08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Em busca de um Estado mínimo!

Cesar Augusto Teixeira de Carvalho - Prof. Dr. aposentado do Dep. de Engenharia Civil Faculdade de Engenharia da Unesp - Bauru
| Tempo de leitura: 4 min

Se alguém investe, por exemplo, num restaurante ou numa fábrica de bicicletas e acaba tendo sucesso, é porque ofereceu pra sociedade algo interessante e de qualidade, conquistando boa receptividade, caso contrário não se sustentaria por muito tempo. Estes investimentos caracterizam uma "iniciativa privada", pois não envolve dinheiro público, e o risco de dar certo ou não cabe apenas ao investidor, ou seja, sem prejuízo da sociedade. Entretanto, após a formalização, é possível ocorrer corrupção envolvendo agentes públicos e sonegação fiscal, mas não há informações suficientes para avaliar sua extensão. Já uma "iniciativa do governo" é fácil ficar sujeita a pressões da opinião pública ou do interesse de grupos específicos.

É comum vermos algumas com apelo popular ou com um tom até populista, outras atendendo aliados políticos ou favorecendo setores corporativos, e tem também aquelas interessantes e tecnicamente necessárias e viáveis. Numa iniciativa governamental, vemos que o risco de se errar é bem maior uma vez que o governante é político e, por isso mesmo, atua sempre disposto a agradar, mas, caso ocorra um erro, o prejuízo é dividido com a sociedade pois se trata de dinheiro público. Como dinheiro público parece não ter dono, este tipo de iniciativa propicia e muito a corrupção, fato este confirmado todo dia pelo noticiário.

Por outro lado, a esquerda é contra a iniciativa privada, em especial a "capitalista" que visa o lucro, uma vez que defende o socialismo onde o Estado é máximo e o grande senhor das ações. E é frequente a esquerda se referir ao capitalismo como um sistema gerador das desigualdades sociais, alegando que seu objetivo é obter o máximo lucro possível, e, para isso, paga o menor salário que puder. Esta visão radical não cansa de repetir como se isso fosse algo geral e imutável. Como veremos a seguir, não é bem assim!

Na história do mundo, um marco nas desigualdades humanas deve ter ocorrido no advento da agricultura, cerca de 11 mil anos atrás. Bem antes, em nosso planeta então habitado por poucas pessoas e com bastante alimentos naturais, havia espaço e comida farta pra todos. Mas, à medida que a população crescia, estes alimentos iam rareando, o que sugeria às pessoas a se fixarem num local para plantar. Num primeiro momento algumas tiveram esta percepção, se dedicaram a plantar e tiveram sucesso, e para defender seu espaço com os alimentos, criaram verdadeiros feudos de proteção. Isto foi necessário uma vez que, a grande maioria das pessoas não fizeram o mesmo, mas tinham fome e, a partir de certo momento, os alimentos gerados não eram suficientes pra todos. Nesta situação começa a ocorrer diferenciação entre as pessoas: as que tinham e as que não tinham, espaços com alimentos. E tudo isto não tem nada a ver com capitalismo: tem a ver apenas com a percepção, a determinação, a sobrevivência e a defesa de seu trabalho. E daí, para outras desigualdades, foi um pulo. Muito tempo depois, na Revolução Industrial (Europa, séculos 18 e 19), veio a consagração do capitalismo onde surgiram grandes criações, grandes fábricas e grandes lucros. Mas, ao contrário do que os socialistas divulgam, apesar dos lucros, foi a época onde os pobres deram seu grande salto evolutivo, pois, com a criação dos Teares Mecânicos e dos Refrigeradores, as roupas e os alimentos ficaram muito mais baratos. Isto beneficiou milhões de pessoas das camadas mais pobres, que passaram a se vestir e se alimentar bem melhor, aumentando e muito sua qualidade de vida.

Vemos que o capitalismo visa o lucro, mas, pra ter lucro, tem que ser criativo e fazer algo de qualidade e interesse de um monte de gente. E o capitalismo tem evoluído bastante, sendo um dos fatores a grande concorrência em todas as áreas, o que, para ser competitiva, força a empresa a trabalhar no limite entre a qualidade máxima e o lucro mínimo. Hoje temos várias empresas contribuindo para a sociedade com qualidade, tanto nas ofertas criativas, como nos empregos e na parte assistencial. Outro fator que ajuda, é nosso sistema republicano e democrático, onde as leis podem ser sempre aperfeiçoadas, além de que se tem também um ministério público independente para dar suporte ao cumprimento das leis.

Neste contexto, vejo o capitalismo de uma forma simples e não tendenciosa, procurando separar o que é sistema e o que é humano. Isto é necessário uma vez que, se misturarmos tudo, nenhum sistema seria perfeito uma vez que o homem não é perfeito. Assim, gosto de dizer apenas que "capitalismo" é a liberdade de se criar e empreender. E, como consequência, possibilitar a produção de mais riqueza à sociedade, devido a multiplicidade de atividades e empregos gerados pela iniciativa privada. E esta concepção de liberdade ajuda a tirar do Estado a função de ser o grande senhor das ações, e estaríamos contribuindo para evitar seu gigantismo onde, certamente, seria: mais oneroso, mais ineficaz, além de propiciar muita corrupção. Para isto, creio ser melhor ainda mais "iniciativa privada", capitalista ou não, pois em geral têm custo menor, são mais eficazes e é provável envolver menos corrupção.