04 de abril de 2026
Geral

'Se não mudar a Câmara, não adianta'

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 6 min

Fotos: Malavolta Jr.

Maria Thereza Pereira de Lyra Collor de Mello Halbreich. A Thereza Collor, empresária e historiadora, rompe o longo período de silêncio para pleitear uma vaga na Câmara Federal por São Paulo. Ela está em Bauru para acompanhar o início da caravana pelo Interior de João Doria, pré-candidato ao governo do Estado pelo PSDB, hoje.

De "musa do impeachment", ao apoiar e ver o marido Pedro denunciar o irmão dele Fernando Collor por corrupção e lavagem de dinheiro - o que culminou com a renúncia do "caçador de marajás" em setembro de 1992 -, Thereza se posiciona também junto ao PSDB de Bauru para dobrar com o empresário Caio Coube (pré-candidato a deputado estadual).

 
Thereza está em Bauru para acompanhar o início da caravana de João Doria pelo Interior; nessa sexta (13), ela concedeu entrevista no Café com Política, do JC

Pra ela, o País só começa a mudar sua relação com o ciclo de corrupção se houver renovação ampla no Congresso.

Leia a seguir os principais pontos da entrevista que ela concedeu, na tarde dessa sexta-feira (13), no Café com Política, do JC.         

Jornal da Cidade: A senhora teve experiência com turismo. É de Alagoas e publicou livro a respeito. Como vê o aproveitamento do turismo, em especial no Nordeste?

Thereza Collor: O turismo no Brasil nunca foi tratado de uma forma séria, como a chamada indústria sem chaminé. O governo de Alagoas elegeu há tempos o turismo como meta prioritária. E, por razões evidentes, porque Alagoas tem praias grandes para o tamanho proporcional do Estado, tem vários biomas, diversidade de lagoas. Mas essa prioridade não foi tratada como tal. O turismo gera muito emprego e é um setor onde a capacitação é necessária, mas não como é a qualificação de outras atividades. A qualificação é mais rápida e o retorno da atividade também. Mas, para levar o turismo de maneira séria, é preciso investir em infraestrutura, nossa carência. E um dos principais problemas é falta de saneamento no Nordeste. O turista não quer chegar em uma praia maravilhosa, natural, mas com a chamada língua preta de esgoto escorrendo para o mar. Os índices de contaminação têm de ser controlados. E o lixo é um problema seríssimo nas cidades. E isso é política de saúde pública que não sai.

JC: Como está essa situação ao longo da Costa, como em Alagoas?

Thereza: Maceió melhorou sua condição na área metropolitana. Mas o turismo também se desenvolveu muito em Alagoas ao longo da Costa. E, nesse trecho, fora da capital, o problema de saneamento é persistente. No Brasil, todo o turismo é muito pouco explorado. E, de outro lado, ainda é preciso cuidar da fiscalização contra o turismo predador, as chegadas em massa de pessoas que usam o local, deixam sujeira e vão embora. A conservação, educação das pessoas e o investimento em saneamento são prioritários no segmento. 

JC: Por que a senhora deixa a vida consolidada, em família, para tentar uma vaga no Congresso?

Thereza: Toda a sociedade tem reclamado da classe política, mas pouca gente faz alguma coisa para se mexer. Reclamam, mas não saem da zona de conforto. Pra mim, seria muito mais fácil eu ficar na minha vida com família, filhos criados, em São Paulo. Eu já fui convidada em todas as eleições anteriores. E sempre achei algo a fazer e adiei essa decisão. Eu vi essa situação drástica de corrupção, de jogo pelo poder, de perto. E não foi fácil como esposa do irmão (Pedro Collor) do então presidente da República (Fernando Collor). Mas, veja o que passamos agora. Com toda a Operação Lava Jato e a imensidão de atos de corrupção levantados e em apuração, o País ainda enfrenta movimentos para engavetar. Isso tudo é muito grave e o único caminho é renovar a bancada federal. Então, resolvi oferecer meu nome.

JC: O cidadão não entendeu ainda que a situação está longe de ser resolvida?

Thereza: Vejam que há movimentos o tempo todo para abafar, para diminuir as apurações. É um sistema que se espalhou pela máquina pública. Mas, veja que, mesmo com todas as denúncias, prisões e a reação popular, não foi levado à frente aquela proposta com as dez medidas contra a corrupção que o Ministério Público (MP) levou ao Congresso com apoio popular. As medidas não foram votadas. Estão na gaveta. A Câmara sentou em cima das medidas anticorrupção. Não interessa que essas medidas sejam aprovadas. A população precisa entender que, se não mudar o perfil da Câmara dos Deputados e senadores, não vai adiantar nada. Então, resolvi entrar com esse propósito, oferecer meu compromisso com essa agenda do brasileiro. O Congresso virou uma bancada de negócios e, sem mudar as leis que tratam de corrupção, não avança. 

JC: Guardada a proporção de tempo e de situação de história e suas diferenças, o brasileiro desiludido, com desemprego em massa e cabisbaixo pela corrupção também está presente agora. Por que a queda do Collor não foi suficiente para o País acertar o rumo?

Thereza: As pessoas se iludiram com o Lula por identificação, por ser um líder que veio de baixo, diferente do perfil do Collor. E o PT veio com um partido estruturado e um sistema de alianças. Collor montou o partido em torno dele e não tinha dependência, claro com suas histórias muito diferentes. Na questão essencial, nós não aprendemos porque o nível de educação é muito baixo e a pobreza e falta de politização continua atingindo milhões. E isso continua igual. Se não mudar pela educação, não resolve. Da diferença entre as duas quedas, a do projeto do Lula é mais dura para a população mais simples, porque havia identificação com seu líder e ele decepcionou. Lula iludiu com uma situação de melhoria no consumo, mas não deu condições de educação e de subsistência para esses brasileiros andarem sozinhos e alcançarem a outra classe social em condições de ficar nesse patamar. Agora, o brasileiro tem de resolver isso. Combater a corrupção mudando a Câmara Federal é prioridade não só minha, mas do País.   

JC: Mas não é tão simples porque as oligarquias continuam postas, os caciques controlam as legendas, os fundos partidários, a lista de candidatos? O eleitor pode cair na mesma armadilha?

Thereza: Ou o povo entende que não há lugar para o líder messiânico, ou não mudamos. O eleitor tem de optar por uma liderança com experiência, mas sensata, equilibrada. E não optar por uma coisa que surja do acaso. Acho também que o brasileiro, mesmo o mais simples, não vai cair no conto de comprar um projeto vendido como milagroso nesse momento. E tem de escolher, pesquisar na lista. Se é verdade que ainda existem oligarquias que mandam e controlam o jogo, os caciques estão mais expostos, há muitas denúncias contra vários dos grandes. E o eleitor tem o poder de escolher alguém na lista na hora de votar. Mas, se criar uma divisão extremista entre lideranças, caímos no risco perigoso de eleger um oportunista populista. Esse ódio não existia. E isso foi alimentado junto à população, esse acirramento.