04 de abril de 2026
Geral

Da Terra do Sol Nascente ao 'Mercadinho Bauru'

Marcus Liborio
| Tempo de leitura: 6 min

Aceituno Jr.
Com a celebração dos 110 anos da imigração japonesa no Brasil, Masao elogia a receptividade dos brasileiros: 'É um povo solidário'

Chegar aos 93 anos de idade com um pique de impressionar não é para qualquer um. Saúde, lucidez e muito bom humor definem Masao Hayakawa. Ele faz parte da geração de imigrantes japoneses que, ao final da Segunda Guerra Mundial, deixaram a Terra do Sol Nascente para tentar a sorte no Brasil. "Foram 45 dias de viagem. Passei o Ano Novo no navio", lembra Masao, que chegou a Bauru em 1954, a convite de um tio.

Em tom amargo, ele lembra que as coisas ficaram complicadas no Japão depois da guerra, na qual, inclusive, Masao foi combatente. "Eu era mecânico da oficina de aviões (caças). Muitas vezes, fomos surpreendidos por soldados americanos e tivemos que lutar. Vivíamos em alerta todos os dias".

Após o conflito, faltava comida e serviço. O tio de Masao já havia se mudado para o Brasil anos antes e o convidou para trabalhar no cultivo de verduras, em Bauru. Com 27 anos, o jovem não pensou duas vezes: fez as malas e, com o coração apertado, deixou a família para trás.

O destino por aqui lhe reservava conquistas e o amor de sua vida. Ao chegar em Bauru, se apaixonou pela prima Keiko, com quem é casado e teve duas filhas e cinco netos.

Os negócios também prosperaram. Após dois anos na lavoura, Masao decidiu arriscar no comércio e abriu o "Mercadinho Bauru", que funcionou por 30 anos no Centro da cidade e até hoje é lembrado pelos bauruenses em tom saudosista. 

Com as comemorações dos 110 anos da imigração japonesa no Brasil neste ano, o ex-combatente de guerra e comerciante aposentado elogia a receptividade dos brasileiros. "O povo brasileiro tem bom coração. É solidário e compreensivo. Fico feliz em ver as conquistas da colônia japonesa no Brasil".

Arquivo de Família/Divulgação 
Masao Hayakawa (à esq.) com familiares e amigos em sítio de Bauru, em 1955, um ano após desembarcar no Brasil

Jornal da Cidade: O senhor nasceu no Japão? Ficou por lá até que idade?

Masao Hayakawa: Nasci na cidade de Fukagawa, Estado de Hokaido. Fiquei por lá até meus 27 anos. Depois a coisa começou a complicar.

JC: Complicar por quê? Algo relacionado com a Segunda Guerra Mundial?

Masao: Sim. Fui combatente no final da Segunda Guerra Mundial (1943 a 1945). Eu era mecânico da oficina de aviões (caças). Muitas vezes, fomos surpreendidos por soldados americanos e tivemos que lutar. A gente estava ali e não sabia o que nos esperava. Vivíamos em alerta todos os dias. Havia uma espécie de ritual de despedida quando a tropa de pilotos partia para alguma missão ou um combate. Eles acenavam com as mãos para nós, de dentro das aeronaves, para dar adeus, porque não sabiam se iriam voltar. Perdi muitos amigos na guerra. Foi uma época muito triste. Os americanos atacavam muito, mas o espírito japonês, de que nós iriamos ganhar a batalha, sempre prevalecia.

JC: Como ficaram as coisas depois da guerra? Foi quando decidiu vir para o Brasil?

Masao: Com o fim da Segunda Guerra Mundial, faltava comida e serviço no Japão. Foram alguns anos bem difíceis para os japoneses. Aí pensei: "O que vou fazer da minha vida?". Eu tinha um tio que vivia no Brasil há um tempo e ele me convidou para morar com ele. Em 1954, então, resolvi partir. Peguei as minhas malas e viajei sozinho para o Brasil, deixando toda a minha família para trás, incluindo os meus pais. Acho que foi uma das primeiras turmas de imigrantes japoneses que partiram para o Brasil após a guerra. Foram 45 dias de viagem. Passei o Ano Novo no navio. Lembro de estar ansioso e esperançoso com a nova vida que viria. A sensação era boa.

JC: Como o senhor veio parar em Bauru?

Masao: Meu tio começou a vida no Brasil na cidade de Registro, trabalhando na colheita de arroz, mas chovia muito nessa região e a plantação não vingava. Então, ele mudou-se para Bastos e passou a atuar na colheita de algodão. De lá, veio para Bauru plantar verdura. Quando cheguei aqui, ele já morava em Bauru. Trabalhei com ele por dois anos na lavoura, mas não consegui me adaptar. Foi então que, em 1956, montei uma quitanda na quadra 4 da rua Primeiro de Agosto, Centro da cidade. Chamava 'Mercadinho Bauru'.

JC: O senhor enfrentou dificuldades como comerciante e para se adaptar à língua portuguesa?

Masao: Virei comerciante sem falar direito a língua portuguesa. Até hoje é difícil falar (risos). Foi uma das dificuldades que enfrentei no começo aqui em Bauru. A comunicação com os clientes era por gestos. Graças a Deus, isso não foi problema para os negócios, pois o povo brasileiro tem bom coração. É solidário e compreensivo. Eu também aprendi muito com um funcionário que tive, o Souza. Naquela época, não tinha mercados por aqui. Então foi meio que uma novidade. Toquei a quitanda por exatos 30 anos, quando resolvi me aposentar. Até hoje me perguntam do 'Mercadinho Bauru'. Era bem conhecido na cidade. Sinto orgulho disso.

JC: Como conheceu a sua esposa?

Masao: Ela é uma das filhas do meu tio, ou seja, a minha prima Keiko Hayakawa. Quando cheguei à casa do meu tio foi amor à primeira vista. Ela também trabalhou comigo na quitanda. A gente se casou quatro anos depois que desembarquei em Bauru. Com ela, constitui família: duas filhas e cinco netos. É a minha grande companheira.

JC: Nunca pensou em voltar a viver no Japão?

Masao: Não. Construí a minha vida aqui em Bauru. Tenho um carinho muito grande pelo Brasil, pelo povo brasileiro. Aqui é o melhor lugar. Porém, não perdi as minhas raízes. Visitei muitas colônias japonesas e fiz muitas amizades. Viajei algumas vezes ao Japão para rever a família. Meus pais também vieram me visitar no Brasil. Depois que me aposentei, iniciei outras atividades. Fui presidente do Clube Nipo de Bauru e, até hoje, participo das festividades e de ações desenvolvidas pelo clube.

JC: Este ano marca os 110 anos da imigração japonesa no Brasil. Qual o sentimento pela data?

Masao: De felicidade. Fico feliz em ver as conquistas da colônia japonesa no Brasil nesses anos todos. Os japoneses foram alcançando espaço, venceram na vida depois de enfrentar muitas dificuldades por conta da guerra. Aqui no Brasil, as famílias são felizes. A gente vê o povo japonês feliz, graças a Deus.

PERFIL

Nome: Masao Hayakawa

Nascimento: 30/3/1925

Cidade: Fukagawa (Estado de Hokaido)

Esposa: Keiko Hayakawa, 87 anos

Filhos: Rute Marie Hayakawa da Costa (falecida) e Eunice Hiromi Hayakawa Tanaka

Pais: Matsujiro Hayakawa e Kiyo Hayakawa

Lembrança de infância: "Amor dos meus pais por mim"

Livro: História do Japão

Música: Enka - Música Popular Japonesa

Hobby: ficar no computador, conversando com familiares do Japão pela Internet

Time do coração: São Paulo. "Gosto de sumô"

Filme: Tyushingura - filmes de samurais

Nota 10: para a amizade

Nota 0: para a corrupção