10 de julho de 2026
Articulistas

Não há líderes para tantos desafios

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 4 min

Na semana passada realizou-se em São Paulo o Forum Econômico Mundial para a América Latina, que contou com a presença do alemão Klaus Schwab, fundador do Forum que se realiza anualmente na Suíça, em Davos. Esse evento foi significativo porque neste ano serão realizadas eleições democráticas no Brasil, México e Colômbia e duas eleições de falsa democracia, na Venezuela e em Cuba. O encerramento se deu com uma sessão intitulada "Uma Nova Era de Liderança". A leitura dos resumos revela um sentimento misto de esperança e descrença porque, se é preciso despertar esperança não é possível ignorar os problemas que todos enfrentam. O próprio título da sessão de encerramento acena para uma nova era de liderança quando a escassez de líderes talvez seja a maior de todos os tempos.

É interessante observar que se tornou comum nos debates os temas serem apresentados como desafios. Nessa sessão, por exemplo, o populismo, a exclusão social e a falta de confiança nas instituições foram considerados como desafios à democracia. O grande desafio, entretanto, é enfrentar os desafios sem sair da democracia. Na ditadura o governo determina o que fazer segundo sua vontade, mas na democracia governar é um jogo que exige uma estratégia que atenda as necessidades e desejos do povo. Porém, nem tudo que o povo quer pode ou deve ser feito e o governo deve ter visão do que será melhor e capacidade de convencê-lo. Essa é a missão da liderança que, conforme John Kotter, "Os líderes estabelecem a direção mediante a formulação de uma visão do futuro, em seguida eles arregimentam as pessoas comunicando-lhes essa visão e inspirando-as a superar barreiras."

Com tantos desafios nas finanças, saúde, educação, segurança, moralidade pública, em tudo enfim, será muito difícil o Brasil encontrar candidato para presidi-lo a partir de 2019 com as características de um líder que inspire confiança, respeito e disposição da sociedade de segui-lo. O Brasil precisa ser refeito e exige um líder de visão e ideias grandiosas como foi Juscelino Kubitschek de Oliveira, que atraia nossos melhores cérebros para um plano de nação. Chega de mediocridade, da política de Ali Babá. Vamos aproveitar a operação Lava Jato para limpar o campo para novos jogadores. É essa a copa que precisamos ganhar. Ao falar de copa, vale lembrar um fato que se diz verdadeiro, ocorrido na Copa do Mundo de 1958. O Brasil se preparava para enfrentar a Rússia e depois que o treinador Vicente Feola expos os lances que imaginou para o Brasil vencer, Garrincha, displicente, disse: "Tá legal, seu Feola mas o senhor já combinou tudo isso com os russos?" Claro que a estratégia não se conta ao adversário, mas o líder precisa discutir com os liderados e conseguir que o sigam com vontade de vencer, como Feola fez, e venceu.

Em livro, o filósofo búlgaro Tzvetan Todorov considera como inimigos da democracia, além do populismo o messianismo. Conforme vão sendo lançados os pré-candidatos talvez não seja muito difícil rotulá-los como populista ou messiânico. Como messiânico já temos um que vem lutando para ser candidato e possivelmente não consiga, mas há alguns que esperam sucedê-lo, como salvadores dos excluídos. Populistas, com certeza formarão a maioria com os mesmos discursos e as mesmas promessas, que por infelicidade ainda conseguem enganar muita gente, além daqueles que sabem que são mentiras, mas esperam conseguir algum favor pessoal.. E existem, também, os conservadores, mais próximos da figura de gerentes que de líderes, que acham que todos os problemas se resolvem com regulamentos e obras, com projetos individualizados, sem visão de futuro e de conjunto. Agora, para encontrar líderes, só com a lanterna de Diógenes.

Falando em desafio, veja o grande desafio dos eleitores deste ano quando tiverem que escolher os seus candidatos para o governo federal, que serão três - presidente, senador e deputado, porque a maioria será formada pelos que hoje estão lá e bem conhecidos nossos pelas discussões transmitidas pela TV no impeachment, nos projetos de reformas, nos processos do Temer e nas investigações da Lava Jato. A vontade de continuar é geral, como demonstrou a resistência à reforma da Previdência, dizendo que era um tema impopular e prejudicaria a próxima eleição. Portanto, em vez de renovação estaremos vendo os mesmos caras de pau criticando a corrupção e prometendo um trabalho sério para mudar o País.

Para não terminarmos deixando um sentimento de que tudo está perdido, vamos lembrar que dissemos ser difícil, mas não impossível. Já podemos vislumbrar, embora poucos, bons candidatos em potencial, mas logo dizemos: não têm chance, nas pesquisas ficarão com 1 ou 2%. Vamos reverter essa expectativa e alavancar essas oportunidades à medida que surgirem. Do contrário ficaremos sempre reclamando e escolhendo apenas os menos ruins.