Ah, um carro. Uma família que chega, essa avenida Nações Unidas é uma bela entrada de uma cidade. Nos bancos da frente, os pais tentam fingir uma calma que não há, ficou em casa, a trezentos quilômetros. No banco de trás, o filho que estão para deixar em Bauru. O veículo de classe média se aproxima do endereço da república de estudantes. Jovens na avenida, uma certa inveja da nova vida que o filho tem pela frente, a tal vida de universitário, a vida que os pais também sonharam - e sonham, na juventude que permanece, contra toda a lógica, ante o tempo e o sofrimento, ante os fios grisalhos e o duro trabalho, que vai pagar as contas do filho, pelo menos nos primeiros meses. Ao menos no primeiro ano.
Bauru é uma república de estudantes. Um rapaz de barba rala mas convicta abre o portão, sorridente. Uma moça de óculos recebe gentilmente os forasteiros. Sinais de civilização na selva que os pais e o filho fantasiavam desde a aprovação no vestibular. Um universitário com cara de criança prepara um almoço duvidoso. Ah, meu filho vai comer macarrão com hambúrguer nos domingos em que a gente vai ter feijoada ou lasanha.
Entre os parcos móveis da dita residência, carrinhos de supermercado - doados aos estudantes é que não foram - fazem as vezes de armário e de estante para a televisão. O sofá é o que sobrou de um sofá horrível. Sobra um prego onde um dia houve um braço de madeira. Não somos ricos, mas nossa casa nunca negou mínimos confortos ao nosso pobre menino.
O quarto espera o novo morador. Vazia, a metade que lhe cabe destoa da bagunça do outro lado. No chão, uma camiseta ao lado de um par de tênis. Neles, um par de meias usadas. Experiente, a mãe repara que a cama do companheiro de quarto foi arrumada às pressas. As malas são colocadas ao lado da nova cama. Essa menina está sentada na cama do meu filho. Essas meninas vão se deitar na cama do meu filho, e o meu filho, claro, vai se deitar na delas. A porta do armário embutido recebe uma imagem de Nossa Senhora, embaixadora dos pais nessa terra de ninguém. Cada objeto do filho é dolorosamente posto nas prateleiras. Uma a uma, as meias e cuecas, que na véspera receberam a distinção de fios vermelhos de amor, preenchem a gaveta. Quem vai cuidar das roupas, sempre lavadas com tanto cuidado? Uma certa demora para tirar as últimas coisas da mala. Assuntos da viagem são retomados.
Uma volta na cidade? Claro! O carro agora tem dois novos passageiros. Olha quanto mercado tem aqui perto! Ali está o aeroclube. Esse é um dos shoppings. Aqui, o McDonald's. A Duque, a Araújo, a Igreja de Santa Terezinha é a mais bonita da cidade. A Praça Rui Barbosa, o calçadão, os prédios da Rodrigues e de todo o centro ainda são lindos, apesar do descaso. É uma vergonha o abandono da deslumbrante estação, e das ferrovias, que eram três e não são nenhuma. Bauru são nações unidas: a comunidade árabe, a società italiana, a beneficência portuguesa, o templo japonês. Bauru é a entrada do Brasil novo. Na fila dos churros, um estudante, uma chinesa, um migrante, um parente de Marília. Na rodoviária, o eterno intercâmbio com São Paulo e o Brasil. Esqueçam o "Bauruzinho": Bauru é cidade de artistas! O Vitória Régia. O shopping novo. A juventude vibra na noite da Getúlio. A universidade pulsa na Terra. O moço fala dos bairros. A moça celebra o Cerrado, o Jardim Botânico e a vida. Que belo pôr-do-sol. Que belo pedaço do mundo. Que gente simpática. Nosso filho vai ficar bem.
Ano após ano, o ritual se repete nesta cidade de esperança. Ah, a glória da chegada de mais um estudante. Ah, o choro contido da despedida dos pais.
Ah, tristeza! Ah, felicidade!