim ainda ruge. Teve a sorte de encontrar, meio por acaso, alguém para convencer o rei, o Parlamento e o povo a enfrentarem a ameaça inimiga. Seu nome: Winston Churchill, aos 59 anos. Vivido na tela por Gary Oldman, vencedor do Globo de Ouro no último domingo.

Ainda que sem cenas de guerra, destruição e mortes o filme é dinâmico. As cenas se passam, quase todas, no bunker do Comando de Guerra. As divisões panzer comandadas por Rommel e Gouderian haviam tomado a Bélgica e invadido a França, contornando a Linha Maginot. A Inglaterra enviara uma força expedicionária de 300 mil homens ao Continente. Os tanques germânicos, no momento do filme, encurralavam os aliados em Dunquerque.

Dirigido por Joe Wright (de "Ana Karenina" e "A teoria de tudo"), o filme nos mostra um Churchill apostando suas poucas fichas no longo prazo. Sabia que os Estado Unidos teriam que entrar na briga - como de fato ocorreu - e que as coisas iriam mudar. O resgate de mais de 300 mil soldados, com a ajuda de embarcações civis, foi um dos momentos mais assustadores da batalha para as forças aliadas. Só foi possível porque o estadista valeu-se da sua retórica e soube levar os ingleses à resistência. Ninguém poderia esperar muita coisa de um sujeito mimado, nascido em um castelo da alta nobreza. Vaidoso ao extremo, nunca havia andado de metrô ou de ônibus. Foram inventadas as cenas do filme, onde o estadista aparece dialogando com o povo em um vagão do "underground". De verdade, Churchill tomava uísque no café da manhã, uma garrafa de champanhe no almoço e outra no jantar. À tarde, vinho do Porto em vez do chá das cinco. Algo parecido com Lula, que gostava de uma pinga com sementes de umburana na garrafa, para aromatizar e cortar a acidez da bebida. Deve ter sido sob essa inspiração que o estadista à brasileira fez o povo delirar com sua política de distribuição de renda. O filme mostra que, por trás de tudo, há a política, em suas diversas fases. Sempre prevalecem as negociações e as necessidades de se fazer escolhas. Significa, muitas vezes, dar a cada um o que é seu. Lá, não havia propina em jogo. Somente vaidades em disputa, com a maioria se esquivando de tomar decisões perigosas. Churchill assumiu esse papel. Viria a preservar a ilha das incursões nazistas, com uma geração de jovens pilotos de Hurricanes e Spitfires.

Assim, "O destino de uma nação" põe o primeiro-ministro como uma figura republicana, que verdadeiramente estaria representando os interesses do Reino Unido. É a afirmação da democracia contra o terror. Com fascistas não se negocia. Hoje, as coisas são mais simplórias. Basta reverberar pela mídia quem tem o botão nuclear maior. Os personagens são mais patéticos e patetas. Vide Donald Trump e Kim Jon-un.

Oldman tem um gestual bem estudado de Churchill, a ponto de resvalar para o caricato. Submeteu-se a três horas de maquiagem, todos os dias, a cargo do japonês Kazushiro Tsuiji, celebrado pelas mutações de Brad Pitt em "O curioso caso de Benjamin Button". Durante menos de dois meses de filmagens, fumou 400 charutos cubanos, Romeo y Julieta, os preferidos de Churchill. Custa U$ 50 dólares cada. Gastou 20 mil dólares em charutos e ainda ganhou uma intoxicação nicotínica.

O que pode ameaçar o Oscar de Gary Oldman é a onda de feminismo. No terceiro divórcio das suas cinco esposas, revelou-se um show de horrores. Foram divulgados episódios em que o ator teria agredido fisicamente a mãe de dois de seus três filhos na frente das crianças. Ele nega tudo e já conseguiu, na Justiça, a guarda dos filhos. Acontece que o feminismo não é um modismo. As atrizes que compareceram vestidas de preto ao Globo de Ouro, demonstraram que as mulheres não querem mais se submeter a violências de qualquer ordem. Catherine Deneuve assinou um manifesto, na França, pela "liberdade do homem de importunar". O documento critica o feminismo por promover uma "caça às bruxas". Nitroglicerina pura. As ativistas de negro poderão um dia dizer como o estadista inglês: "Nunca nos renderemos". Vencida a batalha, Churchill marcou que "na história dos conflitos humanos, jamais tantos deveram tanto a tão poucos".