09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana: Larissa dos Santos Celestino Sílvio Teixeira da Silva

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 6 min

Renan Casal
Rainha Larissa e Rei Momo Sílvio logo após a escolha, dia 27, no Sambódromo de Bauru

Na "liturgia" da maior festa popular, cultural e de turismo de rua do País, o desfile de Carnaval terá sua abertura no Sambódromo de Bauru neste ano com dois legítimos representantes da Escola Tradição da Zona Leste (Mary Dota).

Depois de se prepararem há tempos para vencer a disputa pelo reinado e não desistirem de resultados adversos nas edições anteriores, a operadora de telemarketing Larissa dos Santos Celestino, 22 anos, do Jardim Godoy, e o autônomo Sílvio Teixeira da Silva, 25, da Vila Independência, foram aclamados como rainha e rei Momo 2018.

Eles receberam o JC para falar sobre a paixão pela festa popular, o envolvimento da comunidade e a legião de voluntários que transforma a dificuldade na realização do desfile no Sambódromo (10 e 12/2): um encontro onde, na pista, não há diferenciação de cores, alegorias ou mesmo de classe social. 

Por esta razão, Larissa e Sílvio consideram que a união é a maior simbologia (e o conteúdo, em si, que explica e garante a realização da folia no Interior). Leia os principais pontos da entrevista:            

Jornal da Cidade: O que representa o Carnaval para vocês?

Sílvio: Alegria, folia, e agora com essa sensação de ser campeão. Nós lutamos muito para a conquista deste posto. O ano passado eu fui bem na disputa do reinado do Carnaval. Mas decidi dar um mortal [salto] na apresentação e me dei mal: perdi a disputa. Neste ano, deu tudo certo e segui as orientações.   

Larissa: O Carnaval representa muita alegria e também companheirismo, esforço e dedicação de todos aqueles que se juntam para fazer essa festa acontecer no Sambódromo. Graças a Deus, consegui alcançar a coroa de rainha do Carnaval depois de meu terceiro ano na disputa. Me preparei e foi muito gratificante essa escolha.

JC: E o que representa ser a rainha e o rei da festa?

Larissa: Acho que é uma satisfação pessoal porque eu me preparei para isso, eu fui atrás desde o primeiro ano em que eu participei. Que queria esse título e me esforcei. É um dever cumprido.

Sílvio: Representa uma vitória porque eu agradeço muito aos que aconselharam a ensaiar, como o César, diretor da Escola Tradição. E por isso essa vitória não é só minha, é de todos.

JC: Para os que não gostam da festa, ou não a conhecem, o que dizer sobre esse envolvimento de centenas de pessoas nos bairros para que o desfile aconteça?

Sílvio: O Carnaval é uma paixão contagiante que mistura tudo e todos. No desfile não tem homem, não tem mulher, não tem gay, não tem lésbica, não tem religião, não tem nada. É todo mundo igual, independentemente de cor, sexo, se é gordo ou magro. E, além disso, as pessoas que não conhecem o Carnaval precisam saber que não tem como fazer o desfile sem a participação de muita gente, da pessoa que solda o carro aos batuqueiros. É muita gente envolvida. Sem essas pessoas não teria o Carnaval. E quem está de fora do desfile não consegue entender essa magia.

Larissa: Se as pessoas que não conhecem tivessem essa noção de que só se faz Carnaval com companheirismo, com dedicação, com o envolvimento de muitos, muitos voluntários, o pensamento sobre a festa mudaria. Acho que se essas pessoas souberem que muitos saem do trabalho e, mesmo cansados, vão para o barracão ajudar nas fantasias, na preparação de tudo para centenas que desfilam, essas pessoas iriam gostar também do Carnaval. Não tem como confeccionar tantas fantasias em pouco tempo sem o pessoal que ajuda, que participa. Quem vê o carro alegórico pronto não sabe o quanto é difícil fazer, ter a segurança, o enfeite correto. São quatro, três meses antes para que o Carnaval possa acontecer. Não é como o folião que chega fevereiro e pronto.

JC: O Sílvio tem acumulado experiência com percussão?

Sílvio: Tudo começou com uma brincadeira em casa. Fiz uma batucada, eu e meus primos, e dali começamos a montar um grupo. Quero aproveitar para agradecer ao incentivo do Daniel. Ele me levou para o samba e já estou aí nessa experiência com o grupo, que virou coisa séria. É meu hobby predileto. E o grupo já tem um ano e meio e tocamos de tudo.

JC: E você, Larissa, curte o samba ao longo do ano ou só no Carnaval?

Larissa: Na verdade eu acho que isso já veio de sangue. Meu pai é pagodeiro. Eu cresci nesse meio, cresci sambando. Então pra mim foi natural e pra mim é um hobby o ano inteiro. Eu também trabalho com eventos, trabalho com grupos de samba e faço apresentação para casamentos, formatura, festas. É uma paixão que não é só em fevereiro. É o ano todo sambando. Minha mãe também sambava e meu pai canta no grupo Kananga do Alemão. Pra mim foi natural aprender a sambar. Eu comecei claro com o pagode. E a partir de 2012 eu fui pra escola, aprendi os passos, ensaiei e de lá para cá não desisti e fui aperfeiçoando meu samba.

JC: Na abertura do Carnaval no Sambódromo o rei e a rainha fazem as honras. É como abrir a porta de casa para receber os convidados e iniciar a festa. Estão preparados?

Sílvio: Foi dada a chave da cidade pra gente nos dias do Carnaval. Vamos fazer a festa em todos os cantos onde formos convidados. Vamos abrir os desfiles com muita honra e ai é com cada escola, com sua garra e que vença a melhor. 

Larissa: É uma honra representar o samba, abrir os desfiles no Sambódromo.

JC: Como é o envolvimento de vocês com a escola que vocês defendem?

Sílvio: É muita união. E não tem como ser diferente. Eu trabalho à noite. Então nesse período eu fico o dia todo na escola e no final da tarde vou pra casa pra tomar banho, jantar e vou pro serviço, porque entro às oito. Mas tem muita gente envolvida. É correria daqui, correria de lá. E tem de ser assim. Solda aqui, arruma carro ou uma parte que quebra. No ano passado, varamos a noite para terminar o carro e acabou às 9 horas do dia do desfile. Ai tem de levar pro Sambódromo. Foi em cima da hora. Mas graças a Deus deu tudo certo.

Larissa: Infelizmente a verba possível de ser disponibilizada pela Prefeitura ainda é pouca para que as escolas façam um carnaval mais bonito ainda do que conseguimos fazer hoje. Tem escola que tem menor condição financeira para fazer um trabalho em melhor condição. Por isso a importância de todas essas pessoas que estão envolvidas com o Carnaval. Se as pessoas soubessem da dificuldade e do amor, do envolvimento de tantas pessoas que ajudam, é união mesmo, elas saberiam que o que é apresentado é muito bom. Carnaval pra mim é união mesmo. 

PERFIL

Larissa dos Santos Celestino: rainha, 22 anos

Bairro: Jardim Godoy

Escola em Bauru: Tradição da Zona Leste

Escola de fora: sem preferência

Time: Corinthians 

Profissão: operadora de telemarketing

Música: "Sou eclética"

Intérprete: Alcione

Desfilou: Pela Azulão do Morro, Mocidade, Bloco Bonde do Consulado e Tradição

 

Sílvio Teixeira da Silva: rei momo, 25 anos

Bairro: Independência

Escola em Bauru: Tradição da Zona Leste

Escola de fora: Unidos do Peruche

Time: São Paulo

Profissão: autônomo

Música: "Ouço de tudo"

Intérprete: Banda Nosso Jeito

Desfilou: Pela Tradição da Zona Leste e Silvio Teixeira da Silva