| Samantha Ciuffa |
| A multa para quem for flagrado alcoolizado é pesada, de R$ 2.934,70, sem contar a proibição do direito de dirigir por um ano |
Caótico, péssimo, louco, complicado. Estes são alguns adjetivos dados por motoristas ao tráfego de Bauru. Mas, apesar de a sensação de quem dirige todo dia não ser das melhores, o trânsito da cidade foi menos violento em 2017.
É o que apontam as estatísticas da Emdurb. Elas revelaram que o volume de acidentes entre 2016 e 2017 caiu 14%, variando de 4.426 para 3.800 registros. Já a mortalidade, índice que mais preocupa as autoridades, teve queda de 21,4% no período e o de vítimas graves, 20,5%. Em 2017, 22 pessoas morreram vítimas do trânsito bauruense e 93 ficaram gravemente feridas.
Comandante do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4.º BPM-I), o major Fabiano de Almeida Serpa atribui o resultado à ampliação das fiscalizações de trânsito no último ano. Entre elas, ele cita, em especial, a Operação Direção Segura, realizada com maior ênfase aos finais de semana, no período noturno, para flagrar motoristas embriagados.
"Hoje, fazemos as fiscalizações em três ou quatro pontos estratégicos a cada dia, nas regiões próximas a bares, com o uso do etilômetro. A atuação foi intensificada pela PM e isso já é de conhecimento da população, então, os motoristas estão mais cautelosos, por medo de serem pegos no bloqueio", analisa.
A multa para quem for flagrado alcoolizado é pesada, de R$ 2.934,70, sem contar a proibição do direito de dirigir por um ano. "A embriaguez ao volante é uma das maiores causas de acidentes graves e fatais em Bauru e estamos satisfeitos com a resposta que tivemos: um maior número de vidas na cidade está sendo poupado", observa o major.
A PM também realiza, periodicamente, a Operação Cavalo de Aço, com abordagens a motociclistas para fiscalização e orientação sobre os perigos deste veículo, que vitimou 16 das 22 pessoas que perderam a vida no trânsito de Bauru no ano passado. Há, ainda, a Operação Visibilidade, em que os policiais militares permanecem em pontos mais críticos para acidentes com o objetivo de fazer o condutor respeitar as leis de trânsito.
CELULAR
São fiscalizações como esta que levaram, no ano passado, à aplicação de mais de 6 mil multas por uso de celular ao volante. Como a infração passou, no final de 2016, de média para gravíssima, o peso no bolso e na contabilização de pontos na CNH também pode estar contribuindo para que os condutores tenham mais cautela.
Todas estas atividades contam com a retaguarda do Grupo de Ações para a Redução de Acidentes de Trânsito (Garat), criado em 2014. Formado por representantes da Emdurb, Polícia Militar e Corpo de Bombeiros, entre outras entidades, o grupo é responsável por definir as estratégias de segurança no trânsito a partir das estatísticas de acidentes, que são tabuladas periodicamente.
| Alex Mita |
| Nelson Augusto Neto, da Emdurb: “Com os dados em mãos, passamos a entender melhor o trânsito da cidade e, assim, melhor direcionar as ações para prevenir acidentes” |
"Quando um cruzamento começa a ter muitas ocorrências, avaliamos o que pode ser melhorado em termos de sinalização, pavimentação, poda de árvores ou mesmo fiscalização, seja por meio da PM ou dos agentes do GOT (Grupo de Operações de Trânsito da Emdurb). Com os dados em mãos, passamos a entender melhor o trânsito da cidade e, assim, melhor direcionar as ações para prevenir acidentes", detalha o gerente de engenharia e estatística de trânsito da Emdurb, Nelson Augusto Neto.
Campanhas unificadas
Já neste ano, a Emdurb e o Corpo de Bombeiros deverão unificar suas campanhas de conscientização e prevenção de acidentes de trânsito. Segundo Nelson Augusto Neto, da Emdurb, uma reunião deverá ser agendada até o mês que vem para a definição das ações educativas conjuntas a serem promovidas na cidade. "Até agora, cada um atuava isoladamente, mas queremos nos unir, ainda neste semestre, para fortalecer este trabalho", revela.
Uma das prioridades, ele adianta, é a redução do número de atropelamentos na região central, que afeta, principalmente, idosos. "A intenção é fazer panfletagem em agências bancárias em dia de pagamento e em pontos do transporte coletivo, orientando sobre como proceder para que eles consigam enxergar os veículos que estão circulando na via", pontua.
Programa visa reduzir óbitos na cidade em mais de 20% até 2019
| Douglas Reis |
| Major Serpa, da PM: “A embriaguez ao volante é uma das maiores causas de acidentes graves e fatais e estamos satisfeitos com a resposta que tivemos: um maior número de vidas na cidade está sendo poupado” |
Em fevereiro deste ano, o governo do Estado assinou convênio com a Prefeitura de Bauru, no valor de R$ 1,5 milhão, para investimento em melhorias viárias e campanhas educativas.
Na cidade, o Programa Movimento Paulista de Segurança no Trânsito tem o objetivo de reduzir em mais 20% o número de vítimas graves e fatais no trânsito até agosto de 2019.
O índice é o mesmo alcançado de 2016 para 2017. "Vamos continuar trabalhando para que a queda nas estatísticas seja permanente. São ações que, além de preservar vidas, reduzem os gastos da rede pública de saúde com internações e evitam, ainda, prejuízos à economia pelo afastamento destas vítimas do mercado de trabalho", pondera o major Fabiano de Almeida Serpa.
Entre as ações já previstas, estão investimentos em semáforos e na pintura de faixas de pedestres com termoplástico extrudado, material mais durável do que a tinta convencional. "Além de demandar menos manutenção, o termoplástico tem certa rugosidade, o que evita a queda de motos e pedestres", completa Nelson Augusto Neto.
Queda de acidentes e oscilação de mortes
O número de acidentes de trânsito está em queda desde 2014 em Bauru. Daquele ano até 2017, a redução do volume de ocorrências foi de 41%. A quantidade de mortes, contudo, ainda oscila: em 2014, foram 33 vítimas fatais; em 2015, 21; em 2016, 28; e, no ano passado, 22.
| Samantha Ciuffa |
| Archimedes Raia Junior destaca que medidas ainda precisam ser adotadas |
O especialista em trânsito e transportes e diretor de mobilidade da Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos (Assenag), Archimedes Raia Junior, reforça que a fiscalização mais efetiva é fundamental para controlar as estatísticas, mas avalia que a variação no número de óbitos demonstra que medidas ainda precisam ser adotadas.
"Esta oscilação é uma tendência que se verifica em âmbito nacional", considera, salientando que a queda no volume de acidentes, incluindo os casos graves, já é uma realidade em cidades de grande porte, como São Paulo, devido à redução da fluidez no trânsito.
Raia Junior acredita, contudo, que a implantação do Programa Movimento Paulista de Segurança no Trânsito, associado ao monitoramento das estatísticas feito pelo Garat, pode ter efeitos positivos para a prevenção de acidentes em Bauru. A iniciativa paulista é inspirada, inclusive, no programa da Organização Mundial da Saúde, chamado Década de Ação pela Segurança no Trânsito, que visa reduzir em 50% a mortalidade no trânsito até 2020.
"A OMS reconhece que o Brasil tem ferramentas para alcançar este índice, como leis que obrigam o uso de cinto de segurança e cadeirinha para crianças, air bag nos carros novos, além da legislação sobre embriaguez ao volante. Se a aplicação for eficaz e associada às campanhas de educação para o trânsito, acredito que conseguiremos diminuir as ocorrências", completa.
População ainda se sente insegura
Ciclista, mototaxista, taxista e motorista do transporte coletivo apontam principais problemas do trânsito de Bauru e soluções para contorná-los
Você se sente seguro ao trafegar pela malha viária de Bauru? Com esta pergunta, o Jornal da Cidade saiu às ruas para ouvir a população. Apesar de as estatísticas demonstrarem que o número de acidentes, mortes e vítimas feridas caiu em 2017, a resposta de todos os entrevistados foi unânime: o trânsito precisa melhorar.
Entre os entrevistados, o JC ouviu um administrador que utiliza bicicleta há 12 anos para se locomover, além de profissionais que vivenciam os percalços do trânsito diariamente, como um mototaxista, um taxista e um motorista do transporte coletivo. Problemas estruturais que precisam ser corrigidos entraram na lista, como as precariedades de ciclovias e de estacionamentos para bicicletas, buracos e irregularidades no asfalto e o aumento da frota.
Mas a conduta dos motoristas foi, de longe, a principal crítica. Na rotina diária, os entrevistados afirmam, prevalece a impaciência, a pressa, a distração, o desrespeito e a falta de generosidade no trânsito. E você, como se comporta quando dirige?
| Malavolta Jr. |
| “Uso bicicleta em 90% dos meus deslocamentos. É mais viável economicamente, mas a falta de respeito no trânsito é um complicador. A gente toma fechada dos veículos motorizados, além de buzinadas hostis, e o número pequeno de mulheres ciclistas é um reflexo desta insegurança. Há falta de dados sobre o uso de bicicleta em Bauru. O ciclista que tem um pouco mais de conhecimento costuma procurar rotas mais tranquilas, alternativas às vias de maior velocidade, para evitar acidentes. Mas o ideal era que tivéssemos uma melhor estrutura de ciclovias, além de estacionamentos para bicicletas, até para estimular o uso deste meio de locomoção. Hoje, as ciclovias são desconectadas e muitas foram colocadas onde era mais fácil e não onde era necessário para o ciclista.” Fábio Eduardo da Silva, 41 anos, administrador, utiliza bicicleta para trabalhar há 12 anos |
| Douglas Reis |
| “Há um acúmulo muito grande de veículos, independentemente de horário. E os motoristas são impacientes, buzinam quando preciso parar o ônibus para o embarque e desembarque de passageiros nas avenidas, mesmo dando seta. Fora quando eles estacionam os veículos no ponto e a gente tem que parar no meio da rua. Isso acontece até com caminhão, às vezes. Todo dia, também enfrento problemas com carros estacionados em local proibido, próximo da esquina. Para fazer a conversão, tem que ficar manobrando ou até mesmo sair do trajeto, porque não tem espaço para o ônibus passar. Se Bauru tivesse uma faixa exclusiva para ônibus em algumas vias, como as avenidas Rodrigues Alves, Pedro de Toledo e Duque de Caxias, acho que o trânsito melhoraria bastante.” Jonathas Gustavo Fontes Gonçalves, 34 anos, motorista de ônibus há nove anos |
| Samantha Ciuffa |
| “O trânsito da cidade está cada vez pior. A formação dos motoristas hoje em dia está pior do que era. Precisava exigir psicotécnico em toda renovação de CNH, porque eles dirigem muito mal, não dão seta para mudar de faixa ou fazer conversão. Motoqueiro, que não é o motociclista, também é muito abusado, passa costurando em alta velocidade. Já esbarraram no meu retrovisor várias vezes. Felizmente, nunca tive acidente grave dentro da cidade, só coisa leve. Mas acho que falta as pessoas terem mais consciência de que um veículo é uma máquina que pode matar.” José Roberto Manzato, 67 anos, taxista há 20 anos |
| Samantha Ciuffa |
| “O trânsito de Bauru é louco. Motorista fica no celular, não usa a seta para mudar de faixa e corta a frente da gente. O pessoal dirige muito distraído e, se você for brigar, ainda corre o risco de tomar tiro. Já sofri quatro acidentes. Graças a Deus, nunca foi grave, mas tenho colega que já perdeu braço, quebrou a perna. Se não for MEI (microempreendedor individual), fica afastado sem receber, porque mototaxista trabalha como autô- nomo. Fora a barbeiragem no trânsito, tem os buracos, asfalto oco afundando. Tenho um filho de um ano de idade e saio para trabalhar com medo, sem saber se vou voltar inteiro para casa.” Valdemar Alamino Pereira Ferrari, 43 anos, mototaxista há 18 anos |