Nascemos homo sapiens na espécie. No entanto, a humanidade não nos é dada como um "presente", sendo necessário desenvolvê-la por meio das interações com outros humanos. Se um recém-nascido for abandonado à própria sorte, deixado em uma floresta, por exemplo, e conseguir sobreviver sendo alimentado e "cuidado" por outros animais, não desenvolverá certas características humanas, como a linguagem verbal, a inteligência simbólica e outros processos psicológicos superiores, tais como a intencionalidade. Isso porque para que tais processos sejam construídos é preciso que haja exemplos interacionais, ou seja, que o humano recém-nascido interaja com outros mais maduros culturalmente que, por meio das mediações, lhe possibilitará o desenvolvimento e a aprendizagem.
Aprendemos com o biólogo britânico Richard Dawkins que, em termos filogenéticos, se o que desejamos é construir uma sociedade com indivíduos que cooperam para o bem comum é melhor não contarmos com uma ajuda significativa por parte da natureza biológica, uma vez que nossos genes são "egoístas", preocupando-se, sobretudo, com sua própria manutenção e continuidade. Nossa herança biológica enquanto espécie, de forma isolada, não nos garante o desenvolvimento de valores necessários a uma convivência pacífica.
E é nesse ponto que entra a importância da cultura e das aprendizagens. Aprendemos a ser humanos. Mas, que humanos temos aprendido a ser? O que tem sido prioridade em nossas pautas sociogenéticas? As escolas são, sem dúvida, cenários privilegiados para a formação e o desenvolvimento humano. Sabemos que os conteúdos científicos ensinados e aprendidos nas escolas são fundamentais para a nossa constituição humana. Esses conteúdos não se restringem ao conhecimento matemático ou linguístico, extremamente importantes, mas podem e devem tratar também de outros temas, como por exemplo, o ensino das virtudes morais.
Sim! Podemos aprender a ser virtuosos. E o que é a virtude? Virtude é aquilo que oferece valor ao humano, é como uma disposição para fazer o bem, e é moral quando se inscreve no campo das relações sociais, da interação com o outro. Segundo o filósofo Comte-Sponville, a virtude é construída na interface entre a hominização, enquanto fato biológico, e a humanização, enquanto fato e exigência cultural, nos possibilitando ações tipicamente humanas, tais como a coragem, a justiça, a fidelidade, a generosidade, o empenho à palavra dada.
Que nossas escolas e a sociedade em geral possam auxiliar efetivamente nossas crianças a se humanizarem, considerando a possibilidade de ensinar as virtudes, visando à construção de um mundo mais justo e solidário, com pessoas aptas a cooperar e a buscar o bem comum.