04 de abril de 2026
Geral

Entrevista da semana: Duda Machado

Thiago Navarro
| Tempo de leitura: 7 min

Malavolta Jr.
O jogador em treino de arremessos de três pontos na Panela

O ala/armador Duda Machado, do Sendi/Bauru Basket, foi o personagem mais comentado do esporte nacional nesta última semana. Autor de uma cesta dificílima na vitória sobre o Vasco da Gama, no Rio de Janeiro, ele foi decisivo para a classificação da equipe para as quartas de final do Novo Basquete Brasil (NBB) 2017/18, quando enfrentará o Franca, com o primeiro jogo amanhã, às 19h, no Ginásio Panela de Pressão (leia mais no caderno de Esportes do JC).

Bauru perdia por dois pontos na prorrogação e, restando seis segundos para o final da partida, Duda errou propositalmente um lance livre, acertando o aro e pegando o rebote na lateral da quadra, na chamada 'zona morta', de onde acertou uma bola de três que colocou os bauruenses na frente no placar, praticamente definindo a vitória e a classificação.

Aos 35 anos de idade, Duda é carioca da Gávea, e vem de uma família que tem o basquete "no sangue". O pai Renê e o tio Sérgio foram jogadores - o último, inclusive, participou das Olimpíadas de Tóquio em 1964, com medalha de bronze. Seus dois irmãos também sempre estiveram no esporte. O mais velho, Ricardo, foi jogador e, depois, fisioterapeuta no Flamengo. E Marcelinho é ídolo do Flamengo, onde pretende encerrar a carreira ao final desta temporada.

Em entrevista ao JC, Duda Machado falou mais sobre o lance que repercutiu até internacionalmente nesta semana, sua carreira no basquete e um pouco da vida em Bauru e a identificação com a torcida da cidade, onde está desde o final de outubro. O jogador foi contratado para a disputa do NBB, que está em andamento, e para a Liga das Américas, competição em que Bauru foi eliminado na segunda fase . A seguir, os principais trechos da entrevista.

Arquivo pessoal
Duda com os pais Renê e Cristina e os irmãos Ricardo e Marcelo

JC - Vamos começar falando do lance em que você conseguiu uma bola de três após o rebote. Você treinou isso alguma vez?

Duda - Eu nunca treinei esse lance. Tentei algo parecido há dois anos, quando eu jogava no Basquete Cearense, em um playoff contra o Mogi, e não deu certo. Me inspirei no que o Paulinho Boracini (do Basquete Cearense) fez contra a gente na fase de classificação. Isso me motivou porque deu a coragem que precisava para arriscar um lance tão difícil. É algo que nunca passou pela minha cabeça treinar, porque é um lance difícil de você ter a oportunidade de tentar, e difícil de executar. Na hora, o Demétrius (Ferracciú, técnico do Bauru) não falou nada para mim, e decidi tentar. Fiquei feliz que deu certo. Foi o lance que eu fiz, individualmente, que mais repercutiu até hoje.

JC - E foi interessante que o jogo era na sua cidade, o Rio de Janeiro, e seu pai até mesmo se emocionou ao final da disputa...

Duda - Com certeza. Meus pais estavam lá no ginásio, uma arena olímpica, eu assisti partidas das Olimpíadas lá, é minha cidade natal. Isso tudo torna o lance mais especial. Meu pai sempre se emocionou com facilidade e ficou muito feliz com o que aconteceu. Meus pais sempre acompanharam minha carreira, eles já estiveram em Bauru na primeira fase da Liga das Américas. Sempre me incentivam.

JC - Bauru não fez uma campanha como a torcida esperava na primeira fase, mas conseguiu se superar nesse playoff de oitavas de final. Até que ponto isso pode ajudar a equipe?

Duda - São resultados que fortalecem o elenco. Sem menosprezar qualquer equipe, eu acho que Bauru e Vasco da Gama eram os times mais fortes das oitavas de final. O Vasco ficou em 11.º lugar na primeira fase, mas é forte, tem jogadores que podem decidir, e acabamos enfrentando eles. A série foi muito disputada, todos os jogos decididos no final. Fazendo 3 a 1, acredito que a gente sai fortalecido para enfrentar Franca, mais do que se a gente tivesse vencido algum outro adversário por 3 a 0 nesta fase.

Arquivo pessoal
Irmãos Duda e Marcelinho após título do Flamengo em 2009

JC - Será seu primeiro playoff contra Franca, jogando por Bauru. As duas equipes tem bastante rivalidade. Como o time chega para estes jogos?

Duda - Antes de vir para cá, já sabia da rivalidade. Franca eliminou Bauru no Paulista. Eu ainda não estava no elenco, mas fica aquela ferida pela eliminação. Mas a equipe deles está diferente, a nossa também. Vamos nos entregar ao máximo dentro de quadra para buscar a classificação. Franca tem a vantagem do mando de quadra, temos que superar isso. Então, contamos com a torcida já no primeiro jogo em casa.

JC - Você está há cerca de seis meses em Bauru, como foi a adaptação?

Duda - Foi muito boa, fui bem recebido no elenco e a cidade é boa para morar. Já morei outras vezes em cidades do Interior; sou um cara tranquilo e caseiro, então, eu gosto. Espero continuar aqui por mais tempo. Ainda não é momento de falar sobre isso porque a temporada não acabou e temos nossos objetivos no NBB, mas claro que minha vontade é ficar.

JC - O início da sua carreira, como foi?

Duda - Meu pai e meu tio foram jogadores, meu tio foi medalha de bronze nas Olimpíadas de Tóquio em 1964. Então, entrar no basquete foi por livre e espontânea pressão (risos). O basquete me proporcionou muitas coisas boas, tudo o que eu tenho, os lugares que conheci. Desde que me entendo como pessoa, já estava na quadra de basquete. Não cheguei a ver meu pai e meu tio jogando, mas meus irmãos foram uma referência. O Ricardo é nove anos mais velho do que eu e o Marcelo, sete anos. Então, eu vi que era isso o que eu queria para minha vida.

JC - Seu primeiro clube foi o Fluminense, certo? E depois?

Duda - Isso, fiquei dos 9 aos 20 anos lá. Quando acabou o time do Fluminense, fui para o Londrina e, depois, para o Flamengo, em 2003. Foi a realização de um sonho, porque sempre torci para o Flamengo, e fomos vice-campeões do Brasileiro em 2004. Voltei em 2007, junto com meus irmãos, o Marcelo jogando e o Rogério como fisioterapeuta. Fiquei lá até 2013 e, depois, fui para Macaé, Rio Claro e fiquei dois anos no Basquete Cearense, e nesta temporada, atuei por três semanas no Guaros de Lara da Venezuela, fui contratado para jogar a primeira fase da Liga Sul-Americana.

Arquivo pessoal
Ele com o filho Pedro, de seis anos

JC - E os títulos, teve algum mais importante para você?

Duda - Acho que o meu primeiro título brasileiro, em 2007, pelo Brasília, foi marcante porque foi o primeiro, é algo que poucos conseguem. Na época o Alex Garcia (hoje seu companheiro de equipe em Bauru) jogava lá. Depois, fui campeão com o Flamengo, ainda no antigo Brasileiro, e duas vezes do NBB, em 2009 e 2013. Foram títulos também muito especiais, jogando com meu irmão.

JC - Saindo um pouco do esporte, como você está vendo esse momento do Rio de Janeiro, sua cidade natal, que passa por uma crise na segurança?

Duda - Eu estou sempre falando com meus familiares. A segurança hoje é a principal preocupação. Eu mesmo, quando estou de férias, gosto de pegar a bicicleta, ir para a praia, andar de skate, e, hoje em dia, já pensa duas vezes para fazer isso, porque sempre tem alguma notícia de tiroteio. É uma pena, porque o Rio de Janeiro é uma cidade bonita e que vive do turismo.

JC - Fora das quadras, como é sua vida?

Duda - Eu tenho um filho de seis anos, que mora na Austrália. Falo com ele sempre que possível, o fuso horário acaba atrapalhando, mas a tecnologia ajuda. Eu também gosto bastante de jogar videogame, ver filmes e séries, andar de bicicleta. Gosto muito de surfe, mas, aqui em Bauru, é impossível praticar (risos), e andar de skate. Eu até trouxe o skate para cá, mas não consegui andar nenhuma vez. Agora, vai ficar para depois dos playoffs.

JC - Para finalizar, você acredita que consegue jogar mais quanto tempo em alto nível? Faz alguma projeção?

Duda - Se eu conseguir jogar até os 42 anos, igual ao meu irmão, fico feliz. Mas, quando a gente chega nessa idade, procura pensar uma temporada por vez. Eu estava sem time no começo da temporada, e via todos os clubes jogando os campeonatos, e eu treinando sozinho, é algo difícil. Eu estou fazendo valer a pena cada dia aqui em Bauru. Gosto de jogar chamando a torcida, é importante para o time e o projeto, ainda mais agora nos playoffs. A torcida nos ajudou muito nas oitavas de final e certamente vai ajudar muito nas quartas de final, tanto que o ginásio chama Panela de Pressão. Já sofri muito enfrentando Bauru, agora é bom porque tenho a torcida ao nosso lado.