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| Dinheiro farto? Só na foto: porém, em meio ao aperto, itens de peso na cesta do consumidor de menor renda tiveram deflação |
As famílias de menor renda sentiram menos o impacto do aumento dos preços de produtos e serviços no último ano, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O Indicador Ipea de Inflação por Faixa de Renda revelou que a população mais pobre foi afetada por uma inflação de 2,2% no acumulado de janeiro a dezembro, ante a uma taxa de 3,7% para as famílias com renda mais elevada.
O indicador divide em seis faixas de renda as variações de preços medidas pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), apurado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nos extremos, estão o grupo com renda familiar de até R$ 900,00 mensais e o de renda acima de R$ 9 mil.
Diretor de estudos e políticas macroeconômicas do Ipea, José Ronaldo de Castro Souza Júnior explica que a significativa desaceleração no preço dos alimentos ao longo de 2017 foi o principal fator para a redução da pressão sobre a renda das famílias brasileiras, especialmente para as que possuem menor poder aquisitivo.
"Quando a análise é feita por faixa de renda, é preciso levar em consideração a composição do consumo destas famílias. E, para as mais pobres, os alimentos são o item com maior peso nos gastos totais. Diante da diminuição do custo deste item, a inflação pesou menos para elas", detalha.
Em 2017, itens de grande peso na cesta de consumo das famílias de menor renda sofreram deflação, como é o caso do arroz (-10,9%), feijão (-46,1%), frango (-8,7%) e leite (-8,4%). No entanto, ainda que em menor escala, as desacelerações das taxas de crescimento dos preços de serviços que comprometem boa parte do orçamento das classes mais pobres, como é o caso dos aluguéis - que recuaram de 5,3% para 1,5% entre 2016 e 2017, também são apontadas como importantes focos de alívio inflacionário ao longo do ano.
DEZEMBRO
Ao contrário dos meses anteriores, quando a trajetória dos alimentos foi a principal responsável pela menor aceleração da inflação dos mais pobres, o alívio inflacionário em dezembro passado veio, sobretudo, do comportamento das tarifas de energia elétrica. De acordo com o Ipea, a já esperada alta dos alimentos nesta época do ano impactou mais fortemente as classes mais pobres.
Por outro lado, a deflação de 3,1% no preço da energia elétrica desencadeou maior alívio na inflação para este grupo, tendo em vista que, enquanto esse item representa 5,1% do dispêndio total destas pessoas, na faixa de renda mais elevada esse percentual de gasto cai para 2,1%.
Na outra ponta, as despesas com transporte impactaram mais fortemente a inflação das classes mais abastadas, repercutindo a alta de itens de peso no orçamento dessas famílias, como passagens aéreas (22,3%) e gasolina (2,3%). Adicionalmente, o reajuste de 1,1% dos planos de saúde fez com que a inflação no segmento de saúde e cuidados pessoais fosse maior nas parcelas de maior renda.
Bolso: por que ainda pesa tanto?
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| José Ronaldo de Castro Souza Júnior, do Ipea: indicadores |
Famílias com orçamento menor, inevitavelmente, continuam com a sensação de que os preços de produtos e serviços seguem muito elevados. Para entender o motivo, um dos pontos a ser considerado é que, apesar de menor do que anos anteriores (quando a inflação anual chegou ao patamar de 10%), o índice, em 2017, ainda foi positivo em 2,95%.
"A diminuição da inflação para um item importante para as famílias mais pobres, como é o caso dos alimentos, apenas atenua o problema de restrição orçamentária, mas não resolve", acrescenta o diretor de estudos e políticas macroeconômicas do Ipea, José Ronaldo de Castro Souza Júnior.
Outro fator importante, conforme destaca o economista Reinaldo Cafeo, são as vagas de emprego perdidas durante a crise e não repostas, o que leva, ainda, muitas pessoas a depender do trabalho informal, obtendo menor remuneração para sobreviver.
"A reforma trabalhista vai ajudar na geração de empregos, mas trazendo a possibilidade do emprego intermitente, de jornadas menores. Então, ainda vai ficar difícil para a renda se recuperar ao nível pré-crise. Até 2020, 2021, teremos um longo caminho", acrescenta.
Já os trabalhadores que mantiveram seus postos com carteira assinada não receberam, de maneira geral, reajustes salariais compatíveis com a inflação registrada nos últimos anos, justamente pelo aperto financeiro vivido também pelas empresas.
"Porém, com a acomodação dos preços em 2017, já há muitas famílias, por exemplo, voltando a consumir marcas líderes do mercado, que, normalmente, são mais caras. E esta ampliação de alcance é um dos efeitos benéficos do controle da inflação", completa Cafeo.