Quando era criança, sonhava em ter uma casa própria (morávamos, eu, meu pai, minha mãe e mais três irmãos, em uma casa de madeira alugada). Sonhava em ter meu próprio quarto, com cama, guarda-roupas e penteadeira com espelho (eu dormia em uma cama num canto da sala).Sonhava comer uma maçã inteira (minha mãe compra uma para dividir entre quatro filhos; ela e meu pai não comiam). Sonha em tomar Coca-Cola todos os dias, já que só podíamos fazer isso no domingo, junto com a macarronada e o frango assado. De sobremesa, um ou dois quadradinhos de chocolate. Era uma vida dura.
Quando passei para o colegial, os professores começaram a incutir outros sonhos nas nossas vidas. Fazer faculdade era o que parecia mais inatingível. Imagina eu, filha mais velha de quatro irmãos, que só tomava refrigerante no domingo, jamais ia ter condições de fazer faculdade.
Mas eu tinha um professor de Matemática, o Manuel - ou Mané -, que tinha a capacidade de fazer com que a gente sonhasse com uma vida melhor. E mais: tinha a capacidade de que a gente estivesse disposto a lutar para que os sonhos se realizassem. E ele conseguiu despertar outros professores nessa jornada. Durante três anos, uma corrente formou-se em torno daqueles alunos que conseguiram chegar até o terceiro colegial. E aquela foi a primeira sala da escola onde todos os alunos conseguiram fazer vestibular. Mais da metade passou. Eu fui uma delas.
Hoje, moro numa bela casa, tenho quatro com suíte, como o que eu quero, não preciso dividir uma maçã entre meus filhos. E como irmã mais velha, consegui incentivar os meus irmãos a irem pelo menos caminho de estudos. Foi fácil? De jeito nenhum! Mas valeu a pena.
Por isso, me incomoda profundamente essa geração "nem nem". Será que o fato dessa moçada não precisar se esforçar faz com que fiquem perdidos sem saber o que fazer? Só eu acho que essa geração não consegue lidar com a pressão e com as dificuldades sem precisar da ajuda de um psicólogo?
E sabe o que me preocupa muito? É dessa geração que, em alguns anos, sairão prefeitos, vereadores, deputados, presidente da República... Como eles dizem, "omg" (oh my God). Tudo bem que não estamos num momento político dos melhores. Mas Deus nos livre do que vem por aí.