Viagem especial. Esmero em cada detalhe. Passeios, compras, museus, teatro... O momento mais esperado: um jantar no badaladíssimo "Onaturel". Onde? Simplesmente em Montmartre, famosa região boêmia de Paris. Dois meses de espera, reserva agora confirmada. Finalmente, a noite tão esperada. Adolfo e Eva vestiram-se com todo o apuro possível. Precisavam estar elegantes como nunca. Festejariam 10 anos de um casamento de fazer inveja.
O maître recebeu-os com elegância e, depois, conduziu-os à mesa reservada. Deslumbrados com o requinte dos detalhes, decidiram, taça espumando na mão, brindar em pé, olho no olho, o amor que os unia. Estavam felizes como nunca. Estavam completamente pelados.
Pelados sim! Aliás, esta é a condição. No "Onaturel", só se come pelado ou pelada. Nem poderia ser diferente, um restaurante para nudistas e com regras bem marcadas. A primeira: trancar toda elegância num armário com chaves. Só depois, completamente nus, os clientes podem acessar o salão. Ah..., os sapatos são opcionais; as mulheres poderão manter a sensualidade em cima dos saltos. Agora, homem pelado de sapatos e meias sociais, convenhamos, coisa horrorosa! Vestidos só os cozinheiros e os garçons. Sábia e higiênica providência. Os clientes, todos pelados, mas com a mão no bolso: para degustar a famosa gastronomia francesa, a conta virá salgada: escargot, foie gras de entrada, costeletas de cordeiro, filé de badejo e crème brûlée de sobremesa. Ainda uma carta generosa de vinhos sofisticados.
Um jantar exemplarmente democrático, já que elimina qualquer desigualdade. Se na noite, todos os gatos são pardos, no "Onaturel" todos os pelados balançam as mesmas coisas. Decretada a radical igualdade, toda competição de trajes, grifes e acessórios fica eliminada. Lembremos que nos armários ficaram trancados Valentino, Louis Vuitton, Chanel, Dior, Versace, Hermès Paris, Prada... Sem as marcas arrogantes, as madames, todas peladas, não poderão sequer empinar o narizinho da pretensa superioridade. Nada elas terão a exibir. Nada mesmo? Bobagem, corrijo-me. Elas não terão o que esconder, mas o que exibir, ah isso algumas terão sim e muito.
Além de democrático, um jantar libertário. Dá pra imaginar ninguém consultando celulares? Inacreditável! As pessoas, completamente amputadas de seus "gadgets", serão obrigadas a reaprender a conversar. Revolucionário!
Essa coisa de tirar a roupa pra comer (desconsiderem a ambiguidade) tá pegando (outra?) no mundo todo. Em Londres, o "Bunyadi" ("natural" em hindi), localizado no bairro Elephant and Castle, tem cuidados e exigências interessantes. Os mais tímidos poderão ficar de roupão até a coragem chegar e tirar. Tudo ali homenageia a natureza: alimentos orgânicos, pratos feitos de barro, luz de velas, colheres comestíveis, mas nenhuma pimenta. Sábio cuidado. Evita-se a exposta transpiração dos peladões e, de sobra, protege-os da ardida manhã seguinte. Sensualidade liberada, mas sexualidade proibida. Nenhum carinho suspeito, nenhuma mão boba ou esperta deve perturbar o ambiente de quem come pelado. Os comensais sentam-se sobre toalhas descartáveis (ainda bem). Nenhum prato quente para que ninguém queime, em público, o que não deve ser queimado. Coisa bem pensada.
Lamentavelmente, tais cuidados democráticos não são observados no "The Amrita", no Japão. A primeira encrenca: a discriminação contra os adiposos. Não entram os pelados e as peladas que estiverem com sobrepeso. E o pior: na entrada, uma balança fiscal tudo confere. Que vexame... E tem mais, ainda que idade nada tenha com balança, ela também pesará: proibidos os menores de 20 e os maiores de 60.
Estranho, o mundo todo valoriza a idade preferencial e lá velho e velha passam fome. O "Amrita" justifica que quer manter a estética do ambiente, daí a rigorosa seleção dos pelados. Os reprovados que continuem vestidos e longe dali. Tatuados? Sem chance.
Aqui no "patropi", continuamos na contramão. Em tempos de Lava Jato, só os políticos estão nus. Mas coisas estranhas estão acontecendo: estamos proibindo a nudez até mesmo nos museus. Enquanto isso, o Museu de Orsay, em Paris, faz o contrário: "Tragam seus filhos para ver gente nua."
Provincianos, continuamos vendo sujeira onde sujeira não há. Foi o que disse Nelson Rodrigues: "Só o rosto é indecente. Do pescoço para baixo, podia-se andar nu." Cubramos, então, o rosto e a cabeça, as únicas partes do corpo sujas. O resto deixemos pelado.
O autor é professor de redação e membro da Acade mia Bauruense de Letras - curso_romag@uol.com.br