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| Maria Aparecida Moreira Machado e Carlos Ferreira dos Santos avaliam o procedimento realizado em Miami, nos EUA; André Shinohara mostra mesa de anatomia digital, considerada um método moderno |
Usado para facilitar a aprendizagem em aulas de anatomia, o cadáver passa por processo específico que o mantém conservado. O formol não é mais permitido e, atualmente, usa-se água e sal. Ambas as formas, entretanto, deixam o corpo mais rígido. Técnica pouco usada no Brasil, o congelamento destes corpos é aposta da Universidade de São Paulo (USP) em Bauru para melhorar a qualificação dos alunos de graduação. Diferenciado, o procedimento fará com que o universitário trabalhe em um contexto bem próximo do realizado em um paciente com vida.
A instituição já está se movimentando para implementar um centro de treinamento com uso de cadáver congelado, na cidade. A expectativa é que a unidade comece a funcionar a partir do ano que vem, conforme destaca a diretora da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB-USP) e superintendente do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC/Centrinho), Maria Aparecida de Andrade Moreira Machado.
Ela explica que teve conhecimento de algumas iniciativas de uso de cadáver congelado para treinamento de técnicas cirúrgicas. "Com esse dado, passei a pesquisar e descobri que o Hospital do Câncer de Barretos já usa esse método e que existe uma empresa que traz os cadáveres para o Brasil, de uma forma legal", aponta.
Machado cita que, com a infraestrutura da FOB, Centrinho e a chegada do curso de Medicina, a busca pelo centro é justificável e essencial. "Entrei em contato com o 'Miami Anatomical Research Center (Marc), em Miami (Estados Unidos), para agendar uma visita. Também propus uma parceria inicial para montarmos uma unidade na USP de Bauru. Da nossa parte, a ideia é oferecer a eles capacitação em cirurgias craniofaciais", detalha.
AVAL DA REITORIA
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| André Shinohara explica que o modo como o cadáver é conservado hoje deixa o corpo mais rígido: "Já com o cadáver fresco, os tecidos estão mais moles; o procedimento fica muito próximo do real" |
A visita ao Marc ocorrerá no dia 26 de março. "Trarei todas as informações para conversar com os professores de anatomia da FOB novamente e ver como podemos, em médio prazo, implementar o centro aqui. Sabemos que isso requer investimento e tem burocracia, mas a nossa ambição é viabilizá-lo já para o ano que vem. Mais uma vez, reitero a importância da doação do espaço do Tiro de Guerra, onde será instalado esse núcleo".
A diretora destaca que, em um primeiro momento, o foco são os procedimentos craniofaciais. "Não é só oferecer para os alunos de graduação um treinamento diferenciado, mas também cursos de capacitação para profissionais da área cirúrgica. Eles teriam chance, por exemplo, de fazer um treinamento de implante coclear (dispositivo eletrônico para portadores de surdez, que visa proporcionar sensação auditiva próxima ao fisiológico) na cabeça de um cadáver congelado. Isso não existe no Brasil", banca.
Machado falou sobre a iniciativa com o novo reitor da USP, Vahan Agopyan. "Ele ficou bem animado e deu carta branca", destaca. "Vai melhorar a qualificação dos nossos alunos de graduação, permitir capacitar os profissionais da rede básica de saúde e também abrir esse treinamento para toda América Latina", finaliza.
RECURSOS
Eleito diretor da FOB/USP para o mandato que será iniciado em 10 de março de 2018 com duração de quatro anos, o professor Carlos Ferreira dos Santos (atual vice-diretor da FOB/USP) destacou a busca de recursos para implementação do centro.
"A montagem em si depende de recursos da própria universidade, via parceria que temos com a ONG Smile Train e Fundação da Universidade de São Paulo (Fusp). Como o próprio reitor deu aval, é sinal de que a reitoria também vai colaborar, já que é um projeto acadêmico que beneficiará os alunos".
PRÓXIMO DO REAL
Professor doutor de anatomia da USP Bauru, André Luis Shinohara diz que, atualmente, a universidade possui oito cadáveres para estudo. Por conta do curso de Medicina, mais oito devem chegar nos próximos dias. Ele explica que, atualmente, os corpos ficam rígidos devido ao modo de conservação.
"Ficam duros para qualquer trabalho ou treinamento. Já com o cadáver fresco, os tecidos estão mais moles, às vezes tem até sangue. Isso significa que o procedimento fica muito próximo do real realizado em um paciente com vida", destaca.
Através desse método, os corpos são congelados logo após a morte e mantidos desta forma até um dia antes das atividades em sala de aula, para preservar as estruturas anatômicas. Na dissecação, é possível ver os vasos sanguíneos e por onde passam os nervos, por exemplo.
Cadáveres frescos, porém, duram menos. Depois das aulas, os corpos são recolhidos por empresa especializada e incinerados.
Departamento de anatomia receberá reforços
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| André Shinohara mostra mesa de anatomia digital: método moderno de aprender |
O Departamento de Anatomia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP viabilizou a doação de mais oito cadáveres para aulas de anatomia no câmpus Bauru (hoje, a instituição já possui oito), uma vez que haverá necessidade de reforço por conta do curso de Medicina.
Professor de anatomia da FOB/USP, André Shinohara destaca que há local adequado para armazenar os corpos. "Temos uma câmara fria, que será reativada", frisa, complementando que a unidade possui, ainda, uma mesa de anatomia digital, para ajudar nos treinamentos.
COMO DOAR
Para doar o corpo é necessário ser maior de 18 anos. Não existe gastos para o doador nem para seus familiares. O prazo para mantê-lo no laboratório é variável: existem corpos na USP de Bauru há mais de 50 anos, que ainda contribuem para o ensino.
Para doar, deve-se preencher documentos retirados no departamento da universidade. É preciso informar os familiares sobre a decisão, para que, quando constatado o óbito, algum parente comunique a instituição o quanto antes.