08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Seo Machado e o Cata-vento

Seu filho: Dr. Ajax Rabelo Machado
| Tempo de leitura: 2 min

Ao lado do caixão de meu pai, em dado momento, coube a mim proferir algumas palavras. Eu que sempre tive certa facilidade em falar de improviso e já havia mentalizado alguma coisa a dizer sobre tudo o que ele sempre significou para mim, meus irmãos e todos os seus parentes, naquele momento a voz embargou de tal maneira que sufocou e não saiu nada.

Respirei fundo e, com muita dificuldade, tentei contar uma de suas últimas histórias a mim relatadas por ele, já acamado, mas ainda muito esperançoso. A voz não saiu e murmurei em lágrimas e soluços algo sobre um tal cata-vento.

Meu pai nasceu em 1924, no Interior do sertão do Ceará. Todos já ouviram histórias e estórias de nossos grandes mestres da literatura sobre a vida desta gente sofrida. Primogênito de uma numerosa prole, meu pai desde criança trabalhou muito para o que nós chamamos de sobreviver, palavra que naquele mundo é mais do que significativa.

A distância da propriedade rural onde moravam era de 24 km do povoado onde ele nasceu, Morada Nova, e onde ele fazia o escambo, qual seja a troca das mercadorias que levava em dois jumentos (feijão, algodão etc) e trazia os produtos de primeira necessidade para sua casa.

Apesar de pouco estudo, ele era um ávido leitor, e na cidade sorvia tudo o que podia ler. Foi lá, em Morada Nova, numa barbearia, que ele leu sobre o cata-vento e suas múltiplas possibilidades, entre elas a de bombeamento d'água.

Com uma ideia fixa na cabeça, meu pai desenhou toda engrenagem necessária para fazer um cata-vento imaginando bombear água para sua lavoura.

Construiu um poço e, com a ajuda de um conhecido carpinteiro, construiu o cata-vento. Meu pai migrou para o Sul/Sudeste em 1948 e aqui construiu sua vida e família, tendo ajudado todos os seus parentes diretos e os da família de minha mãe que lá permaneciam a também migrarem.

Minha grande emoção no momento do velório foi a de relatar com o testemunho de suas 8 irmãs que o seu cata-vento, construído na década de 40, ainda estava na propriedade que pertenceu a seu pai, meu avô paterno.

O simbolismo do cata-vento torna-se mais interessante porque, por uma ironia, meu pai leu Dom Quixote De la Mancha, famoso livro de Cervantes, em espanhol, sem que jamais tenha frequentado alguma aula de castelhano, livro este que ainda permanece em sua biblioteca, e que eu sempre fiquei intrigado: por que será que meu pai gostava tanto de Dom Quixote?

Acho que tem alguma coisa a ver com os cata-vento. Em memória de meu pai, Joaquim Oliveira Machado, caixeiro viajante, comerciante, maçom, quarteranista, cearense e Cidadão Bauruense, com muita saudade e orgulho.