Os clichês são aquelas palavras ou frases que vivemos a falar sem refletir, baseados no que escutamos o vizinho, sempre ele, dizer. Os "clichenistas" são pessoas que falam o que pensam, usam aqueles termos batidos, papagaiando frases feitas, mas nem sempre pensam no que falam. Daí que decorrem as mais complicadas e intrincadas situações, dando origem a desentendimentos e situações das mais embaraçosas.
Aliás, tenho algum receio dos "clichecovisks" (termo russo para designar pessoas que falam clichês 25 horas do dia), que despejam clichês e frases de livros até no lanche da tarde. Dá medo. Parece que estamos conversando com um livro e não com uma pessoa. São indivíduos receitistas. Tem uma receita para tudo na vida. Seu casamento deu errado? Faça isso.
Sua unha está encravada? Faça aquilo. Seu candidato perdeu a eleição? Jogue a culpa na oposição. Opa... parece poesia... Tô fora. Mas, voltemos ao tema do texto, que é o dos clichês.
Estes são, em sua maioria, engraçados. E nós, de tanto repetir cometemos gafes das mais interessantes. Lembro de um amigo que, sem pensar no que disse, e repetindo o velho clichê do 'Tudo bem?', chegou no velório do pai de um amigo e indagou: 'E aí, rapaz, tudo bem?' Não preciso falar que o amigo respondeu: 'Não... tudo mal...' O homem dos clichês, então, notou a gafe, tentou se redimir: Tudo passa. Não adiantou. O filho do defunto disse: Passar, passa, mas no momento sinto dores... O menino clichê olhou pra mim e "clicheficou": Melhor eu ficar calado. Eu respondi: excelente ideia. E mandei: até que enfim você pensou. Pois é, disse ele, às vezes a gente sai mandando brasa e não pensa. Respondi: faz parte da vida. Mas lembrei que esta frase também é clichê. Estaria eu entrando nessa vibe? Deus me proteja! Olha aí outro clichê.
Resolvi ficar calado.
E outro dia, num desses domingos bem calorentos de nossa Bauru, encontrei um amigo, o Vacila, na feira do rolo. Começamos a conversar. O Vacila, este é seu apelido, tocou no assunto dos clichês e lembrou de uma frase clichê que ele sempre dizia: 'De graça até injeção na testa'. Mas, sabe, meu caro, informou ele, parei de falar esta frase quando recebi uma ligação em casa. Sim e o que aconteceu para você ter libertado-se deste clichê?, indaguei. Ele respondeu: é bom sempre pensar no que falamos. Tocou o telefone, eu atendi, e uma voz metálica mandou esta: aqui é da funerária Mortos e Enterrados. O senhor acaba de ganhar um velório, inclusive com um caixão "zero bala", coisa linda e feito sob medida. E tudo grátis! Mas, lembre-se que esta promoção só é válida por 7 dias. Aproveite e não perca a chance deste funeral e enterro grátis! Como no Brasil tudo é caro, aproveite, pois grátis até injeção na testa.
Ele prosseguiu: eu desliguei o telefone rapidinho e falei para minha esposa: vou tomar o maior cuidado com os clichês. Não falo mais sem pensar. Nem quero mais saber da frase: de graça até injeção na testa... Pois é... Quem não pensa no que fala recebe cada proposta.
Por isso eu digo: cuidado com os clichês...
O autor é colaborador de Opinião.