Muito além da alegria
| Arquivo Pessoal |
| Rafael interpreta Ludovico, na peça Os burrocratas, na escola de circo Zepetra, na França, em 2015 |
| Cia da Bobagem/Divulgação |
| Rafael e Marisa durante a apresentação do espetáculo A2 |
| Fotos: Arquivo Pessoal |
| Pé na estrada: Rafael da Silva visitou Albi, na França, em 2014 |
| Família unida: Rafael com a esposa Marisa e o filho Gael, no Espaço Protótipo, em Bauru, no mês de janeiro de 2017 |
| Cia da Bobagem/Divulgação |
| Rafael e Marisa durante a apresentação da peça Os turistas, em uma residência artística de Montpellier, na França, em 2015 |
Rafael Resende Marques da Silva se considera um louco profissional, ou seja, age conscientemente. Ator, professor de Artes Cênicas, bem como mestre e doutor em Pedagogia do Palhaço, ele defende que, por trás da piada, deve vir a crítica social. Mineiro de Ipatinga, cidade próxima a Governador Valadares, Rafael acredita que o palhaço tem “o papel de questionar a sociedade, ser mais provocador e tocar na ferida”. O ator é formado em Direito, mas descobriu, nas Artes Cênicas, o seu ganha-pão e a sua grande paixão. Desde setembro de 2016, ele vive em Bauru com a esposa e o filho, de 1 ano e 7 meses, porque passou a lecionar na Universidade do Sagrado Coração (USC). Inclusive, este será o segundo ano consecutivo que Marques dirigirá a Via Sacra da instituição. Abaixo, o mineiro conta parte de sua história - e haja história!
Jornal da Cidade - Você nasceu no interior de Minas. Como foi a sua infância?
Rafael Resende Marques da Silva - Eu nasci em Ipatinga, a três horas de Belo Horizonte, e morei na cidade até finalizar o ensino médio, aos 18 anos, momento em que me mudei para BH. Uai, a minha infância foi ótima, porque eu vivia em um bairro familiar. A maioria dos moradores trabalhava em uma siderúrgica do município - meu pai era engenheiro metalúrgico da empresa, mas minha mãe não tinha relação com ela, dava aula de inglês. Mas os meus pais eram amigos dos pais dos meus amigos. Nós brincávamos de pique-pega e de polícia e ladrão; subíamos em árvores; andávamos em muros e debaixo de chuva; jogávamos muita bola no clube e participávamos de todas as festinhas de bairro.
JC - Por que se mudou para BH?
Rafael - Fui à Capital de Minas para estudar Direito, na Pontifícia Universidade Católica (PUC-MG), onde me formei e até tenho OAB. Porém, no meio do curso, eu tive um insight: descobri que queria fazer teatro. Não tinha uma veia artística e nunca tive contato com a área, só me deu uma vontade louca de me dedicar a isso. Mesmo assim, não abandonei o Direito. Me formei e, logo em seguida, passei em Artes Cênicas - Licenciatura pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Nesta graduação, eu me encontrei. Em meados de 2003, fiz a iniciação científica sobre palhaços - o tema acabou me escolhendo, afinal, me interessei bastante pela linguagem.
JC - Enfrentou alguma dificuldade desde que mudou de carreira?
Rafael - Sim. Eu trabalhei em alguns grupos de teatro antes de me formar. Muitas vezes, atuava sem cobrar nada e não tinha qualquer prestígio. Independentemente do aprendizado, eu queria ter dignidade enquanto artista, momento em que decidi que montaria um espetáculo e rodaria com ele País afora. Porém, esse desejo não se concretizou de imediato. Depois que me formei, comecei a trabalhar na rua como palhaço. Garantia as compras no supermercado.
JC - E a sua esposa? Como a conheceu?
Rafael - Conheci a Marisa em BH, durante uma oficina de palhaços, ministrada pela canadense Sue Morrison, afinal, minha esposa também é formada em teatro e adepta a essa linguagem. Juntos, montamos a Cia da Bobagem, em 2007, que existe até hoje. Para mantê-la, decidimos fazer mestrado na Europa. Como Marisa é formada em Letras e fala francês fluentemente, nos mudamos para perto da França. Ela estudava na Universidade Livre de Bruxelas (ULB), na Bélgica. Já eu passei na Universidade Lille 3, no norte da França, divisa com a Bélgica. Além disso, chegamos a nos apresentar nas ruas da Bélgica, mas o frio era terrível e o público não conseguia assistir por muito tempo. Os cães adestrados de outro artista recebiam mais que nós. Mesmo assim, não desistimos.
JC - Vocês só se apresentavam nas ruas?
Rafael - Certa vez, conhecemos um brasileiro e nos apresentamos na festa de aniversário do seu filho. Na hora de ir embora, a pé, uma indiana nos abordou e perguntou se fazíamos festas em geral, porque ela queria surpreender a filha. Não deu outra. Nós fomos até a festa e descobrimos que a indiana é nada mais, nada menos do que filha de um embaixador. Ganhamos um cachê generoso.
JC - Como você já disse, o começo da carreira foi difícil. Sob quais condições vocês moravam na Europa?
Rafael - No primeiro ano da mudança, moramos em Bruxelas. No segundo, fomos para Paris, na França, porque eu terminei o mestrado e a minha esposa pediu transferência para lá. Na época, vivíamos em um estúdio de 20 metros quadrados. No dia da defesa do meu mestrado, descobri que Philipe Goudart, que havia ministrado uma oficina de palhaços no Brasil, aceitava orientandos para o doutorado. Emendei uma coisa na outra e terminei a minha tese no ano anterior, em Montpellier 3, no sul da França, pela Universidade Paul Valéry. Porém, minha bolsa acabou em 2015, quando voltamos ao Brasil. Até então, saímos dos 20 metros quadrados e passamos a morar em uma casa de aproximadamente 50. Tudo melhorou quando fomos ao sul da França.
| Samuel Mendes/Divulgação |
| Rafael na peça Os burrocratas, na Funart, em BH, em 2015 |
JC - De volta ao Brasil, o que fizeram?
Rafael - Ainda na Europa, criamos dois espetáculos, o A2 - sobre um casal de palhaços que se encontra e se apaixona - e Os burrocratas - conforme o próprio nome já sugere, existe uma crítica acerca do excesso de exigências para se fazer qualquer coisa, desde obter visto até fazer a matrícula na universidade. De volta ao Brasil, continuamos com as duas peças. Além disso, quando chegamos, nos mudamos para Campinas, porque a minha esposa decidiu terminar o doutorado na Unicamp.
JC - Aproveitando que esta é a sua área de atuação, qual é o papel do palhaço?
Rafael - Existem vários tipos de palhaços. Eles podem ser mais profundos do que aqueles personagens circenses, já que têm o a papel de questionar a sociedade, serem mais provocadores e tocarem na ferida. Eu busco ser esse palhaço, em vez daquele personagem infantil e comercializado, como o Ronald McDonald.
JC - E como veio parar em Bauru?
Rafael - O meu filho nasceu em Campinas, mas, logo depois, fui chamado para trabalhar na USC, em Bauru. Desde então, moramos na cidade. Atualmente, dou aula para os cursos de Artes Cênicas e Artes, além de coordenar a Especialização de Produção Cultural em Artes Cênicas. Paralelamente, trabalho como palhaço e ministro oficinas.
JC - Por fim, de que forma você avalia o teatro bauruense atualmente?
Rafael - A cidade tem algumas escolas de teatro, como a do Paulo Neves, que é uma referência, e o Grupo Protótipo, que organiza cabarés todo mês. A minha proposta é juntar a universidade com a comunidade artística. Além disso, o Sesc é um espaço que apoia os artistas locais. Inclusive, o Festival do Palhaço já começou por lá. No dia 22, faremos a intervenção Os turistas, às 18h. Já na próxima terça-feira, ministrarei uma palestra sobre o palhaço fora da lona, a partir das 19h30.
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PERFIL
Nome: Rafael Resende Marques da Silva
Idade: 39 anos
Pais: Ney Marques da Silva e Lícia Resende Marques da Silva
Irmãos: Paula Marques Vidal e Flávia Resende Marques da Silva
Esposa: Marisa Ribeiro Soares, de 36 anos
Filho: Gael Ribeiro Marques, de 1 ano e 7 meses
Time: Cruzeiro
Filmes: E la nave va, A vida é bela, os do Quentin Tarantino e os do Pedro Almodóvar
Livro: Agonia e êxtase: um romance sobre Miguel Ângelo, de Irving Stone; e as obras de Carlos Drummond de Andrade
Signo: Áries
Contato: ciadabobagem@yahoo.com.br, https://www.ciadabobagem.blogspot.com e (19) 99737-6333
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