09 de julho de 2026
Articulistas

A sociedade em pânico

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Grupos extremados, que fazem das redes sociais meios de propagar ideologias ultrapassadas, decidiram abafar as críticas à conduta política de Marielle Franco. Pelo menos, não dizem mais que ela foi vítima "dos próprios vagabundos que defendia". Ou, que estava engajada com o Comando Vermelho. Agora, lampejam civilidade. Lamentam a morte de uma jovem negra, mãe, vereadora de um partido de esquerda e que poderia ser transformada em símbolo de esperança de um pais sem ódios. Deve ter provocado esse recuo a repercussão sobre o atentado. Tanto aqui como no estrangeiro. "Bandido bom é bandido morto". Outro chavão. Há mais. É moda criticar a "lei penal branda", pôr a culpa no "desarmamento do povo"; na justiça que manda soltar e na "glamourização dos bandidos". O deputado Major Olímpio, recém-filiado ao Solidariedade, chegou a afirmar que a esquerda, "enfim arrumou um cadáver para fazer política". São frases soltas, fora de contexto. Agradam a certos nichos do eleitorado. Dizer que "os direitos humanos são uma praga, um câncer", é laborar fora de uma problemática muito mais complexa: a da incapacidade do Estado de proteger o cidadão comum, simples e honesto.

A democracia não está em perigo por causa disso. O regime sempre foi imperfeito, como todos os outros. Como diria Churchill, é o que temos e podemos. Mataram Chico Mendes, morreu Dorothy Stang, Tim Lopes e o pedreiro Amarildo. A vida continua. Inocentes morrem todos os dias nas favelas, nas ruas, no campo e nas selvas. Talvez, ao tombarem mortalmente feridas as vítimas se indaguem antes do último suspiro: por quê? O que é preciso fazer agora é pressionar pela rápida descoberta dos autores e dos mandantes do atentado contra Marielle. Puni-los de acordo com a lei, que existe e é suficiente. O site "Socialista de iPhone", famoso por suas críticas à esquerda caviar, num flash cobra mais maturidade para deixar as diferenças políticas e ideológicas e externar sentimentos às famílias das vítimas.

O sistema de segurança é que está falido. O clima de impunidade alimenta o ciclo de violências. A observação é de uma entidade não governamental, a Human Rights Watch, com pesquisadores que nos olham de um outro país, sem ligações emocionais com nosso inconsciente coletivo primevo.

O Supremo Tribunal Federal vai julgar a ação que pede o fim da intervenção federal no Rio de Janeiro. A iniciativa é do PSOL, partido da vereadora Marielle, que também a apoiava. O argumento prende-se à desproporcionalidade da medida, cara e com fins eleitorais. Um mês depois de decretada a intervenção, ela só custou alguma coisa ao próprio Exército, porque até agora nenhum tostão em recursos foi liberado pela União. Se Temer pretendia fazer dos resultados positivos da intervenção a bandeira eleitoral do seu partido, já desistiu da ideia após as repercussões do atentado. A munição utilizada para a matar a vereadora e o seu motorista, é do mesmo lote de balas utilizadas na maior chacina da região metropolitana de São Paulo, quando 23 pessoas foram mortas em 2015. Três PMs e um guarda metropolitano foram condenados. A matança foi uma retaliação pelo assassinato de um policial. As vítimas da chacina nada tinham a ver com a morte do guarda. Apenas estavam no lugar errado, na hora errada. A munição foi desviada da Polícia Federal. O responsável já foi punido. Diante desse bando de celerados organizados em milícia, fica claro que a intervenção no Rio é necessária. Mesmo com os desejados alcances políticos de Temer. Desde a intervenção, que dura um mês, 152 homicídios ocorreram no Rio. "Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?" - perguntava a vereadora Marielle Franco, numa das suas últimas postagens. A indagação deveu-se à ação truculenta da Polícia Militar no bairro de Acari, quando jovens negros foram vitimados, por serem possíveis usuários de drogas.

A Constituição Federal reserva, às Forças Armadas, o nobre papel de proteger a nossa soberania, as nossas fronteiras e a ordem pública constitucional. Diante do que está acontecendo, não há outro caminho a não ser convocar a corporação para pôr ordem na casa. O insuspeito Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), no seu Atlas da Violência, escancara que o Rio de Janeiro sequer se encontra entre as 30 cidades com mais de cem mil habitantes mais violentas do Brasil. A questão é mesmo nacional. Não podemos nos tornar cúmplices da impunidade e do desprezo à vida. Chamem o Exército.