04 de abril de 2026
Geral

'Minha Praça Minha Vida' preocupa

Ana Beatriz Garcia
| Tempo de leitura: 4 min

Malavolta Jr.
'Morador' da Pça. Vanildo Fiais da Silva, no Nova Esperança, prepara comida em grelha improvisada 

O espaço é amplo e verde. Como é comum em praças da cidade, conta com brinquedos para a recreação das crianças que vivem ao entorno. Mas a Praça Vanildo Fiais da Silva, no Nova Esperança, passou a ter outra função: virou moradia para algumas pessoas. A realidade preocupante, que também pode ser vista em outros pontos da cidade (leia mais abaixo), chegou a ser chamada de "Minha Praça Minha Vida" na última sessão da Câmara.

Com uma estrutura de madeira e lona, alguns móveis doados e uma grelha improvisada onde esquenta sua comida, um homem de 54 anos, cuja identidade será preservada, vive no local na companhia de mais dois amigos que conhece desde a infância. "Moro aqui faz cinco anos. Eu tenho família, tenho até casa, mas, por vários problemas da vida, resolvi sair de lá e ficar aqui na praça".

Segundo ele, outras pessoas já moraram no mesmo local. "Ficamos em muitos aqui, mas eles foram morrendo. Já queimaram meu colchão e eu escapei de me queimarem. Agora, fico sozinho à noite e eles (os amigos) ficam o dia todo comigo. A van da Sebes (Secretaria de Bem-Estar Social) passa por aqui. Às vezes, algumas igrejas vêm entregar comida também", relata o homem, que diz ter interesse em ir a uma comunidade terapêutica, porém, "que é muito longe".

A situação também não é bem vista por quem mora nas proximidades. "As crianças não podem usar o parquinho, as pessoas ficam receosas de andar por ali. Isso sem contar os lixos e entulhos queimados no local. É um abandono", comenta um dos vizinhos.

'CENÁRIO HABITUAL'

A realidade da praça, inclusive, foi levada à Tribuna, na última Sessão Legislativa, pelo vereador Fábio Manfrinato (PP), que pediu providências por parte da Sebes a respeito dessa movimentação.

"Eu conheço o programa 'Minha Casa Minha Vida', mas não conhecia o 'Minha Praça Minha Vida'. E não é só esse caso da praça do Nova Esperança. Tem uma situação parecida na última quadra da Antônio Alves, próxima ao Aeroclube. Lá, são dois barracos", pontuou Manfrinato durante sessão.

A preocupação do vereador foi endossada pelos parlamentares Ricardo Cabelo (PPS) e Markinho Souza (PP), que, inclusive, sugeriu a convocação de uma reunião na Câmara Municipal com o titular da Sebes para tratar do assunto. Os parlamentares pepistas destacaram ainda que o cenário de crise econômica alavancou o número de pessoas em situação de rua.

"Começamos a perceber um número grande de pedintes nos semáforos da cidade. Outro dia, eu flagrei, no cruzamento da Rodrigues Alves com a Nações Unidas, moradores de rua fazendo um churrasquinho naquela praça. Ou seja, está se tornando um cenário habitual em Bauru. Alguma coisa tem que ser feita. Pretendemos chamar, ainda neste mês, a Sebes para uma reunião na Câmara", afirma Manfrinato.

AUXÍLIO

A situação é confirmada pela Sebes. José Carlos Fernandes, titular da pasta, aponta o desemprego como um dos fatores para o aumento dessa população em situação de rua em toda a cidade. "De fato, existem pessoas vivendo em praças da cidade e, nos últimos tempos, houve um aumento dessa população de rua. Nós já levantamos e isso não vem ocorrendo só no nosso município, mas em outros lugares também. Por conta da questão econômica, da falta de emprego, algumas pessoas ficam transtornadas, acabam buscando refúgio em outras cidades onde não têm pouso, entrando em depressão ou nas drogas e nas bebidas, e acabam perambulando", afirma.

Para auxiliar essa população não só nas praças, mas em viadutos e outros pontos da cidade, o secretário afirma que a Sebes conta com uma van que os encaminha para atendimento especializado todos os dias das 8h às 24h. "Contamos com um serviço de abordagem e, caso desejem, essas pessoas vão para casas de passagem, em alguns casos para o abrigo, mas não podemos obrigá-los a ir. O Centro Pop (Centro de Referência Especializado em População de Rua) também está aberto de segunda à sexta, a partir das 8h, para que essas pessoas procurem atendimento", conclui Fernandes.

Outros locais

O JC também esteve em outros locais onde foi possível constatar semelhante realidade. Uma delas é a praça que fica entre a quadra 13 da avenida Nações Unidas e a rua Cel. José Figueiredo, em frente à Praça do Líbano. Lá, há um aglomerado de moradores. Eles não quiseram conversar com a reportagem.

Já o outro ponto é em frente a uma construção particular, na Vila Aeroporto, onde há resquícios das barracas que foram improvisadas com papelões e sacos de lixo, além de roupas e outros objetos deixados.