09 de julho de 2026
Geral

"O Calçadão me deu uma segunda chance'

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 3 min

Douglas Reis
O violinista Micael Ferreira de Souza tem cativado e atraído olhares curiosos com suas apresentações no Calçadão há cinco meses

"Bauru virou minha segunda casa, porque o Calçadão meu deu uma segunda chance e me ajudou a sair do buraco". A frase de reconhecimento é de Micael Ferreira de Sousa, de 36 anos, mais conhecido como Micael Violinista, figura que, há cinco meses, tem cativado e atraído olhares curiosos e de contemplação de quem passa pelas quadras 5, 6 ou 7 do Calçadão da Batista de Carvalho.

Há quase dois anos em Bauru e desempregado, Micael, nascido e criado na Zona Leste da Capital, conta que veio para cá tentar a sorte ao lado de um novo amor, uma auxiliar de enfermagem de 41 anos. Por aqui e com o segundo grau completo, ele diz ter tentado emprego por mais de um ano, mas sem sucesso.

"Eu estava quase desistindo. As contas e o aluguel estavam atrasados, até gás faltou um dia e eu fui atrás de lenha para cozinhar. Me bateu um desespero e foi aí que eu tive um start. Decidi usar meu dom para tentar ganhar uns trocados na rua", lembra o músico. Neste mesmo dia, ele sonhou que tocava violino no Calçadão com cartazes e dizeres da "Palavra de Deus".

DO SONHO AO REAL

Sonho que virou realidade há cinco meses e o despertou para uma nova vida. "Na primeira e segunda semana, muita gente me ajudou, tanto que eu consegui deixar todas as contas da casa em ordem e encher o tanque do carro só com o que ganhei tocando no Calçadão", comenta o rapaz.

Das 9h às 18h, de terça a sábado, ele toca, quase que ininterruptamente, singles que variam desde hinos religiosos até canções pop com a pegada do violino. "A Aleluia (Hallelujah) é uma das que o pessoal mais gosta", cita. Durante a semana, os palcos do show variam entre as quadras da 5 a 7 do Calçadão. Até permissão do poder público para a atividade ele diz ter obtido.

"Não tem como não admirar uma pessoa que vive da arte. A humildade dele sensibiliza a gente", comenta Vera Lucia Gandara, de 61 anos, psicóloga que passava pelo local ontem à tarde e parou para contemplar o artista.

OPORTUNIDADES

E o que, no início, era apenas atração cultural se transformou também em uma vitrine para o trabalho do músico. A prova é o cartaz pendurado atrás dele nas apresentações, com contato do WhatsApp para tocar em casamentos e festas. "Graças a Deus, tenho conseguido fechar alguns eventos, todo dia recebo ligações. O pessoal passa, tira foto e faz vídeo, o que me ajuda a ficar conhecido. Soube que tem um vídeo meu com quase 65 mil visualizações", explica.

"Mas sempre deixo claro, não sou um morador de rua, sou alguém com casa e família, que enfrentava dificuldades e viu na música a saída. Claro que não fiquei rico tocando aqui, mas, hoje, consigo meu sustento honestamente e com a minha paixão, que é o violino", afirma. "E sonho, quem sabe um dia, em ser reconhecido no País todo", finaliza Micael, voltando o instrumento para o ombro e iniciando nova canção, após pausa para uma breve conversa com a repórter, nessa quinta-feira (22).

Quem é Micael?

Fruto de uma gravidez não planejada de um pedreiro e de uma professora de órgão, na época com 16 anos, Micael Ferreira de Sousa foi criado na zona Leste de São Paulo e, desde a infância, foi influenciado na música pela mãe. Sua família era ativa na Congregação Cristã, local onde ele iniciou sua trajetória como músico, sendo treinado por um violinista da Orquestra Municipal de São Paulo, aos 11 anos. Se dividia entre a orquestra da Congregação, onde ficou até os 18 anos, e o trabalho no setor administrativo da Santa Casa de Misericórdia na Capital. Iniciou faculdade de música na época, mas desistiu por falta de dinheiro. Casou-se por duas vezes e teve dois filhos, que moram, atualmente, em Promissão, cidade em que ele deu continuidade de seu trabalho como músico por alguns anos antes de vir a Bauru.