09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

E as cinzas da quarta-feira se tornam brancas

Renato Pirani Ghilardi e Silvio Onary
| Tempo de leitura: 4 min

Quando analisamos o ambiente universitário atual aprendemos muito com a realidade social que vivemos. Afinal, a academia é um grande reflexo daquilo que a sociedade é. Ou não? Olhares mais desatentos ou desonestos podem achar que esse preceito é verdadeiro, porém, com um pouco mais de contemplação do ambiente e de lógica, o cenário mostra-nos algo completamente diferente.

Hoje, o ambiente acadêmico reflete um antagonismo (para não dizer maniqueísmo) comportamental violento em relação aos costumes e atitudes da sociedade majoritária. A própria Fundação Perseu Abramo, no ano passado, revelou uma pesquisa que relata a percepção das camadas sociais menos abastadas e periféricas concluindo que essas creem prosaicamente que menor intervenção estatal e mérito de trabalho são os diferenciais de uma vida melhor.

Isso não é crível dentro do ambiente universitário. E nesse antagonismo de ideias cresce uma nova classe de estudantes públicos universitários: o novo branco. Vamos entende-lo? É simples, basta ver os bloquinhos de carnaval, jogos universitários, ou até mesmo alguma festa acadêmica de nome peculiar.

Eles estão lá. A nova política explicita (para não dizer prega) que eles devem ser inclusivos, defensores das classes mais sofridas e paladinos das novas questões sociais que surgem na internet semanalmente. Sempre estarão pavlovianamente respondendo ao apito de comando dado por "grupos" estudantis ou mesmo professores que manobram habilmente as massas. O campo de atuação é primariamente o ambiente do câmpus, se estendendo ao mais poderoso meio de comunicação universal, a internet pelas redes sociais. A ideia de rápida propagação desses ideais enche os jovens entre 18 a 30 anos de orgulho, levando-os a crer que estão realmente alterando a sociedade a partir de seus "textões", ao mesmo tempo em que se bloqueiam para debates com falácias que impedem a auto reflexão do próprio movimento.

Obviamente, a grande maioria desses estudantes "novos brancos" não consegue entender que dado o contexto socioeconômico majoritário de nosso país, beira a imoralidade gastarem quase 400 reais para participar de festas de uma Interunesp, por exemplo, não possuindo dinheiro para um livro ou produtos básicos para a sua formação universitária.

Somam-se a isso, no caso dos mais ricos, incontáveis passeios à Europa, iPhones de última geração, cervejas artesanais, entre outros consumos supérfluos. Tais consumos ainda que justificados inconsciente ou conscientemente pelos "novos brancos", permanecem incongruentes com o discurso de inclusão social, apoio humanitário e ideológico ironicamente seguida em fervor pela maioria.

Curiosamente, apesar de não saberem explicar o porquê, são defensores da universidade pública gratuita e de qualidade para todos, demonstrando uma visão ingênua de como o mundo econômico capitalista funciona. Claro que esse comportamento não se restringe aos alunos. Existem vários professores "macaco-velhos" que se adaptaram a esse discurso neomoralista. Isso pode ser entendido de várias formas. Gosto bastante, por ser lógica e biológica, da ideia de que o ser humano é egoísta por essência e que se adapta às marés sociais para assinalar que seu conjunto gênico (aqui traduzido por ideias e ideais) é melhor. Trocando em miúdos: queremos ser parte inclusiva, sempre, de uma tribo. Se não temos a capacidade biológica de nos impor como espécime, copiamos o "mainstream" social daquele momento e magicamente somos considerados pessoas do bem e, consequentemente, pessoas interessantes para relações sociais, políticas, de emprego e, por que não, amorosas. Veste-se a ideia, levanta-se a bandeira, não se pensa na causa, afinal como diz aquela velha frase, até uma mentira quando repetida mil vezes (ou até menos) torna-se uma verdade. Essa é a maravilha do ser humano enquanto espécie: os fatores sociais também controlam sua adaptação evolutiva.

É aquele homem que defende imensamente as causas femininas, a ponto de ser espampanante, e, com isso, consegue se aproveitar de mulheres, mesmo claramente possuindo os valores contrários ao dito. Sempre que penso nesses exemplos supracitados, me vem a ideia de um peixe pescador de profundidade, com uma luz (uma ideia) que é oferecida a presa, que subitamente é engolida pelo peixe (massa de ideias), diferindo pelo fato de que ele se propaga após ser devorado. Se isso é feito de forma consciente ou inconsciente, apenas a experiência demonstra. Eis, então, o novo branco: os antigos abonados, brancos, donos de propriedades e mandatários com uma roupagem nova, agora com ideologia viral, de fácil propagação via redes sociais. Promessas de um mundo melhor, resultados de aceitação tribal rápida, a pseudovisão de um mundo cor-de-rosa em que definitivamente exerço meu papel e durmo com a consciência limpa (muitas vezes de fato nem atuando). É isso que encontramos entre alunos e professores universitários da escola superior pública; uma sociedade do espetáculo. É isso que encontramos na sociedade fora dos campi?