08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Samba, Brasil!

Cinthya Nunes
| Tempo de leitura: 3 min

E mais uma vez fez-se festa no País do Carnaval. Assim, por alguns dias os problemas que assolam o País foram deixados de lado e tudo virou brincadeira. Algo parecido com o botão de pause na programação da televisão e, goste você ou não da festa, sua rotina foi alterada por ela. É preciso dizer, contudo, sob pena de parecer hipócrita, que eu também, quando era adolescente, lá na cidade de Lins, no Interior de São Paulo, brinquei o Carnaval.

Foram momentos de muita diversão, muitas brincadeiras, paqueras e boas histórias para contar. Não sou contra a festa em si. Além disso, confesso que o feriado estendido é um descanso bem-vindo. Não sou daquelas que defende que a vida seja só feita de momentos de seriedade, de trabalho, como se viver, de fato, fosse apenas uma tarefa a ser desincumbida, um tempo a ser regimentalmente cumprido.

Muito pelo contrário, penso que é preciso não levar tudo a sério demais, ao menos não aquilo que não precisa ser levado a sério, afinal de contas, de um jeito ou de outro, vamos perder a batalha, vamos deixar esse plano em algum momento. Conosco, se assim o Universo permitir, apenas levaremos as sombras do que sentimos, o amor que vivemos e recebemos. No mais, tudo é tão somente ilusão e passageiro.

Mas retomando o tema do Carnaval, embora hoje eu não tenha mais a menor vontade de curtir no Reino de Momo, não me cabe fazer qualquer crítica a quem o faz. Contudo, hoje, como adulta, há determinados pontos que me incomodam sobremaneira. O primeiro deles é que a festa em si não fica restrita aos seus dias oficiais. Sob o pretexto de pré e pós-Carnaval, a festança acaba se estendendo por quase todo o mês, com o consequente fechamento de vias públicas e mesmo com a utilização de recursos públicos.

No final de semana que antecedeu o Carnaval foi praticamente impossível transitar pela cidade de São Paulo em determinados locais, muitos deles vias importantes para a circulação, sem rotas alternativas de igual potencial. Ficamos parados no trânsito em pleno sábado de manhã para que os blocos de pré-Carnaval pudessem circular livremente. Podem me criticar à vontade, mas isso não está certo.

Muito mais sério do que isso é o uso de dinheiro público para financiar grande parte desses eventos. Sou contra quando há tanto a ser feito em áreas muito mais importantes e vitais, como saúde, educação, segurança. Qual o benefício que o Carnaval de rua traz para a cidade como um todo? Não estou convencida de que o retorno financeiro não seja restrito a determinados grupos apenas e que, como quase tudo nesse País, o picadeiro não esteja armado para que a plateia é que faça o papel dos palhaços, mesmo ignorando tal condição.

Dia desses, li uma notícia de que em um município brasileiro o prefeito cancelou o financiamento do Carnaval de rua e investiu em uma campanha de cirurgias de catarata para a população. Fico pensando aqui que é provável que tal prefeito ou prefeita, não me lembro, não ser reeleja nas próximas eleições, pois por certo a medida, muito embora louvável, não é popular. No fundo, parece-me muitas vezes, o povo gosta de ser enganado e de ganhar pequenas esmolas.

Penso que tudo bem a gente se esquecer por alguns dias de que vivemos uma imensa e lamentável crise moral no País. Tudo o que vemos são dedos apontados uns para os outros, com todo o tipo de acusações possíveis. Está, inclusive, bem difícil de saber em quem e no que acreditar. Em verdade, estamos desacreditados até mesmo de que haja uma solução, uma salvação. Fingirmos, assim, por cinco dias que tudo está bem, no fim das contas, não faz muita diferença...

O ponto é que, dada a pausa já programada e inevitável, é necessário abrirmos os olhos para o estado de coisas em que vivemos e, ao menos, pensarmos que faz algum sentido que enquanto se alardeia falta de recursos, sejam investidas quantias absurdas com festanças. Será que estamos, no fundo, fantasiando nossos problemas?

Tudo bem fazermos piada com tudo, desde que tudo não vire somente piada de mau gosto e desde que, ao final, não nos reste apenas o choro dos desamparados...