Faz apenas 86 anos que a mulher tem direito ao voto no Brasil. É muito pouco tempo, historicamente falando, de conquista de um direito básico para o exercício da cidadania. Partindo deste marco, os avanços ainda são recentes, mas, neste período de pouco menos de um século, muita coisa mudou – inclusive o próprio entendimento do que é a luta feminina e feminista.
Não é um movimento único e homogêneo, até porque as mulheres - apesar de todas desejarem igualdade de direitos - têm vivências, realidades e algumas demandas bastante distintas. Elas são índias, negras, idosas, jovens, donas de casa, profissionais graduadas, deficientes físicas ou mentais, heterossexuais, lésbicas, transexuais.
Há muito a ser reivindicado em cada um destes segmentos. Com o objetivo de expor e debater esta complexidade, o Conselho Municipal de Políticas para as Mulheres realizará, nesta quinta-feira (8), no Dia Internacional da Mulher, a mesa redonda “Ouvindo cada mulher fortaleceremos umas às outras para nos tornarmos inteiras”.
O encontro será realizado às 14h, na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Bauru. “Existem vários coletivos feministas na cidade voltados a estes segmentos específicos e queremos escutá-los, porque é na diversidade que encontramos nossa unicidade. Vamos escutar os anseios destas mulheres e retirar propostas que possam ser levadas ao poder público”, explica a presidente do conselho, Marizabel Ghirardello.
O evento integra o Mês da Mulher, que segue até o final de março com o tema “Mulher e sua Pluralidade”. A programação completa pode ser conferida no https://www.bauru.sp.gov.br/materia.aspx?n=29401.
As nove mulheres representativas escolhidas para participar da mesa redonda de hoje, todas moradoras de Bauru, também foram ouvidas pelo JC para esta data comemorativa, com exceção da jogadora de vôlei Tiffany Abreu, que preferiu não dar entrevista por ter decidido, a partir deste ano, falar somente após os jogos e exclusivamente sobre assuntos relacionados às partidas. Leia, abaixo, os depoimentos que revelam a diversidade feminina.
| Camila Corrêa |
| A luta da mulher com deficiência é pela inclusão, por políticas transversais, para que ela possa estar em todos os lugares, com acesso à saúde, educação, cultura, lazer. Não são apenas barreiras físicas. No mercado de trabalho, ainda há muito preconceito, como se a pessoa com deficiência fosse incapaz. Em São Paulo, quem liderou o movimento por acessibilidade no metrô na década de 1980 foi a Maria de Lurdes, uma mulher acamada. A mulher com deficiência precisa conhecer a força que tem.” Ariani Queiroz Sá, 55 anos, auxiliar contábil aposentada, cadeirante, moradora do Jardim Progresso |
| Samantha Ciuffa |
| Muitas vezes, os pacientes, principalmente os homens, não entendem que uma mulher nova como eu possui experiência suficiente para fazer atendimentos na área de reabilitação e ter sua própria empresa. Só depois de alguma conversa começa a haver alguma confiança. Felizmente, hoje não sofro mais assédio. Consegui me impor, mas, quando era recém-formada, chegou a acontecer. Em meio ao machismo que ainda existe, a mulher não deve se sentir desvalorizada e precisa seguir seus sonhos. Estamos conquistando nosso espaço e devemos nos unir para avançar cada vez mais.” Kátia Terruel, 27 anos, fisioterapeuta e empresária, moradora do Núcleo Mary Dota |
| Aceituno Jr. |
| A mulher negra sofre preconceito de gênero e raça. Por uma questão histórica, tem menos oportunidades de estudos e, portanto, mais dificuldades para se inserir no mercado de trabalho e para conquistar bons salá- rios. Além disso, ela não atende aos padrões europeus de ‘boa aparência’. Eu e meu marido, que é branco, fizemos uma entrevista de emprego na mesma empresa: para mim, perguntaram se eu tinha filhos e se tinha onde deixá-los. Esta pergunta não foi feita a ele. São muitas as discriminações. A ampliação da política de cotas nas universidades públicas tem contribuído para reparar o erro histórico da escravidão, mas esperamos, um dia, não precisar mais dela.” Naiara Patrícia dos Santos Neves, 28 anos, advogada, moradora do Jardim Jussara |
| Aceituno Jr. |
| A mulher lésbica é muito invisibilizada tanto no movimento LGBT quanto na militância feminista. Não existem estatísticas sobre a violência sofrida por ela. Ainda existem ginecologistas com muito preconceito e desconhecimento. A mulher lésbica é sempre alvo de fetiche quando está com a namorada, é importunada se abraçar a companheira em público. Quando é uma lésbica masculinizada, como eu, fica mais difícil conseguir emprego, porque não se enquadra no padrão. No meu serviço, sofro muito preconceito. Mas vou sempre reafirmar quem eu sou, porque é preciso que as pessoas entendam que nós existimos, que temos família, trabalho, medos, sonhos, como qualquer um.” Mayara Letícia Ferreira, 21 anos, corretora de imóveis, moradora do Jardim Europa |
| Samantha Ciuffa |
| A mulher, hoje, tem a capacidade de assumir muitos papéis, alcançou independência financeira e realização profissional. Mas eu, que sou mãe, tive sorte de me casar com um homem parceiro, que sempre dividiu as responsabilidades em casa, com os filhos. Eu sempre trabalhei muito, trabalho até hoje nos três períodos do dia, sempre fui mais ausente que ele nestes 41 anos de profissão. Venho da geração de mulheres que evoluíram muito nos anos 1970 e sou muito respeitada, saudável e feliz com o que conquistei. Estudei muito e não quero me aposentar agora. Não quero guardar na gaveta o conhecimento que eu tenho para ajudar o próximo.” Regina Maria Bombonato Rebuá, 66 anos, psicóloga escolar educacional e professora de filosofia, sociologia e história, moradora dos Altos da Cidade |
| Douglas Reis |
| A mulher indígena é vítima de preconceito e tem muita dificuldade para participar da vida na cidade. Sofre com desemprego, mesmo com os avanços na educação, até pelo auxílio das cotas. No trabalho, já desconfiaram da minha capacidade. É difícil ascender na carreira. Quando criança, eu e minha irmã só ganhávamos leite na escola se sobrasse e nos era ensinado que éramos selvagens. É algo que nos persegue a vida toda. Para mudar isso, acredito que temos de participar mais da política para garantir a demarcação de terras indígenas e maior segurança e bem estar à nossa comunidade.” Jupira Terena, 57 anos, servidora pública federal, moradora do Alto Paraíso |
| Samantha Ciuffa |
| Trabalhei dos 18 aos 29 anos, mas, quando fiquei grávida, resolvi me dedicar integralmente à maternidade. Foi uma decisão tomada junto com o meu marido e não me arrependo. Hoje, tenho quatro filhos e sou muito realizada por ter podido acompanhar cada fase da vida deles. Entendo que foi o melhor para eles também. Na época em que eu parei de trabalhar e em várias ocasiões desde então, fui pressionada pelas amigas, como se a mulher não tivesse direito de escolher ser dona de casa. Hoje, assumi as demandas administrativas da escola do meu esposo, mas não abri mão de trabalhar em casa.” Maria Tereza Villela, 50 anos, dona de casa, moradora da Quinta Ranieri |
| Samantha Ciuffa |
| Dentro da própria escola, há uma cultura de que quem ensina sãos as mulheres, porque elas foram feitas para cuidar dos filhos: elas se tornam as ‘tias’, uma forma velada de desvalorização da profissão. Quando o professor é homem, principalmente nas séries iniciais, ele é visto com desconfiança pelas famílias dos alunos. Eu entendo que, além de alfabetizar, a escola deve se preocupar com a formação de pessoas responsáveis, respeitosas e livres de preconceito, independentemente da orientação sexual, da cor da pele, da religião, da origem social das pessoas. Somos todos humanos, com diferenças que devem ser celebradas.” Isabel Miziara, 55 anos, educadora e secretária municipal de Educação, moradora do Jardim Estoril |
| Aceituno Jr. |
| Desde a infância, tinha trejeitos afeminados e, na escola, fui alvo constante de bullying. Eu sempre fui boa aluna, mas não conseguia conviver em grupo. Com 15 anos, fiz a minha transição de gênero e sempre fui acolhida pelos meus pais, mas sei que esta não é a realidade de todas as trans. Consegui concluir o Ensino Superior, mas nunca me deparei com nenhuma trans na faculdade. Como sempre me portei de uma maneira ‘comum’, como uma mulher cisgênero, talvez eu tenha enfrentado menos preconceito, porque os estereótipos sobre a transexualidade ainda afastam as pessoas. O meu desejo é que, um dia, a sociedade nos enxergue como humanos, como seres singulares que todos os humanos são.” Vitória Galhardo, 25 anos, produtora audiovisual e mestranda em comunicação, moradora do Jardim Ferraz |
VÁRIAS ATIVIDADES MARCAM A DATA
Em Bauru, órgãos, entidades e empresas terão ações para promover saúde, beleza e bem-estar e também dar visibilidade aos direitos das mulheres
Por Vitor Oshiro
Além da palestra organizada pelo Conselho Municipal de Políticas para as Mulheres, várias atividades, de diferentes órgãos, entidades e empresas, serão realizadas hoje para marcar o Dia Internacional da Mulher.
A Secretaria Municipal de Saúde promove, às 15h, no Serviço de Residências Terapêuticas (rua Alto Juruá 7-49, Vila Camargo), café da tarde com as residentes, além de uma palestra sobre o significado e importância do Dia Internacional da Mulher. Haverá, ainda, entrega de um kit manicure para cada usuária.
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Mais
Além das atividades hoje, Mês da Mulher continua em Bauru; veja a programação no https://www.bauru.sp.gov.br?
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Ainda dentro das atividades da pasta, ocorrerá, no Poupatempo (rua Inconfidência, 4-50), atividade do Serviço de Orientação e Prevenção do Câncer (SOPC), das 13h às 17h, com foco na ação preventiva de orientação à mulher fumante que circular pela área.
Pela manhã, as mulheres que passarem pela quadra 6 do Calçadão terão a oportunidade de fazer maquiagem, aula de zumba, aferição de pressão, aulas de Krav Maga (defesa pessoal), gincanas e sorteios de brindes e prêmios.
Promovido pela Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (Semel) e Sindicato dos Empregados no Comércio de Bauru, o evento conta com apoio das secretarias de Saúde e do Desenvolvimento Econômico, Turismo e Renda (Sedecon), da Polícia Militar, Faculdades Integradas de Bauru (FIB), Estúdios LT Som e Imagem, Beauty Hair Center e Seja Digital.
A lista completa da programação do Mês da Mulher da prefeitura está disponível no https://www.bauru.sp.gov.br.
LAZER E SAÚDE
O Bauru Shopping também programou uma série de eventos. Em um espaço, especialmente preparado no segundo piso, haverá uma programação variada. Hoje, das 14h às 20h, o público feminino que passar pelo Lounge da Mulher ganhará design de sobrancelhas e maquiagem.
Amanhã, das 16h às 20h, profissionais de uma loja de maquiagem estarão à disposição para tirar dúvidas e mostrar as novas tendências dos makes da nova estação.
Também no lounge, das 12h às 20h, serão oferecidas orientações jurídicas, dicas de cuidados com a saúde da pele e da mama. Na oportunidade, a Mamamiga, um modelo didático dividido em quadrantes que demonstram as principais alterações mamárias que podem ser identificadas pelo toque estará à disposição das mulheres que quiserem aprender mais sobre a prevenção desse tipo de câncer. O Lounge Mulher é realizado em parceria com o Grupo Amigas do Peito de Bauru, FIB e Comissão da Mulher Advogada da OAB Bauru.
DANÇA
Também hoje e amanhã, no estacionamento do Bauru Shopping, profissionais comandam aulas de dança a mulheres de todas as idades. Nesta quinta, haverá zumba kids (às 18h30) e piloxing (às 18h30). Já hoje e amanhã, a programação dançante envolve zumba (às 19h) e stilleto dance (às 20h). "As mulheres que passarem pelo Bauru Shopping vão encontrar uma programação diversificada que abrange beleza, saúde, bem-estar, diversão e orientações importantes. Convidamos todas as mulheres a participar da ações especialmente pensadas para homenageá-las", ressalta Ivan Mouta, gerente-geral do Bauru Shopping.
NA CONTA DE ÁGUA
| Divulgação |
| O DAE também participa das ações. A autarquia providenciou a inclusão da frase “Mês das Mulheres: Hora de Luta por Direitos e por Respeito” nas mais de 130 mil contas de água que começaram a ser distribuídas nesta semana |
MARÇO MULHERES
O Movimento Resiste Mulher, coletivo feminista, apartidário e revolucionário, realiza também uma programação para marcar a data. Trata-se do segundo ano consecutivo do Março Mulheres. Hoje, será realizada a primeira atividade: um ato na Delegacia da Mulher (av. Rodrigues Alves, 23-23), às 15h30. Link do evento: https://goo.gl/nC5hPc.
Ao longo de todo o mês, ocorrerão debates, cinema e oficinas. A programação será encerrada no dia 23, com a "Marcha das Mulheres: Nenhum Direito a Menos", às 13h30, na Praça Praça Rui Barbosa, no Centro.