No mundo judaico antigo, a terra tinha repouso obrigatório de 12 meses a cada sete anos. A parada compulsória ficou conhecida, depois, como ano sabático. A aplicação do conceito, no tempo, ganhou outras dimensões. O período sabático, atualmente, passou a estar vinculado muito mais à decisão de investir um tempo em si, em reciclagem, análise, preparação, além de mudança de vida, de rota, de objetivos, planos e ações. Essa ideia é preponderante em relação à outra que prevê exclusivamente uma fase longe do trabalho, por exemplo.
Mas a aplicação do período sabático, mesmo além do conceito originário de "repouso", não é unanimidade. Ao contrário, para estudiosos do comportamento humano de diferentes áreas do conhecimento, a parada pode não só ser desnecessária como incapaz de trazer benefícios duradouros. Deve ser bem avaliado.
Mas, para adeptos do "investimento na pessoa pela pessoa", a resistência ao tempo sabático está ligada, entre outros, à cultura ocidental e, por outro viés, à aceitação da regra de mercado baseada em uma sociedade de consumo e pela cobrança em produzir a qualquer tempo e preço.
O fato é que a ideia de fazer uma pausa prolongada antes de iniciar uma tarefa ou ciclo de vida também está sendo aplicada para cultivar o espírito, ou, então, para "desligar-se completamente da atual fase", em busca de novos horizontes. Em busca do autoconhecimento.
Entretanto, a praticidade da vida, tal qual a sobrevivência, não deixa escapar a exigência de vincular a opção pelo sabático com o levantamento do custo para a "parada geral". A jornada de redescoberta, de mergulho dentro de si, não aceita cheque em branco.
Ainda assim, é preciso não deixar de mencionar que a prática do "sabatismo" para alguns significa, ainda, renúncia total. E isso implica ir para um canto distante do mundo sem grana, por meses, com o objetivo sim de virar a rotina ao avesso, o que implica trabalho temporário em um período para cobrir as despesas básicas, com o restante do dia sendo aproveitado para aprender sobre a nova cultura.
A experiência de Tite
Em novembro de 2013, o gaúcho Adenor Leonardo Bachi já tinha em seu currículo ser campeão pelo Corinthians no Campeonato Paulista, Recopa Sul-Americana. Mas, depois de deixar o time do Parque São Jorge após um período de instabilidade, ele, o técnico Tite, decidiu ficar um ano longe das competições oficiais de futebol.
O ano de 2014 foi escolhido por Tite como o ano de sua atualização profissional. E assim ele fez, indo para a Europa estudar futebol com os melhores treinadores do maior mercado de futebol do mundo. Foi desse exercício de humildade profissional, de amadurecimento e de investimento pessoal, que ele trouxe em sua volta ao Brasil em 2015, por exemplo, na sua bagagem, a formulação tática de compactação de uma equipe em campo, com variações de triangulações e de posicionamento no campo de jogo (como a adoção da formação 4-1-4-1), que o levou ao hexacampeonato.
O ano sabático de Tite foi cumprido com uma passagem pelo Real Madrid, onde aprendeu mais sobre triangulações com o treinador Carlo Ancelotti, além do aprendizado com outros treinadores na Inglaterra. Desse período, apontam cronistas, o técnico gaúcho que vai liderar o escrete canarinho na Copa da Rússia, em junho, também apreendeu mais sobre sobriedade, utilização da inteligência emocional junto a seus comandados e o uso de gravações em vídeo, por exemplo, para corrigir erros de sua equipe e validar acertos.
As quatro adeptas
| Divulgação |
| Assim como fez, Sueli Campos incentivou a pausa às filhas Carolina, Suzana e Rebecca |
Empresária no segmento de fast-food, graduada em psicologia, publicidade e marketing, palestrante e coautora do livro "Treinamentos comportamentais", Sueli Campos não só praticou o período sabático como também incentivou e viu suas três filhas (Carolina, Suzana e Rebecca) mudarem suas rotas de vida a partir da experiência.
"Quando completaram 17 anos, cada uma, conversei com elas sobre o término do colegial e que isso, em geral, viria acompanhado de fazer cursinho, prestar vestibular e ter de escolher uma faculdade, o que significa iniciar uma escolha por profissão para milhares de jovens. Fiz a proposta de que elas concluíssem o colegial e ficassem um ano fazendo intercâmbio, estudando língua, apreendendo novas culturas, descansando e, com isso, buscando decidir o que iriam fazer. E as três filhas acolheram a sugestão para, no ano seguinte ao término do colegial, passarem por essa experiência em outro País e, depois, retornarem para escolher profissão", conta.
Sueli também pontua que não teve despesa adicional fora de seu orçamento para essa fase. "Eu não gastei dinheiro adicional excessivo para isso. A questão foi planejar. As inscrevi em programas de intercâmbio. Cada uma foi, em sua fase, para um lugar diferente. Saíram do País, aprenderam outra língua, conviveram com outra sociedade e trabalharam no período. Trabalharam em fazendas, em restaurante, em um período. No outro, passearam, fizeram cursos. Há inúmeras oportunidades de intercâmbio nesse sentido", descreve Campos.
A mais velha é comissária de bordo e hoje mora no Catar, depois de se formar em comunicação pela USP. A filha do meio fez Direito USP e mora no México, onde é mergulhadora em cavernas. E a mais nova também fez Direito USP e hoje trabalha na Austrália, no Parlamento. "Para mim, que também fiz o período sabático, o importante foi usar esse tempo para não forçar o filho, não pressionar pela escolha precoce da profissão, em uma fase muito difícil de escolher o que fazer na vida. Minhas filhas falam cinco línguas, conhecem outras culturas e esse período as amadureceu e foi fundamental para as escolhas delas", posiciona Sueli.
À procura do autoconhecimento
| Malavolta Jr. |
| Fausi destaca que a falta desta pausa dá indícios das razões que levam tanta gente a sofrer com as doenças da “alma” |
Para o professor em filosofia Fausi dos Santos, pode parecer estranho aos ocidentais, mergulhados no mundo dos negócios onde tempo é dinheiro, entender a profundidade presente em um período sabático.
"Mas tal prática não é estranha nas grandes civilizações da antiguidade e ainda hoje em alguns povos, como por exemplo, em comunidades indígenas ou etnias africanas. Nestas sociedades, o período sabático antecede uma grande transformação na vida de um homem ou uma mulher. É marcado por um período de reclusão onde os afazeres e os compromissos com a comunidade são deixados de lado. O neófito passa por um período de afastamento, muitas vezes isolado em uma caverna, viajando por outras terras ou inserido em uma cabana que representa outra realidade, outro mundo", comenta.
Ele acrescenta que, assim, o período é um tempo de profundas transformações interiores, de autoanálise e de reconstrução até de uma nova personalidade que, como num ritual de passagem, insere este sujeito em uma nova dimensão dentro de sua comunidade, em seu retorno. "Não é somente recarregar as energias. Em muitos casos, significa a reconstrução de uma nova identidade, um outro "eu" que assumirá novas responsabilidades, seja como guerreiro, marido, esposa, chefe etc", diz.
Para Fausi, falta essa dimensão em nossas vidas, o momento de parar. "Não parar para ir à praia ou ao shopping, praticar esportes ou simplesmente viajar. Isso é raso demais e não atinge a profundidade do sentido do período sabático. Em seu núcleo "sabático" significa retomar o pastoreio da própria existência, mergulhar sobre si e avaliar o que tenho feito de minha vida até o presente momento, retomar e criar novos projetos, criar para si novas expectativas", pondera.
Assim, o professor universitário sugere que a falta desse momento de parada nos dá pista para entendermos o porquê das pessoas hoje sofrerem tanto de doenças da "alma". "As pessoas são ótimas para nomear e conhecer o mundo, mas são totalmente estranhas a si mesmas. Resultado? Pessoas frágeis, carentes, sugestionáveis a qualquer modinha, viciadas em diferentes tipos de drogas, passando pela impulsividade de comprar, sem dizer dos transtornos mentais, como a depressão, angústia e o suicídio que vitimizam um número crescente de pessoas em todo mundo", adverte.
A busca interior diária, sem parada
| Divulgação |
| A palestrante, mentora e consultora em gestão de pessoas e comportamento humano Alexandra Fabri |
A opção pelo sabático pede levar em conta outros fatores. A palestrante, mentora e consultora em gestão de pessoas e comportamento humano, Alexandra Fabri, pondera a respeito. "É complicado se afastar para se reciclar. Não é um processo simples. A menos que essa opção seja após a demissão, para um curso rápido, mais curto, para reciclar. E vários fatores que precisam ser levados em conta para essa decisão profissional, pessoal", amplia.
A gestora de pessoas cita que conhece pessoas que ficaram mais de um ano estudando para concurso, por exemplo. "E por isso ficaram um período mais longo fora do mercado. Se o objetivo é reciclar, hoje é melhor tentar adaptar o tempo disponível, a rotina atual, mesmo que isso signifique algum sacrifício. Ou seja, ver o objetivo para tomar a decisão envolve mais de um elemento. É para reciclar? Por quanto tempo? Como vou resolver minha vida financeira e pessoal durante esse período?", indaga Fabri.
A profissional conta que usa, para si, a ideia da reciclagem intrajornada. "Eu trabalho com conhecimento, preciso me reciclar, buscar informações o tempo todo. Se surge alguma necessidade de conhecimento específico, ajusto minha agenda para absorver ao longo da minha jornada. É mais difícil para muitos, sim. Mas leva em conta a capacidade de cada um de se ajustar e fazer escolhas sobre a gestão de seu tempo. É preciso avaliar ainda o prejuízo de ficar fora um tempo e o período necessário para se reinserir no mercado de trabalho após essa pausa. A pessoa tem folga financeira para suportar a parada e o período de reinserção posterior?", acrescenta Alexandra.
Para Davison Luca, formado em engenharia elétrica, gestão, com pós-graduações em administração e RH e psicodrama, a palavra chave para as pessoas que discutem o período sabático é "excesso". "Chega um período em que algumas pessoas perderam uma visão completa e sentem que estão colocando suas competências e inteligência na direção errada. É a hora em que essa pessoa quer parar para combater excessos. O problema que vejo nesses casos é a pessoa sair de um extremo e ir pra outro extremo. Ela sai de uma vida acelerada, por exemplo, e vai para um lugar parar por um tempo", argumenta.
Lucas costuma fazer um paralelo sobre a gestão do tempo para construir seu raciocínio. "Costumo dizer que um ano hoje equivale a 85 anos do meu avô. Então, estamos falando de sabático também para o risco de aumentar a ociosidade. E ociosidade nos tempos atuais é perigosíssima. A parte mais escura da noite é um segundo antes de clarear. A mente ocupada é o mais importante. Então, temos de pensar sobre esses elementos, que é colocar a paixão, o coração, a mente, equilibrar isso com intuição e fazer transformações, controlando excessos", aborda.