08 de julho de 2026
Geral

'A chave está na educação'

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 6 min

Samantha Ciuffa
Servidor público é um ofício nobre, afirma Munhoz 

O filho do feirante José Munhoz e da lavadeira de roupas Ana Maria tem na educação o ponto de partida, o meio e o caminho como elemento simbólico, fundamental, para a ascensão na trajetória profissional. Com graduação em administração pela Unimar, de Marília, e em Tecnologia de Gerência pela Unesp Bauru, e pós-graduação em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), José Munhoz Fernandes, é um, felizmente ainda entre muitos, que vê na formação a alça, o impulso e o alcance para a escalada na estratificação social em um País com profundas desigualdades. 

Por isso, ao conversar com o JC, Munhoz lançou afirmações sintomáticas, como "educação é a única saída para ser liberto". Desde 2011 no Senac, tendo em seu percurso também a docência em pós na Instituição Toledo de Ensino (ITE), ele vem dedicando a atual etapa da vida profissional à formação em pós. Ressalta que 60% da mão de obra, na média, no setor público tem graduação, mas não conta com especialização. Assim, ele aposta na contribuição do Senac na área. Leia os principais pontos da entrevista:

Jornal da Cidade: Como o senhor vê esta atual fase de sua vida profissional?

José Munhoz Fernandes: Eu vim para o Senac no final de 2011 atendendo convite para ministrar uma disciplina. Claro que vim para uma instituição muito conhecida, quem não conhece o Senac? E na mesma fase, o Senac iniciava a trajetória em curso de pós-graduação. Eu também já tinha ministrado cursos de pós na ITE e isso me encantava muito. Era um desafio. O fiz. E logo no ano seguinte, o Centro Universitário do Senac em São Paulo optou por trazer para Bauru um curso de pós chamado Gestão Estratégica de Pessoas. Considerando meu trânsito na área de recursos humanos, já na Unesp, considerando minha formação, o mestrado em administração, recebi o convite para coordenar esse curso. E graças a Deus iniciei o desafio de implantar o curso em Bauru, de pós em gestão de pessoas. E tivemos êxito, formando uma turma em 2012 e assim nos anos seguintes. Em 2015 e 2016, a crise desse cenário nacional atingiu a todos e conosco não foi diferente. A sensível queda de procura traz efeito negativo sobre toda a economia. Lamentavelmente, no Brasil não se investe em educação em momentos de crise, o que é ainda pior. Já não se investe em momentos normais. E o raciocínio deveria ser o contrário. É na crise que devemos apostar mais em educação. Eu vim para o Senac por acreditar em uma instituição muito forte. Ela tem um jeito de educar completamente diferente.

JC: Qual é esse jeito de educar diferente?

Munhoz: O jeito de educar no Senac, basicamente, observa o comprometimento das pessoas daqui não só em ensinar para o mercado de trabalho, mas para formar o ser humano, o cidadão. É diferente da escola que forma para o mercado de trabalho e ponto final. Esta escola é, claro, importante. Mas aposto nessa filosofia do Senac de buscar a formação, desde o jovem aprendiz, ao aluno de pós-graduação, do cidadão. E isso me encantou. E isso fez a diferença para mim ao aceitar esse desafio. E hoje o desafio se renova com o curso em pós-graduação em administração pública. A educação é a única saída para ser liberto. E para trabalhar no setor público tem de ter perfil e se doar. Servidor público é um ofício nobre, para servir e não para se servir. 

JC: O desafio se renova com um momento onde o setor público enfrenta dificuldades em eficiência e eficácia?

Samanta Ciuffa
Gabriel, a esposa Rosane, José Munhoz e Beatriz 

Munhoz: Quando fiz a proposta para gerência local, o fiz com a certeza de que era preciso olhar para a área pública, de onde eu vim. Trabalhei na Unesp-Bauru. Outro dado é que o cidadão acompanha hoje com muito mais ênfase a forma como o poder público atua. Eu vi que era o momento de apostar nesse eixo de formação e não havia em Bauru nenhum eixo nesse sentido. E a administração pública vem sendo alvo de organismos também, governamentais e não-governamentais. Exemplo: O Conselho Federal de Administração criou desde 2015 o índice de efetividade dos serviços públicos. Ou seja, ele fiscaliza, acompanha a efetividade em todo o Brasil. O Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE) acompanha e criou seu índice de qualidade em gestão municipal. E não há um cidadão sequer que esteja satisfeito com a gestão pública, de maneira geral. E não é necessário dar exemplos. O que se põe é a necessidade de eficiência da gestão pública. O cidadão não suporta mais má qualidade de serviços. E não aguenta pagar uma série de impostos embutidos, além de sermos muito ineficientes nos serviços, com muitos problemas de burocracia. Esse é o desafio, atuar na formação para colaborar nessa dinâmica. O curso de administração pública do Senac é uma forma de colaborar para ajudar nesse cenário. O projeto pedagógico elaborado pelo Senac São Paulo é de excelência e integra pesquisa com esse universo. 60% é o índice, na média, de graduação no serviço público. Mas esse índice caiu muito em pós-graduação. É uma aposta em um segmento que tem demanda e tem ansiedade da sociedade por mudança de cenário ao longo do tempo.

JC: Há uma definição na vida do senhor que é além de simbólica sobre nosso tema, a educação. Em determinado momento, seu pai, feirante, orientou que deixasse o trabalho e se dedicasse aos estudos?

Munhoz: Meus pais foram muito simples e não tiveram estudo algum oficial. Minha mãe foi alfabetizada por uma vizinha e ela já com os seus 50 e tantos anos de idade. Meu pai não teve escola. Ele aprendeu no dia a dia. E ele tinha uma letra maravilhosa de anotações que guardei da feira. Mas na simplicidade, eles mostraram a mim e meus irmãos que a questão era primeiro estudar. Eu tinha de 13 para 14 anos e já trabalhava. Naquela época, não existiam todas as dificuldades de hoje para se trabalhar mais cedo. Eu entendo as diferenças de época. Os tempos mudaram. Mas o fato é que eu trabalhei desde os 12 anos. Minha mãe era lavadeira, lavava e passava roupa em casa para atender encomendas de fora. E meu pai vendia na feira. Eu estava na primeira semana de trabalho, em teste em um restaurante. E eu chegava um pouco além do final da tarde em casa. E meu pai me chamou e disse que não dava para seguir assim. Que eu teria prejuízos em meus estudos. Ele disse que eu tinha de largar o trabalho e me dedicar aos estudos. E que eles iam se virar em casa. E assim fizeram. Isso foi, sim, uma definição que me levou até aqui e por toda a vida. Isso fez toda diferença na minha vida. Boa parte dela eu trabalhei em três lugares. Eu ainda tenho o sonho de fazer doutorado. Estou pensando nisso agora. Mas isso só foi possível porque lá atrás, quando eu era garoto ainda, meu pai tomou essa decisão. E eu estou aqui graças a eles. Como eu disse, a saída, é a única saída. A outra espinha dorsal disso tudo para mim é a integridade. Educação e integridade precisam estar no alicerce de tudo.