09 de julho de 2026
Articulistas

A condição ?Ceteris paribus?

Reinaldo Cafeo
| Tempo de leitura: 4 min

A condição "Ceteris paribus" é muito utilizada quando muitas variáveis podem interferir no resultado do modelo de estudo proposto. Na análise econômica, em especial, esta condição é traduzida como "tudo o mais constante". Assim, se no ambiente microeconômico afirmamos que se o preço de um bem cair, ocorrerá aumento de demanda, precisamos estabelecer que outras variáveis não interfiram nesta relação de consumo. Por exemplo: o preço da carne caiu, em tese haverá aumento de demanda pela carne, mas se a pessoa é vegetariana, para ela esta lógica não valerá, portanto, para afirmar que a demanda aumentará precisamos que fique constante a preferência do consumidor.

Na análise do ambiente macroeconômico, também é preciso introduzir a condição "Ceteris paribus". Quando projetamos os principais indicadores da economia, permitindo estimar o que pode ocorrer, por exemplo, com o crescimento econômico, se faz necessário abstrair algumas variáveis que podem interferir no resultado projetado.

Concentremos-nos no crescimento econômico. Está cada vez mais comprovado que a recessão econômica ficou no passado. O último indicador do Banco Central, o IBC-BR, que se antecipa ao IBGE no tocante à avaliação da geração de riquezas, apontou para crescimento, em novembro, de 0,49% sobre outubro e no acumulado do ano de 2017, o indicador é positivo em 0,79%. Assim, 2017 confirmará crescimento econômico depois de dois anos de recessão. Qual é a grande ansiedade dos agentes econômicos? Saber como será 2018 considerando dois importantes eventos: Copa do Mundo e eleições presidenciais. Além destes dois eventos, todos se perguntam: será que o País crescerá economicamente mesmo sem levar em frente as reformas, notadamente da Previdência? E o dólar, explode ou fica comportado? A inflação está mesmo sob controle? As contas públicas fecham? Observem que são inúmeras as dúvidas e muitas variáveis a isolar.

Vamos por partes. Sem dúvida, é preciso considerar a interferência política no ambiente econômico. Eu poderia afirmar que a economia irá crescer, desde que mantida as condições "Ceteris paribus", ou seja, nesta análise a classe política não tomaria decisões que possam abalar a confiança dos agentes econômicos, além disso, os eventos internacionais não afetariam a economia, também a sucessão presidencial seria tranquila e ainda o País não perderia o foco na produção no momento da Copa do Mundo, entre outras variáveis.

Então, objetivamente o crescimento não está garantido? Não é bem assim. Apesar da necessidade de isolar certas variáveis, a dinâmica econômica permite avançar mesmo que alguma variável interfira nas projeções. Tomemos com exemplo o controle da inflação. Nada aponta para crise de abastecimento, notadamente, dos produtos básicos. Assim, com oferta garantida, não há motivos para pressão de custos vindo do setor agrícola, o máximo que teremos é um realimento pequeno de preços por não termos nova supersafra projetada. Mesmo com projeção do aquecimento do consumo, não há motivos para imaginar que todos os preços da economia dispararão. Assim, trabalhar com inflação na casa dos 4% para este ano é razoável.

E a questão fiscal, se as reformas não saírem? A minha leitura é que mesmo que a classe política interfira para pior nesta variável, os agentes econômicos já entenderam que em ano de eleições dificilmente serão levadas à frente reformas que aparentam ser impopulares, como é o caso da reforma da Previdência. Começa a existir um consenso que o avanço nestas questões se dará a partir de 2019. Lembro que as reformas são necessárias para médio e longo prazos. Para este ano, é só executar o orçamento aprovado, mesmo que ocorram algumas interferências nos gastos públicos.

Com a blindagem das reservas cambiais, o País está mais bem preparado para enfrentar eventuais crises internacionais. Assim, podemos indicar que o primeiro semestre deste ano será de crescimento e retomada da confiança. Então, o que preocupa mesmo? A sucessão presidencial. Se quem estiver à frente nas pesquisas for um candidato reformista, o cenário é benigno, mas se a dianteira estiver com candidato populista, o cenário é maligno.

Em resumo: o País crescerá, a inflação estará comportada, as reformas possivelmente não sairão ou sairão parcialmente, os eventos internacionais, se ocorrerem, tendem a abalar pouco a nossa economia, portanto, não há motivos para introduzir a condição "Ceteris paribus" nesta variáveis. Agora, no tocante à sucessão presidencial, projetando a eventual eleição de um populista que introduza um modelo econômico no Brasil sem sustentação, semelhante ao modelo que nos levou à recessão e ao desemprego, esta sim teremos que colocar: o crescimento virá, as variáveis ficarão comportadas, os agentes confiarão nas reformas mesmo que sejam a partir de 2019, desde que sejam mantidas as condições "Ceteris Paribus" na sucessão presidencial. Sucessão presidencial não é Fla x Flu, portanto, pés nos chãos na avaliação de soluções milagrosas. Esta variável não pode nos levar a um passado que nos condenou.

O autor é economista e articulista do JC. Está em Planeta Economia (Youtube).