O projeto de lei 867/2015 já aprovado em Alagoas institui a Escola sem Partido, subtrai o direito do educador e educadora de ter suas convicções ideológicas (contrariando a Constituição), não as exercendo como doutrinação, mas sim como conteúdos históricos sociais. Afinal de contas, para que somos educadores(as)? Porque é a educação e a escola os lugares em que mais podemos dizer exercer mais fortemente o nosso não, nas palavras do filósofo e educador Mário Sérgio Cortella. Não à contradição humano X humano.
A questão ideológica continua fortemente presente na educação. Por essa razão questionamos: é possível haver educação sem ideologia, ou a simples expressão desse desejo já é reveladora de um lugar de onde se vê e pensa o mundo?
Ideologia é concepção de mundo e a educação faz parte dessa concepção de mundo, assim sendo, toda educação é ideológica. Todas as sociedades constroem o homem a partir de sua concepção de ser humano. O homem se constitui humano historicamente e, além do mais, todo conhecimento é engajado, seja para as coisas melhorarem para todos ou para melhorarem só pra alguns.
José Leon Crochik alerta que quando a educação se pretende neutra, equidistante, como se fosse possível abrir mão de si mesma e assumir um lugar imaginário sobre todo mundo, aí se encontra uma das piores ideologias. E segundo Demerval Saviani, não existe conhecimento desinteressado. A ideologia é um elemento integrante da vida humana. O homem conhece para dominar, conhecimento é poder. É claro que um professor não pode impor sua convicções, sejam elas político-partidárias aos alunos, pregar a subversão da ordem, dos costumes ou fazer apologia de crimes.
Atualmente, o esvaziamento do debate ideológico no campo educacional tem sido marcado pela associação direta da educação com o mercado de trabalho. Essa perspectiva utilitarista do espaço escolar ganhou muita força, por isso, muito dos investimentos em educação estão subordinados à busca de resultados que são aferidos pelos indicadores de mercado. A escola como aparelho do Estado é organizada de acordo com a visão desse Estado e das classes dominantes, mas no interior das escolas acontecem processos diversos, às vezes não como afirmação, mas como negação. Não sou favorável a defender doutrinas nas escolas, mas sim que se passem as idéias dos pensadores de cada doutrina. Ensinando nossos alunos a pensar, a criticar, terão eles a oportunidade de ler os movimentos de tudo que acontece e as contradições visíveis nela. Quando se pensa em mudar a educação no Brasil, qualquer que seja o projeto, não se pode esquecer que se trata de um país sem que pesa a desigualdade na distribuição de renda e que o nosso Ensino Médio é um dos piores do mundo, conforme dados estatísticos. Aguardemos!