08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Mais um mimimi

Thaisa Nogueira Marciano
| Tempo de leitura: 3 min

Levei a maior parte da minha vida sem sentir a crueldade da discriminação e não entendia muita coisa. Não sentia empatia por quem denunciava certos abusos e intimamente acreditava na existência do mimimi. No entanto, há nove anos saí do meu estado natal, lá no nordeste, e vim me aventurar, sozinha, nessa cidade. Aí tudo mudou. Primeiro senti a discriminação por ser nordestina. Depois por ser mulher.

E aí foi como um soco na mente. Passei a observar as atitudes e a pesquisar as razões. E desenvolvi a empatia. E mais do que isso: desenvolvi a vontade de lutar contra todas as opressões, pois comecei a enxergar um mundo de absurdos que antes eu não via.

Como passei por essa transformação, entendo a razão de muita gente ainda achar que Black Face não é racismo. Essas pessoas ainda não encontraram a lanterna do esclarecimento; continuam na penumbra, como vivi a maior parte da minha vida.

E por isso hoje luto para levar conhecimento e reflexão. O único caminho para a mudança é fazer com que as pessoas passem a ter interesse pela informação real. Temos que fazer com que todos queiram acender a lanterna e buscar a luz do saber.

No entanto, essa é uma luta que está só no começo. Estamos vivendo uma era de informação rápida, descartável e muitas vezes inútil. As pessoas se instruem por comentários absurdos de qualquer um, postados nas redes sociais. E os jornais, as escolas, os pais não estão fazendo o seu papal. Apenas reproduzem um conceito de saber ultrapassado e que já não satisfaz. Recentemente enfrentamos mais um resultado dessa falta de conhecimento em Bauru: um bloco de carnaval desfilou levando um integrante com Black Face. Algumas pessoas exigiram retratação, reclamaram, enviaram textos ao jornal da cidade, mas fez-se silêncio. Afinal, os negros ofendidos com aquela imagem não mereciam pedidos de desculpas. E a população não precisava saber que, SIM, Black Face ofende.

Passaram-se alguns dias do carnaval e hoje vejo, no mesmo jornal que se calou, que fez censura, um texto de um leitor falando que o carnaval está chato, já que não é mais tolerado o uso de fantasias ofensivas, "negras malucas" ou outras dessas violências visuais. Ele termina o texto assim: "Viva a alegria politicamente incorreta!".

Isso o jornal espontaneamente publicou. Para eles, fazer apologia ao racismo, ao sexismo, à homofobia é dar liberdade de expressão ao leitor. Por outro lado, dar voz às minorias ofendidas é alimentar o mimimi.

E eu me pergunto: que mundo é esse? Será que as pessoas não se incomodam por magoar, por humilhar?

Mas sei a resposta. Na verdade, para a elite do país, negro bom é negro escravo; mulher boa é dona de casa calada, recatada e do lar; gay bom é o que "não saiu do armário". E leitor bom é aquele que envia textos aplaudindo a omissão da nossa imprensa, que enche nossos olhos e ouvidos com muitos absurdos, mas se cala na hora de exigir mudanças.

Estou agora enviando esse texto para o jornal. Será publicado ou terei que me restringir a dar opiniões absurdas nas redes sociais?