11 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Auxiliares de creche não fogem da luta: sua voz abafada e silenciada tanto tempo grita e pede socorro


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Sociedade bauruense, precisamos falar, precisamos pedir ajuda e socorro, não podemos mais nos omitir. Desde a última semana, temos sofrido duras críticas por parte da população por escolhermos exercer nosso direito à cidadania, nosso direito de dizermos basta, nosso direito de ter qualidade nos nossos postos de trabalho.

E é por isso que resolvemos falar, pois não dá mais para suportarmos esse peso de carregar essa cidade nas costas, precisamos dividir as nossas penas e insatisfações, devido a uma administração negligente que finge não enxergar o caos que Bauru se encontra em muitos setores.

Somos auxiliares de creche, essa é a nomenclatura do cargo que criaram para nós. Nas escolas de educação infantil somos luta diária, cuidamos, ensinamos, educamos, fazemos parte do desenvolvimento das crianças.

Não temos medo da luta, e lutamos por nossas crianças diariamente, somos mães escolares. De manhã recebemos as crianças com carinho, brincamos, cantamos e fazemos carinho para dormir, sim, pois muitas crianças precisam do período integral. Durante essa jornada de 10 horas de nossas crianças, somos nós que ensinamos e estimulamos, enxugamos as lágrimas quando sentem saudade da família, somos nós que damos o colo que a mãe não pode dar, uma vez que precisa trabalhar.

Cuidamos da alimentação, somos nós que damos mamadeira e papinha para os bebês, ensinamos as crianças a comer com independência, somos responsáveis pela higiene, ensinamos ir ao banheiro, a lavar as mãozinhas, a falar, estimulamos em seu desenvolvimento neuropsicomotor, atuamos em sua motricidade. Sim! Muitas vezes somos nós que vemos os primeiros passinhos quando começam a andar e as primeiras palavras, quando começam a falar, muitas nos chamam de mãe.

Participamos das primeiras etapas do desenvolvimento da criança e muitas vezes nos perguntamos, será que somos importantes na vida delas? O que você acha, população bauruense? Nosso trabalho não é fácil, enfrentamos em nossa jornada de trabalho inúmeros desafios, mas você bauruense não sabe. Não sabe por que nos calamos, não sabe por que damos sempre "um jeitinho", ou simplesmente não sabe por que não quer saber, tudo isso porque amamos nossas crianças e somos convictas que o nosso trabalho é sim muito importante. Mas a voz silenciada e abafada não aguenta mais, estamos sufocadas e as crianças não merecem e nem cabe mais aqui nosso silêncio. Primeiramente, fazemos parte dessa mesma sociedade, também dependemos da máquina pública que se encontra tão deficitária em muitos setores.

Mas será culpa do trabalhador o caos que se encontra nossa cidade? Permitam-nos deixar essa reflexão.

Aos colegas servidores, população bauruense, pedimos apoio e solidariedade, se calar tanto tempo sufoca e adoece. Vivemos uma rotina que só funciona no papel e nas teorias de Vygotsky. Fazemos muitas vezes inúmeros trabalhos dentro da escola que não é de nossa responsabilidade, caracterizado como desvios de função. Muitas de nós sofremos assédio moral quando discordamos e por muitas vezes tememos retaliações e nos calamos. Mas agora chega, precisamos falar o que nos sufoca.

Somos todas servidoras a serviço da população, e nos orgulhamos disso, mas chega de silêncio, afinal, quantas colegas tem ficado doentes, é depressão, síndrome do pânico, fibromialgia ou morreram na estrada da vida, e a causa da morte? Infarto fulminante, câncer... por que será? Sofremos muito com a falta de reconhecimento, abusos e pressão psicológica. É triste, mas nunca vimos morrer tanta gente da educação como nos últimos tempos.

É, senhores, é por isso que lutamos, por respeito, dignidade e melhores condições de trabalho. Pelas crianças, por nossos filhos e familiares, e também pela nossa saúde física e mental, não podemos mais ficar quietas, afinal, as nossas condições de trabalho estão beirando a insalubridade. Nas escolas faltam muitas coisas, desde materiais pedagógicos a materiais de higiene para as crianças e escola. Faltam luvas para trocar as crianças, muitas vezes material de limpeza, e se quisermos oferecer algo diferente temos que tirar do bolso. Muitas vezes, para nossas crianças dormirem em lençóis limpos, levamos para a casa e lavamos com o nosso sabão, usamos nossa máquina de lavar e a energia. Em muitas escolas, ou não tem ou está quebrada a máquina de lavar que não é consertada ou substituída. Isso é justo? E por falar em dormir, você, leitor, sabe em que condições o seu filho dorme na escola?

É, bauruense, muitas escolas não têm espaço físico para comportar nossas crianças, não possuem colchões suficientes, não possui travesseiros, fronhas e nem lençóis, e quando têm se encontram em estado deplorável. Nossas crianças muitas vezes dormem apertadas dividindo colchão, às vezes sem ventiladores nas salas, que também quebram e demoram para substituir, quando não compramos do bolso. Nos berçários, que necessitam de maiores cuidados, pois cuidamos de bebês a partir de 4 meses, faltam funcionários suficientes para a grande demanda, muitos berçários se encontram em superlotação, excedendo o limite de crianças. Na hora da comida faltam cadeirões e carrinhos para acomodar os bebês. Mas se nem espaço físico tem, como esperar que tenha carrinhos e cadeirões suficientes e ainda funcionários?

Muitas vezes faltam merendeiras e temos que ficar na cozinha, correndo o risco de acontecer algum acidente. Não podemos ficar lá, afinal, tem uma profissional específica para tal serviço. Nessa rotina tão dura e com tantas tarefas, ainda precisamos limpar o berçário para poder colocar nossas crianças para brincar, também faltam muitas vezes serventes para ajudar, eis que ficamos dando o tal "jeitinho" e fazendo desvios de função diariamente.

Se não bastasse tudo isso, em algumas escolas somos obrigadas pela direção realizar projetos pedagógicos, temos que fazer semanários e apresentações, tarefas essas que são exclusivas e delegadas aos professores. Não seríamos aí uma mão de obra barata, já que não somos remuneradas para realizar projetos?

Faltam professores, falta espaço físico, faltam escolas suficientes, pois as que já tinham foram fechadas no início do ano passado sem previsão para reforma, enquanto isso nossas crianças ficam "espremidas" nas que sobraram, e se não bastasse isso cobrimos a carência de funcionários em muitos setores.

E se faltam professores, somos nós que temos que ficar com as crianças, mas aí perguntamos a vocês população: o seu filho não tem direito ao professor?

Os funcionários morrem, exoneram, trocam de cargo e não são chamados novos funcionários para a substituição, ou seja, quem está, se sobrecarrega para desempenhar as mesmas funções com uma colega a menos. Muitas vezes no exercício de nosso trabalho ficamos doentes. Apenas reflitam, sabe aquele dia que seu filho teve febre? Fomos nós que ficamos com ele no colo até você chegar. Sabe aquela virose que seu filho estava no outro dia? Fomos nós que cuidamos e limpamos, e quer saber também ficamos doentes e passamos para os nossos filhos. E aquela conjuntivite, não precisamos nem contar, né?! Sabe aquele dia que seu filho estava com dor de garganta, fomos nós que cuidamos e fizemos carinho para ele não chorar. Sabe quando seu filho começou a se desenvolver?

Sentar, engatinhar, ficar em pé, andar, falar, sabe quando ele começou a segurar a colher e comer sozinho, nós fomos as responsáveis também por isso, por estimulá-los todos os dias. Somos as responsáveis pelas nossas crianças, não podemos mais aceitar esse descaso e negligência, queremos o seu apoio população, afinal somos nós as mães escolares do seu filhinho quando você precisa trabalhar. Só nós sabemos a realidade que enfrentamos todos os dias. Pedimos, portanto, sua compreensão, solidariedade e apoio. E o nosso salário? Estão defraudando na cara dura e rindo da nossa luta.