Embora sempre firme com as mãos no volante, o bom dia que ele dá a cada passageiro que entra é de corpo inteiro ou, pelo menos, de rosto inteiro: olho no olho, sem nenhum esforço aparente, um brinde espontâneo e um estimulante gratuito para quem inicia mais um dia de trabalho.
Ele não abre exceções: só abre a porta e o sorriso.
O ônibus urbano é também chamado de coletivo, e nesse caso é mais do que apropriado. A despeito do calor sufocante, da lotação nos horários de pico e do trânsito engarrafado, o clima entre os passageiros é de sincera cordialidade.
E ele ainda acena para eventuais transeuntes que o reconhecem de outras viagens, ou carnavais, talvez. É, enfim, uma festa ligeira, e acredito que ele sorri por dentro quando ouve, lá da porta de saída: "obrigado, motorista".
Mas aí a nossa esquerda caviar (caviar azedo, aliás) diriam: "Esse representante do proletariado é mais uma vítima transformada em massa de manobra pela cadeia produtiva do capitalismo perverso".
Ao que retrucaria o velho filósofo: "O capitalismo é a luta do homem contra o homem; o socialismo é justamente o inverso".
O mais interessante, porém, é que o salário desse motorista deve ser umas 30 vezes menor que o do intermitente alcaide local. E, com certeza, o bem que ele presta à população e ao município é 30 mil vezes maior.