08 de julho de 2026
Regional

'Rede do bem' mostra solidariedade na região

Aurélio Alonso
| Tempo de leitura: 12 min

Aurélio Alonso
Paulo Franco e Mariana Maciel fazem sessões de hemodiálise  

Pode faltar dinheiro, mas a solidariedade é o que ajuda a superar obstáculos e auxiliar o próximo. É assim que um grupo de pessoas tem feito a diferença, seja dentro de um hospital ou exercendo alguma atividade social. Três histórias que não se cruzam, no entanto, são as demonstrações de que a "rede do bem" atua no dia a dia, e muitas vezes anonimamente. Em Agudos, partiu do jornalista Paulo Franco viabilizar uma festa de 15 anos à jovem Mariana Fernanda Maciel, 14 anos, sua colega de sessões de hemodiálise.

Sem posses e passando por um período de superação no estado de saúde, Mariana é exemplo de persistência, após a descoberta da insuficiência renal, diagnosticada em 2015. De lá em diante, teve que se adaptar a uma rotina de alimentação e sessões de hemodiálise três vezes por semana no Hospital Estadual em Bauru. Ela aguarda um transplante renal, mas depende de resultados de exames para entrar numa fila para aguardar um doador.

E a adolescente tinha um sonho: uma festa de aniversário para marcar os 15 anos. Com a mãe sem recursos financeiros, Paulo Franco tomou à frente e vai viabilizar o evento no dia 27, em uma chácara, com direito a maquiagem, álbum fotográfico, salgadinhos, doces e decoração. Tudo foi possível por conta de uma rede de solidariedade e cotização.

O próprio Paulo Franco também viu a sua vida mudar após descobrir a insuficiência renal e ter que desistir de um transplante de rim já na sala de cirurgia, porque as possibilidades de sucesso da intervenção cirúrgica só garantia 5% de possibilidade de dar certo, devido a problemas cardíacos. Com isso, terá que conviver semanalmente com as sessões de hemodiálise para o resto da vida. "Já que ocorreu isso, vou ajudar as pessoas", relata Franco, ao contar o motivo de ajudar a viabilizar a festa e auxiliar as demais pessoas que convivem na hemodiálise do HE.

Outro exemplo vem de Piratininga: o que era para ser um trabalho social para ocupar tempo de idosos, abriu as portas para a produção de bonecas que já foram entregues a crianças na África e a pacientes com câncer do setor infantil do Hospital Amaral Carvalho de Jaú.

Guilherme Dias, orientador social do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos para Idosos de Piratininga, conta que 14 idosas participaram do projeto social e decidiram utilizar o que aprenderam nas aulas de artesanato na confecção de bonecas para ajudar ao próximo. "É um trabalho gratificante, além também dessas alunas passarem as suas experiências de vida", conta o orientador.

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Bonecos de pano de Piratininga ajudaram a tornar mais feliz o dia de 40 crianças em tratamento contra o câncer em hospital de Jaú

Mas mesmo com as dificuldades enfrentadas, acabam semeando projetos futuros de ajuda ao semelhante, como foi o caso da jovem de Pederneiras Eloysa Santos de Campos, que morreu em abril do ano passado, aos 16 anos, vítima de aplasia medular, mas a rede de solidariedade para ajudá-la mobilizou muitas pessoas e despertou um movimento para incentivar a doação de medula óssea.

O município ganhou uma semana dedicada ao tema. A mãe da jovem, Aline Souza Santis, relembra a perseverança da luta da adolescente contra o câncer e neste mês será realizada a "Semana Elô", que tem objetivo de orientar a população da importância de ter doador compatível de medula.

As histórias que vão ser contadas nas próximas páginas são demonstrações de que a solidariedade supera muito um mundo materialista e muitas vezes a vida está nos pequenos detalhes de atos cotidianos.

'Rede do bem' ajuda festa de 15 anos

A adolescente. Mariana Fernanda Maciel, 14 anos, enfrenta um drama: há dois anos, foi diagnosticada a insuficiência renal e, diante disso, precisa passar por sessões de hemodiálise três vezes por semana. Mas existe uma esperança: um transplante de rim para voltar a ter vida normal e não depender das máquinas para filtrarem as toxinas do sangue. Enquanto aguarda exames para entrar na fila do cadastro nacional para conseguir o transplante, a jovem teve que se adaptar à nova realidade.

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Flávia Paludeto ao lado de seu pai, Waldir Paludeto

Não foi fácil. Ela admite, por exemplo, com sua simplicidade, que, no início do tratamento, ficou revoltada ao descobrir a enfermidade. A fé em Deus ajudou muito a enfrentar as dificuldades. A adolescente é evangélica, mas não foi influência de nenhum pastor ou líder religioso. "Passei a confiar em Deus e me ajudou muito", contou. 

Outro sonho acalentado desde os 9 anos era fazer uma grande festa para comemorar os 15 anos. Residindo com a mãe e mais dois irmãos (a pequena Nicoli e Matheus, de 19 anos) numa casa humilde no Jardim Cruzeiro, em Agudos, ela contou com a ajuda de uma rede de solidariedade que começou com os amigos e parentes, que junto com ela, às terças, quintas e sábados, viajavam até o Hospital Estadual de Bauru para passar por sessões de hemodiálise por cerca de quatro horas. Ela tem que despertar da cama por volta das 4h para embarcar numa van fornecida pela prefeitura para levá-la até Bauru.

Mariana conta que, com os dois rins praticamente paralisados, passou a ter que se submeter a uma dieta alimentar mais rigorosa, não consumir doces, refrigerantes e até o consumo de água teve que ser reduzido. Desde 9 anos, sonhava com a festa dos 15. E isso vai se viabilizar após o jornalista Paulo Franco mobilizar as pessoas via rede social.

O aluguel de uma chácara será custeado por uma pessoa que decidiu colaborar por se sentir sensibilizada com o desejo da jovem. Outros financiaram o álbum, com direito a ensaio fotográfico, maquiagem, decoração, doces, salgadinhos e refrigerantes. O evento está marcado para o dia 27.

O jornalista Paulo Franco também viaja três vezes por semana para fazer hemodiálise e ficou sabendo da intenção de Mariana e passou a admirar a persistência da jovem para enfrentar um tratamento "doloroso" como a hemodiálise. "Acho que fazer essa festa ajuda a melhorar o tratamento", salienta o jornalista. 

Mas a rede de solidariedade conta também com outros pacientes, alguns com idade mais avançada, que precisam da hemodiálise e se sensibilizaram. Flávia Paludeto acompanha o pai, Waldir Paludeto, que sofreu um AVC e precisa passar pela hemodiálise. Os dois viajam juntos com a jovem na van. "Essa menina e a mãe são duas guerreiras", ressalta seu Waldir, que não tem esperança de passar por transplante devido à idade avançada, mas afirma que fica feliz de saber que será viabilizada a festa de 15 anos da jovem.

A filha de seu Waldir coordenou um grupo pelo WhatsApp para conseguir a ajuda necessária. "Vamos conseguiu até um cerimonialista e o doutor Bruno, pediatra, prometeu se vestir de príncipe. Os pacientes viraram uma família, onde um ajuda o outro", contou Flávia, que já acompanhou a mãe, que faleceu recentemente, na hemodiálise. 

Mariana conta que essa solidariedade vinda das mais variadas idades ajuda a superar essa fase difícil em sua vida. Ela cita que um menino de 4 anos, o Davi, de Piraju, que já passou por mais de 20 cirurgias, é o exemplo dela para conseguir força para continuar firme no tratamento. "Ele não reclama, vai todo dia. Não chora, parece adulto", lembra a jovem.

Outra ajuda também é de uma amiga inseparável, Kristeyelen Primolan, na mesma faixa de idade. Sempre está em sua casa e é muito importante para ajudá-la psicologicamente a superar tudo isso.

Já a mãe da garota, Sandra Aparecida Machado, tem esperança que um transplante de rim possa se viabilizar. A jovem aguarda exames para um encaminhado para hospital de Botucatu.

A mãe chegou a se oferecer para ser a doadora de um rim, mas os médicos desaconselharam. Afinal, ela cuida de mais uma filha e de outro filho. 

Jornalista mobiliza ajuda

O jornalista Paulo Sergio Franco já trabalhou em vários jornais semanais de Agudos, Duartina e Lençóis Paulista.

A sua vida também mudou completamente quando descobriu que uma diabetes mal cuidada levou à insuficiência renal. Atualmente, tem três páginas no Facebook e uma fanpage com cerca de 20 mil acessos.

Mas o "homem notícia" descobriu que as informações de utilidade pública têm mais apelo do que muitos dos acontecimentos do dia a dia.

A reviravolta na sua vida ocorreu em 2014, quando passou muito mal, foi levado para o pronto-socorro do município e entrou em estado de coma profundo. Houve necessidade de ser transferido para o Hospital Estadual de Bauru, onde ficou 30 dias internado na UTI, até acordar repentinamente.

"O meu estado era de coma irreversível, chegaram até a procurar funerária, mas abri o olho no 30º dia e perguntei ao médico há quantas horas eu estava na cama e veio a resposta que já tinha passado um mês", relembra o jornalista.

Daí em diante começou a fazer as sessões de hemodiálise três vezes por semana. Entrou em depressão e precisou de apoio psicológico.

Havia uma esperança: passar por uma transplante. No início de 2017, conseguiu um órgão compatível, após ficar na fila do cadastro nacional aguardando a vez, mas veio nova surpresa na sua vida.

"Já estava na sala de cirurgia quando um médico veio me avisar que as chances de sucesso da cirurgia seria de apenas 5%, porque as veias das minhas coronárias do coração estavam entupidas e eu poderia não suportar a cirurgia. Não fiz a operação e voltei às sessões de hemodiálise", conta.

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Jornalista Paulo Franco durante sessão de hemodiálise em Bauru

MUDANÇA DE RUMO

Enfrentou depressão novamente, mas decidiu que, a partir daquela data, pretendia ajudar as pessoas. "Passei a ajudar desde os mais idosos até as crianças e adolescentes que fazem a hemodiálise. Encontrei a solidariedade para continuar vivendo", relata.

E foi assim que passou o final do mês passado e as últimas semanas: correndo atrás de pessoas que estavam propensas a ajudar na realização da festa de 15 anos de Mariana Maciel.

Para se locomover Paulo tem recorrer ao auxílio de uma bengala de alumínio. "As pernas estão ficando fraca. Tem dia que a gente sai arrebentado da hemodiálise", contou o jornalista enquanto caminhava na segunda-feira junto com o repórter até a casa da jovem Mariana. Mas no semblante demonstrava satisfação de ter conseguido tudo para a festa da menina.

Ajuda ao próximo com o artesanato

Muitas vezes, simples atividades de lazer podem fazer a diferença e ter repercussão até fora do País. O que era para ser entretenimento viabilizou produtos para levar alegria a crianças pobres do continente africano e também a meninos e meninas que fazem tratamento contra o câncer em um hospital de Jaú. O grupo de idosos atendidos pelo Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos para Idosos, mantido pela entidade Serviço de Promoção Social de Piratininga, conseguiu a proeza de dar um exemplo de solidariedade e se transformar em uma "rede do bem".

Dona Creuza Pereira Genaro, 65 anos, é uma das 14 pessoas que frequentam o projeto social e, com a sua simplicidade, relata que o objetivo era sair de casa para passar o tempo, mas acabou servindo para fazer caridade e alcançou relevância maior. "A gente não esperava por isso. Foi muito bacana, está muito difícil a situação das pessoas. Não tem como explicar como isso foi bom para nós, é coisa de Deus. Não fizemos nada para ganhar algo em troca, queremos só boa saúde para continuar a ajudar ao próximo", contou. 

O orientador social do Serviço de Fortalecimento de Vínculos para Idosos, Guilherme Dias, admite que foi um trabalho edificante. As atividades surgiram com o grupo Viver Melhor, quando as voluntários que frequentavam às terças e quintas-feiras, tiveram aula de artesanato.

A ideia de produzir bonecas foi da professora Maria Estela Taparelli em um projeto desenvolvido na antiga estação ferroviária, onde há atividades de alongamento, dança, teatro e artesanato para cerca de 60 pessoas com mais de 65 anos em situação de vulnerabilidade social. A atividade de confeccionar bonecas ficou para um grupo de 14 pessoas.

Quem ajudou o envio das bonecas para a África foi a freira Elaine Rodrigues de Souza, da Congregação das Apostilas do Sagrado Coração de Jesus, que foi para a África.

Depois do envio das cem bonecas para Moçambique, o grupo decidiu, então, continuar a fazer as atividades para ajudar ao próximo. Foi então que as senhoras do projeto social produziam artesanalmente 20 bonecos e 20 bonecas, além de bonés e laços coloridos para amarrar na cabeça. Esse material teve como destino a Casa Ronald, de Jaú, que abriga criança e adolescentes em tratamento contra o câncer no Hospital Amaral Carvalho (HAC), que não têm condições financeiras para hospedar na cidade. "Fez muito sucesso. Eu até me vesti de Papai Noel para fazer a entrega dos bonecos e bonecas feitas de pano", contou Guilherme. Na volta das atividades, neste ano, o grupo tem planos de continuar as atividades, agora direcionadas para atender a pessoas de Piratininga.

História de 'Elô' mobiliza Pederneiras

A mobilização para ajudar a estudante Eloysa Santis de Campos, 16 anos, conseguiu apoio de muita gente em Pederneiras. A jovem morreu em abril do ano passado, vítima de aplasia medular, mas a sua luta contra doença foi um exemplo de luta pela vida.

O movimento acabou também criando a "Semana Municipal de Incentivo à Doação de Medula Óssea", conforme projeto de lei aprovado pela Câmara de Pederneiras, de iniciativa do vereador Ezequiel Lima, amigo da família.

Diagnosticada em setembro de 2014 com aplasia medular - uma doença que leva a medula a produzir quantidade insuficiente de hemácias, plaquetas e leucócitos -, Eloysa chegou a receber um transplante de medula do pai biológico em 2015. Apesar do sucesso inicial do procedimento, após alguns meses, exames mostraram que a medula estava perdendo força. No dia 11 de abril do ano passado, ela acabou não resistindo.

A mãe da jovem, Aline Souza Santis, lembra que houve muita solidariedade da população para ajudar a filha. Isso despertou para a importância de ter um cadastro com informações atualizados no Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome). Na época, apareceram muitas pessoas se dispondo a ser doador, porém, a dificuldade foi encontrar medula compatível. A chance de compatibilidade entre doador e receptor é de, em média, uma em cem mil. Com isso, a história da jovem Elô deixou como legado uma campanha educativa que será feita na cidade neste ano com palestra para orientar a população e incentivar a conseguir doadores, porém muito importante atualizar os dados no cadastro. "Muitas vezes, a pessoa muda de lugar, não atualiza e numa emergência ela tem a medula compatível e não pode ajudar a salvar uma vida, porque não tem endereço e informação atualizada para localização", cita a mãe.