| Samantha Ciuffa |
| Rio Bauru apresenta diminuição da vazão; na foto, altura da quadra 14 da avenida Nuno de Assis |
Por entre a solidez das construções, das ruas e das avenidas, a fluidez do Rio Bauru e de seus afluentes corre pela vida urbana da cidade. Durante muitos anos, inclusive, sendo alvo de críticas por conta do desagradável odor proveniente do esgoto que por ali passava e do transbordo em dias de fortes chuvas.
| Malavolta Jr. |
| Eric Fabris, presidente do DAE |
Essa realidade foi alterada após os interceptores de esgoto serem instalados ao longo do rio, mas ações como descarte incorreto de resíduos e lixos, ainda são desafios. Outra mudança notada se deu no volume do curso da água, que era de 6 mil litros por segundo e, hoje, corre com, pelo menos, 1.000 litros por segundo a menos, de acordo com o presidente Departamento de Água e Esgoto (DAE), Eric Fabris.
"A vazão realmente diminuiu. Isso ocorreu porque tiramos o esgoto. Hoje, os córregos e o próprio Rio Bauru estão despoluídos na mancha urbana", afirma.
Até 2016, a água do Rio Batalha ou dos poços profundos se transformava em esgoto e era lançada no Rio Bauru. "Isso aumentava sua vazão. Hoje, esse esgoto anda pelos interceptores. Então, dependendo do local onde você está, na altura da rodoviária, por exemplo, está passando de 500 a 600 litros por segundo de esgoto a menos. O rio está com a vazão dele próprio, com um metro cúbico por segundo a menos", explica.
Ainda há lançamento de esgoto no Córrego da Vargem Limpa e em alguns pontos do Córrego Vargem Limpa e Córrego Barreirinho. No entanto, a limpeza já surte efeito na natureza. "Alguns córregos já tem vida, existem alguns peixes e a presença de cágados e garças. Passados três ou quatro dias sem chuva, se olhar na Nuno de Assis dá para enxergar o fundo, está bem cristalino".
MAIS AÇÕES
| Malavolta Jr. |
| Ricardo Olivatto, secretário de Obras |
Além do Rio Bauru ficar livre de esgoto, ações para a sua limpeza também são apontadas como responsáveis na diminuição da vazão do rio. "Em outubro do ano passado, iniciamos o serviço de dragagem do Rio Bauru. Quando fazemos esse serviço, também conhecido como limpeza da calha, melhora a vazão do rio e diminui a subida de seu nível", explica Ricardo Olivatto, secretário de Obras.
De acordo com ele, a limpeza realizada na altura da Nuno de Assis, próximo ao Mary Dota, até a chegada da primeira entrada para a rodoviária e da região do Fórum até a Joaquim da Silva Martha, ainda não está concluída em sua totalidade. O plano da Secretaria de Obras é retornar o processo - que não tem custo tão elevado, porque é feito com os equipamentos do município - no próximo período seco, que deve se iniciar a partir do final de maio.
"Na parte de baixo do rio existia uma ilha de areia, que foi se acumulando ao longo dos anos, e nós conseguimos alargar essa parte do rio com a limpeza do jusante, aumentando a vazão. Isso reduz a possibilidade de remanso, de uma onde de inundação que reflete na Nuno de Assis, na parte canalizada", afirma.
Ainda segundo Olivatto, o plano é dar um repasse nos trechos do rio já trabalhados e entrar nos demais. "A ideia é ir até altura da Benevenuto Tiritan, que ajudará na drenagem do trecho da comendador, que quando chove acumula bastante água", afirma.
A Secretaria de Obras também está testando um sistema de comportas nas barragens da Água do Sobrado e da Água do Castelo que visa melhoramentos neste sentido. O projeto está em fase de estudos e negociações com o Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE).
LIVRE DO ESGOTO, MAS NÃO DO LIXO
Diminuição da vazão do Rio Bauru causa impacto em dias de forte chuva na cidade, mas a sujeira em locais indevidos ainda é desafio
| Ana Beatriz Garcia |
| Lucilene Sanches Gonçalves comenta que não houve alagamentos neste ano |
| Arquivo Pessoal |
| Fachada da casa de Lucilene após chuva em janeiro de 2016 |
| Ana Beatriz Garcia |
| Sinais da destruição causada pelos alagamentos |
| DAE/Divulgação |
| Lixo encontrado na adutora que se rompeu no último dia 23 |
| João Rosan/JC Imagens |
| Inundação na região do viaduto da Fepasa, em 2015 |
Basta chover para que a população fique temerosa por conta das enchentes em determinados pontos da cidade. Com a diminuição da vazão do Rio Bauru, locais conhecidos por inundações, demoraram a apresentar problemas, de acordo com a secretaria de Obras.
“Ficamos um bom tempo, neste ano, sem ter inundações na região do viaduto da Fepasa, por exemplo. Só aconteceu quando a chuva teve um volume maior recentemente”, afirma Ricardo Olivatto, secretário de Obras.
De acordo com o titular da pasta, ali existem tubulações de 60 cm de diâmetro para escoar toda a água. “Essas tubulações não têm ligação direta com a galeria principal de drenagem, são tubos independentes que levam a água para o Rio Bauru. Mas há uma galeria que passa naquela altura. Antes, a água subia e transbordava por ali. Por conta da baixa vazão, o rio está mantendo o nível e não está mais subindo, não havendo mais essa competição com a água que vinha não conseguia sair e transbordava pela parte superior”, afirma.
No entanto, o problema com a sujeira jogada de forma indevida, ainda é um quesito que intensifica tais inundações. “Em uma das últimas chuvas fortes, eu desci pra ver o comportamento da galeria. Percebi que temos ali uma grelha e o lixo que veio de muitos lugares chegou e a tampou, impedindo a passagem da água”, conta o secretário.
Como exemplo da falta de conscientização, o presidente do Departamento de Água e Esgoto (DAE) Eric Fabris relembra o caso recente e frequente do rompimento de uma adutora que leva a água da Estação de Tratamento de Água (ETA) até o reservatório da Praça Portugal, na avenida Comendador José da Silva Martha. “Como a adutora atravessa por dentro das galerias, os detritos se alojaram contra o tubo dela que acabou se quebrando. É como se fosse a vela de um navio, ao invés de resistir apenas à força da água batendo na parede do tubo, o tubo tem de resistir à pressão de água que todo o peso do detrito causa sobre ele”, diz.
TODO JANEIRO
Quem conhece bem os efeitos das chuvas é Lucilene Sanches Gonçalves, 43 anos. Vizinha do Rio Bauru na região do Ecoponto da rua Sorocabana, ela mora há cinco anos na quadra 1 da rua Aviador Gomes Ribeiro e já perdeu muitos móveis por conta das inundações. “Desde que moro aqui, todos os anos em janeiro, quando chove forte ou até em chuvas menores, minha casa alaga por completo”, lamenta.
Mesmo com as fortes chuvas que já atingiram a cidade neste ano, após a limpeza das calhas realizada pela secretaria de Obras na região da casa de Lucilene, não houveram mais alagamentos. “Tiveram várias chuvas e ainda não encheu, mas porque eles passaram a draga no rio e tiraram muita sujeira. Tanto que passaram dois dias limpando e trouxeram três máquinas que chegaram a atolar no rio, de tanto lixo que tinha”, conta Lucilene que, inclusive, já moveu processos contra a prefeitura, por conta da situação.
Para tentar fugir da situação, Lucilene reformou a casa inteira criando barreiras para tentar proteger o interior da casa. “Tirei a porta da frente, mas a agua já ficou tão alta a ponto de entrar pela janela. Quando começa a chover, eu já fico aflita”, diz. “Todas as vezes que inunda tenho que sair de casa, meus vizinhos sabem dessa situação e mesmo assim, ainda jogam lixo aqui na beira do rio”, completa.
A propriedade foi comprada quando a líder de loja se mudou para Bauru, em 2013, sem saber os problemas e prejuízos que surgiriam a cada chuva. Mesmo assim, ela não deseja vender a casa para não repassar o problema para outra família. “Não dormiria em paz”, finaliza.
IRREGULARES
| Prefeitura Municipal/Divulgação |
| Instalação de grelhas no viaduto da Fepasa |
As águas dos afluentes e do leito do Rio Bauru estão livres do esgoto in natura, mas a poluição dos fundos de vale com despejo de outros dejetos continua causando poluição e colorações diferenciadas no percurso do rio. “Isso acontece não só com as águas, mas com o próprio esgoto. São provenientes de atividades industriais irregulares, já que toda a atividade industrial deve tratar o seu próprio esgoto. Lançando esses agentes, além de causar danos ao rio, ainda desequilibram o regime biológico da estação de tratamento”, explica.
Fabris ainda destaca que o DAE pretende intensificar a fiscalização de lançamento de afluentes industriais e também de casas com ligação de água da chuva na rede de esgoto. “Temos que trabalhar a conscientização. A população tem que lidar com os equipamentos urbanos com o devido respeito”, conclui.
ALTERNATIVAS
Na última terça-feira (27), a Divisão de Drenagem da Secretaria de Obras instalou quatro novas grelhas no sistema de captação de águas pluviais da Avenida Nações Unidas, no viaduto sob os trilhos da Fepasa. As grelhas medem 60 cm x 1,20 m e visam o escoamento rápido das águas das chuvas, que ficam represadas naquele ponto. Além de outros pontos como no quarteirão 18 da Avenida Nações Unidas. “Quando ocorre o entupimento da grelha por conta do lixo que as pessoas jogam nas ruas, ainda há a opção desses outros pontos de saída para escoar essa água de forma mais rápida”, afirma Olivatto.
QUALIDADE PARA DENTRO E FORA DA CIDADE
Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) pretende garantir estado ainda melhor no caminho para o Tietê
Com aproximadamente 16 km de extensão, o Rio Bauru é formado pelo encontro dos córregos Água da Ressaca e Água da Forquilha, corta as ruas Alto Purus, Antônio Alves, Araújo Leite e avenida Nações Unidas e segue em direção ao rio Tietê.
Durante seu curso, encontra com os afluentes Água do Sobrado, Água da Grama, Água da Ressaca, Água do Castelo, Barreirinho, Córrego Vargem Limpa e Forquilha pela margem esquerda e Água Comprida, Ribeirão Vargem Limpa, Córrego do Augusto, Água das Flores e Jardim Guadalajara, pela margem direita (confira no infográfico no final).
Todos os córregos conduziam esgoto pela cidade e depois de ficar livre desses dejetos, as águas ganham e ‘distribuem’ mais vida. “O importante é a gente não ter essa carga patológica e poluente dentro da cidade. Muitas pessoas tinham contato com esses locais, isso traz um volume de doença, principalmente as gastroenterites, muito grande, o que também impacta em um custo alto para a rede de saúde do município. Hoje, esse contato com os agentes patológicos já não existem mais, isso sem contar o cheiro horrível que foi embora”, comenta Fabris.
Ainda segundo o presidente do DAE, a intenção é que, de Bauru em diante, o rio siga com a mesma qualidade. “No percurso entre a mancha urbana de Bauru e o Tietê são aproximadamente 20 km, nesse percurso já ocorre uma certa ‘digestão do esgoto’. Ele já chega com menor impacto, mas sem dúvidas leva uma carga poluente para o rio Tietê. Trata-se de um rio caudaloso com a possibilidade de absorver essa carga, mas melhor que não seja assim. Por isso que nós estamos fazendo a nossa estação de tratamento”, comenta.
TRATAMENTO
De acordo com Fabris, a Estação de Tratamento Vargem Limpa está com mais de 70% das obras civis prontas. “Estamos na fase de instalação dos equipamentos eletromecânicos dos prédios de tratamento preliminar. A previsão é concluirmos a obra entre o final de 2018 e o início de 2019. Mas encontrando muitos problemas em relação aos projetos. Seguimos a duras custas, mas sem deixar a obra parar. Pelo contrário, de 2017 para cá elas aceleraram”, afirma.
Essa será a primeira do Estado com tratamento até nível terciário, que é a de aplicação de ultra violeta para desinfetar nosso esgoto e zerar a carga patológica, segundo o presidente do DAE. “Hoje, comumente, é utilizado o cloro nas estações de tratamento, mas a aplicação é muito controvertida porque ele aplicado num efluente com alta carga bacteriológica resulta na liberação de trialometano, composto químico altamente cancerígeno. O ultra violeta só mata as bactérias e não gera nada”, conclui.
Depois de pronta ETE Vargem Limpa, que está sendo construída no Distrito Industrial I terá capacidade para tratar 95% do esgoto produzido na cidade, cerca de 1.200 litros por segundo. Os outros cinco por cento são tratados na ETE Candeia, localizada no Núcleo Gasparini.
VOLTAR À VIDA
| Malavolta Jr. |
| Peixes foram encontrados no Córrego da Forquilha, em 2017 |
Testes realizados nas águas de córregos afluentes e no próprio Rio Bauru, em 2017, mostraram que a formas de vida reaparecerem rapidamente. No Córrego da Forquilha, alguns peixes já foram encontrados alguns meses depois da limpeza dos córregos e rios. “O rio se auto depura, a natureza reage assim que o local deixa de receber esgoto. Formas de vida reaparecerem rapidamente”, disse a diretora do Serviço de Tratamento de Esgoto do DAE, Giselda Passos Giafferris, na época.