11 de julho de 2026
Articulistas

Há 107 anos a luz chegava a Bauru

Braz Melero
| Tempo de leitura: 3 min

"Tem gente que espera por uma luz, mas não levanta para acender o interruptor". É obvio que Don Draper referia-se ao conceito mais amplo do que acender a lâmpada: "atitude". Mas, inspirando-me no aspecto físico da metáfora, imagine quando não se tem luz e nem interruptor. Assim era a maioria das cidades no início do século passado. Nas poucas ruas de Bauru, só existiam alguns lampiões a querosene, só acesos em noite de luar. As "atitudes" eram de toda ordem para trazer energia e luz.

Como toda novidade, ao lado do toque lúdico, alegre e romântico, os 10 mil moradores tinham medo de conviver com fios elétricos suspensos nos 18 km entre a Usina de Guaianás, nas ruas e na praça. Foi nesse clima polêmico que em 1909 a Câmara outorgou concessão aos engenheiros Antônio Cintra e Joaquim Gomes, propiciando a fundação da Empresa de Eletricidade de Bauru, em 1/julho/1911, sob a presidência de Raul de Mello.

Três meses antes, em 16 de março de 1911, às 18h40, na praça municipal, atual Rui Barbosa, os acordes da banda, os 21 tiros de morteiro e os fogos de artifício saudaram o acionamento de 12 lâmpadas, para ficarem acessas até a meia-noite. Em 1915, Bauru tinha 277 lâmpadas. No fim da década, uma enchente destruiu a Usina Guaianás. O "apagão" só encerrou em 1920, com a extensão de linha 15 kV, vinda da Usina de Lençóis.

No ano seguinte, a linha de transmissão 60 kV da Usina de Avanhandava chegava a Bauru, originando a primeira subestação na cidade. Em 29 dezembro de 1921, com a extinção da Empresa de Bauru, a CPFL assumiu. A CPFL havia sido fundada em 16 novembro de 1912, fruto da fusão de quatro pequenas empresas, sendo a mais antiga a Força e Luz Botucatu (1905).

Até 1928 não existiam eletrodomésticos e o consumo se restringia às residências, comércio, iluminação pública e cinemas. Os consumidores pagavam por lâmpada instaladas (16 ou 32 velas), monitoradas por fusíveis. Diante dessa situação, em 1929 a CPFL instalou em Bauru loja comercial para a venda de aparelhos elétricos (com medidores), em 36 meses: geladeira, fogão e ferro de engomar. Aí o pioneirismo da CPFL deixou sua marca e contribuiu com o desenvolvimento da região. Só a partir de 1934 as fábricas de óleo, máquinas benefícios de café e algodão passaram a usar eletricidade.

Na década de 30, algumas obras mexeram com a população, nos aspectos segurança, meio ambiente, arquitetura urbana e qualidade de vida. Entre elas: 1933, instalações de postes e "luminárias modernas" na Rodrigues Alves e Araújo Leite: 1939, iluminação de ruas mais distantes, do Jd. Bela Vista.

Esse legado, documental e material, foi compilado junto a ex-empregados, mídia e historiadores, por ocasião da instalação do "Centro de Memória Regional" (Museu) e da deposição da "Cápsula do Tempo", em novembro de 91, inseridos na programação (oficial) dos 79 anos da CPFL. A abertura da Cápsula foi programada para o centenário da CPFL (2012). A coordenadora do projeto foi Martha Arias, da CPFL, sob a orientação da profa. Terezinha Boteon, da Unesp. À época, como responsável pela então Regional de Bauru, meu objetivo era retratar e preservar a história da eletricidade de Bauru e Região (88 localidades) e ofertar à comunidade um espaço cultural para informação e pesquisa.

Mas o inesperado aconteceu! Sem nenhum respeito à comunidade: 1. O "Centro de Memória Regional" foi transferido para Campinas e desconheço como foi catalogado; 2. A "Cápsulas do Tempo" foi aberta em 2012, como previsto. Porém, sem a presenças dos idealizadores. Estava apodrecida, pois não foram tomadas as medidas preventivas para preservá-la, como recomendado.

Ao subestimar a capacidade das pessoas que idealizaram e sedimentaram e esses pilares culturais, as pessoas responsáveis pela CPFL aplicaram outro pensamento de Dan Draper: "Pessoas nos dizem quem elas são, mas nós ignoramos isso, porque queremos que elas sejam quem devem ser".

O autor é aposentado da CPFL, foi executivo de Gabinete da Prefeitura de Bauru e da Cohab. É assessor de Civismo da Governadoria do Lions. Entre outras, integra a Comissão de Assuntos Comunitários da OAB.