09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Reflexões de Quinta-Feira Santa

Raul Melges dos Santos, seminarista da Diocese de Bauru - 1º ano de Teologia.
| Tempo de leitura: 5 min

Damos hoje início ao Tríduo Pascal, ou seja, estamos a três dias da comemoração da passagem de Nosso Senhor da morte para a vida. Jesus, no dia anterior à sua morte, lava os pés dos santos Apóstolos, antes de instituir a Santíssima Eucaristia, deixando a todos o exemplo a ser seguido. Como se não fosse muito o não apegar-se à condição divina, fazendo-se homem para se entregar por nossa salvação, Cristo faz o serviço dos servidores. São duas prostrações: a primeira é sua inclinação para descer à Terra, e a segunda, estando na Terra, abaixa-se em direção ao chão e da parte mais ínfima do homem para lavá-la. Por isso, à primeira vista, não há uma assimilação dos Apóstolos, que têm dificuldade em compreender seu Senhor como servidor, que se manteve fiel à sua palavra: o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por uma multidão (Mt 20, 28). Daí exclama São Pedro:

"Tu nunca me lavarás os pés!" (Jo 13, 8). E não foi essa sua única incompreensão; quando nosso Senhor falou de seus padecimentos, Pedro o repreendeu (Mc 8, 32), pois não compreendia o que aquelas palavras queriam dizer. Podemos ser associados à figura de Pedro, quando não compreendemos os sofrimentos pelos quais passamos ou passaremos: caímos na tentação do apego ao mundo, da glória terrena, que é contrária ao caminho do calvário.

O ato do próprio Deus de lavar os pés implica numa doação que deve ser seguida por todos os seus discípulos, como ele mesmo disse: "Portanto, se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz". (Jo 13, 14-15). Essa doação não ficou apenas naquela bacia com água, mas se estendeu à cruz, pois amou-os até o fim. Além disso, a água utilizada por Nosso Senhor ao lavar os pés pode ser vista como purificação não somente das manchas externas, mas das internas, causadas pelo pecado, que nos distancia de Deus, de tal forma que só terão parte com ele, ou seja, só entrarão na vida eterna aqueles que se deixarem lavar, aqueles que se deixarem purificar do pecado, que só pode ser apagado pela água, água que jorrou de seu lado aberto do peito e que nos confere o batismo para a remissão dos pecados.

Assim está no Apocalipse: Nela não entrará nada de profano (Ap 21,27); e como também lemos nos Salmos: Senhor, quem há de morar em vosso tabernáculo? (Sl 14,1). Quem deverá subir a montanha do Senhor, ou quem deve permanecer em seu lugar santo? O que tem as mãos limpas e o coração puro (Sl 23,3-4).

Diz-nos também Santo Tomás de Aquino que "o derramar água numa bacia é um símbolo do derramamento de seu sangue sobre a Terra. Já que o sangue de Jesus tem poder de limpeza, ele pode, em certo sentido, ser chamado de água. A razão por que saiu água, junto de sangue, de seu lado da cruz era para mostrar que aquele sangue podia limpar o pecado". (Meditações para a Quaresma, Ed. Ecclesiae, 2017. página 233).

O povo hebreu, aprisionado no Egito, feito escravo, assim como outrora éramos escravos do pecado, recebeu, através de Moisés e Aarão, uma prefiguração da Ceia que hoje nos é instituída: aquele cordeiro sem defeito, que deveria ser imolado ao cair da tarde e comido com pães ázimos (Êx 12, 5-7) soa-nos muito familiar; o Pão descido do céu, o Cordeiro de Deus, imolado no calvário, é a Hóstia que comungamos em cada Santa Missa, onde o sacrifício de Cristo se atualiza. Hóstia que foi consagrada por suas próprias mãos nesta Ceia após o lava-pés e que nos é dada hoje, mesmo depois de vinte séculos, por meio dos sucessores dos Apóstolos e seus auxiliares, não por seus próprios méritos, mas por Graça divina. A misericórdia de Deus é tamanha que permite que alguns homens, descendentes de Adão e seu pecado, ajam em sua pessoa (in persona Christi) para conferir o lava-pés a toda a humanidade, isto é, para purificá-la de toda mancha e, assim, ter a chance de ser salva.

E, a partir disso, podemos cantar como no salmo: "Que poderei retribuir ao Senhor Deus por tudo aquilo que ele fez em meu favor?" (Sl 115). Por traição a Deus, o homem fez-se escravo do pecado, pois sua única liberdade está em seu Criador. E, por fazer-se escravo do pecado, sua morte eterna era garantida; entretanto, mesmo sem merecimento de salvação, porque pecar foi fruto de sua livre escolha, Deus não o deixou à beira do precipício. Numa tentativa de reconciliação com o Senhor, seus filhos ofereciam sacrifícios de animais, mas esses sacrifícios não eram suficientes, eram imperfeitos e, por isso, não tinham um fim.

Então, como prova de nova e eterna Aliança, aquele que é a Palavra de Deus veio ao mundo com a missão de assumir de uma vez por todas esses sacrifícios, fazendo-se Cordeiro único, perfeito e sem mancha (1 Pd 1, 19), que se imola por todas as raças e povos e por sua salvação, cujo sangue não está mais apenas nas travessas das portas de um único povo, mas que jorra do alto, atingindo as portas dos quatro cantos da Terra, para que todo aquele que nele crer se salve.

Caríssimos, a morte de seus santos e amigos é sentida por demais pelo Senhor (Sl 115), mas, sem a nossa disposição, não podemos ser salvos, uma vez que gozamos de plena liberdade. Cristo lavou os pés dos Apóstolos, mas mandou também que eles o fizessem. Amou-nos até o fim, entregando-se como vítima, mas nos deixou o mandamento do amor para que também nós amemos (Jo 12, 17). Deus vem ao nosso encontro, e é preciso que nós, seguidores seus, o mesmo façamos.

Que o início deste tríduo, que nos conduz à Páscoa da Ressurreição, faça-nos contemplar os passos de Nosso Senhor, da Ceia ao Calvário, do serviço à morte, sem a qual não há vida nova. Se Cristo ressuscitou, é porque morreu; da mesma forma nós, para termos nova vida, precisamos tomar nossa cruz e segui-lo, para, um dia, se merecedores formos, entrarmos com ele no paraíso, como entrou o bom ladrão. (Lc 23, 43)