09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Rosas não suprem direitos e garantias

Cândida Cristina Coelho F. Magalhães é advogada, palestrante, poetisa e militante feminista
| Tempo de leitura: 4 min

Comemora-se, tradicionalmente, em 8 de março, o Dia Internacional da Mulher, data que se remete à primavera, pois as flores são marcas presentes em qualquer festividade.

Entretanto, nem toda rosa é tão bela e capaz de suprir direitos e garantias das mulheres, muitas se parecem com as rosas de Hiroshima... Logo, festejar o Dia da Mulher transpõe o perfume de qualquer jardim porque, antes das rosas, é preciso romper com o histórico de opressão e guerra velada ou desnuda contra as mulheres em todo mundo.

Já dizia o sensível poeta Vinícius de Moraes nos seus versos "A Rosa de Hiroshima": "... Pensem nas meninas / Cegas inexatas / Pensem nas mulheres / Rotas alteradas / Pensem nas feridas / Como rosas cálidas /Mas oh não se esqueçam / Da rosa da rosa / Da rosa de Hiroshima..".

A letra do poema empresta as pétalas dessa rosa para descrever a realidades das mulheres em todo o mundo, sobretudo no Brasil. Onde o número de feminicídio é um dos maiores na escala mundial, pois o Brasil ocupa o 5º lugar em mortes de mulheres: a cada 11 minutos uma mulher é estuprada, a desigualdade é fotografada e catalogada.

É importante revisitar o passado de luta das mulheres que, em razão da resistência, fizeram suas vozes ecoarem até hoje.

Insta destacar que, no ano de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos situada em Nova Iorque fizeram uma grande greve, ocuparam o local e começaram a reivindicar melhores condições de trabalho, tais como: redução na carga diária de trabalho para dez horas (as fábricas exigiam 16 horas de trabalho diário), equiparação de salários com os homens (as mulheres chegavam a receber até um terço do salário de um homem, para executar o mesmo tipo de trabalho) e tratamento digno dentro do ambiente de trabalho.

Entretanto, a violência imperou contra as mulheres, que foram trancadas dentro da fábrica e incendiadas. Aproximadamente 130 tecelãs morreram carbonizadas numa ação totalmente desumana.

O ato de coragem emanado por aquelas mulheres e, sobretudo, o sonho pela igualdade e justiça foi covardemente incendiado, porém, as sementes resistiram ao calor do ódio e germinaram nas cinzas.

Assim, em memória à luta delas, foi decidido em 1910, durante uma conferência na Dinamarca, que o dia 8 de março passaria a ser o Dia Internacional da Mulher em homenagem àquelas que morreram na fábrica em 1857. Mas somente no ano de 1975, através de um decreto, a data foi oficializada pela ONU (Organização das Nações Unidas).

Entretanto, se avanço no lapso temporal e deparo-me com o tempo presente, reconheço com intimidade os gritos de luta, de socorro e de reivindicações de todas as mulheres.

O fogo da violência persiste e violam os mais singelos direitos das mulheres, o direito à dignidade, a integridade física e moral, a igualdade, a liberdade sexual e à vida.

As chamas da brutalidade se mantêm apesar de instituições favoráveis às mulheres, com sólida representação e liderança em estruturas estatais de tomada de decisões, mecanismos legais e constitucionais de proteção de nossos direitos e o fortalecimento das mulheres.

É indubitável que, após 160 anos, o histórico de violações contra as mulheres continua latente, o coração afônico tenta palpitar gritos de socorro, mas os ouvidos da sociedade se recusam a ouvir. O sangue com cor de gênero ainda é jorrado frente aos nossos olhos. Mesmo assim parece imperceptível na visão social, apenas os atos machistas demonstram os sinais vitais que se perpetuam no tempo.

No DNA da violência contra as mulheres há inconfundíveis traços genéticos do patriarcado e do machismo, que se reproduzem reiteradamente o ciclo da perversidade de gênero.

Logo, eleger um dia para comemorar o dia internacional é muito além de uma solenidade fugaz, remetendo-nos a um profundo processo de reflexão e transformação.

Para além das rosas, nossos jardins necessitam de garantias fundamentais que assegurem as mulheres liberdades basilares, execução de leis de combate à violência de gênero e o incremento de políticas públicas em favor das mulheres, pois elas são sustentáculos imprescindíveis para o processo de transformação em âmbito mundial.

Assim, espera-se que o silicioso bombardeio contra as mulheres e meninas de todo mundo seja cessado e que, em nossos jardins, nasçam flores coloridas visitadas pelas borboletas. Que a polinização da igualdade de gênero, da garantia dos direitos humanos e o fim da violência sejam uma realidade a ser comemorada com muitas rosas.