04 de abril de 2026
Geral

Os dedos na mira das inflamações

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 6 min

Samantha Ciuffa
O médico Cleverson Monteiro explica que os excessos nos smartphones impulsionam o problema

As novas tecnologias transformaram as mãos na parte mais "explorada" do corpo hoje em dia. Além disso, tablets, smartphones e computadores passaram a exigir o uso excessivo dos dedos. Isso, associado a fatores genéticos e hábitos de vida, potencializou a ocorrência de lesões traumáticas, não decorrentes de acidentes. Em especial, os dedos indicador e polegar estão entre os que mais sofrem. Nos consultórios, lesões ligadas a essas questões se tornaram não somente mais comuns, mas com antecipação de etapa.

Quem adverte para o quadro de inflamações precoces nos dedos, problema que se alastra para as mãos e irradia para braço e antebraço, é o médico ortopedista, especializado no segmento e em cirurgia das mãos, Cleverson Monteiro. Segundo o profissional, o agravante do quadro para problemas de saúde ocupacional ou por comportamento inadequado diante das ferramentes das novas tecnologias é que eles estão atingindo jovens. "É cada vez mais comum, na experiência de atendimento clínico, a procura por jovens com inflamações em tendões das mãos e os dedos aparecem com muita frequência", afirma. 

Graduado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Marília (Famema), com especialização em Ortopedia e Traumatologia pela Santa Casa de Misericórdia de Marília e Cirurgia pela Unesp em Botucatu, ele pondera sobre origem e consequência das lesões de mão. "Vamos nos concentrar nas lesões atraumáticas, onde o paciente não sofreu acidente, por exemplo. As lesões decorrentes de processo inflamatório em diferentes partes da mão estão ligados não só ao que o paciente faz. Vícios de comportamento diante das ferramentas da nova tecnologia, ocupação profissional, herança genética e o estilo de vida que este paciente adota formam o quadro para essas ocorrências terem se tornado muito comuns no consultório", define.

ESTILO DE VIDA

Assim, a maioria dos casos tem origem multifatorial. "Porque têm pacientes com estilo de vida sem alongamento nas mãos, nas articulações, dedos e que não fazem atividade física. Essas condições aumentam a possibilidade de desenvolver inflamações. O dedo em gatilho (tenossinovite estenosante - o dedo trava na posição de como se estivesse puxando o gatilho de uma arma) é muito comum. Mas esse tipo de propensão está ligado à função que ele exerce, no lazer ou trabalho, mas também tem relação com herança genética e estilo de vida. Não há só uma causa", acrescenta Cleverson Monteiro.

A hereditariedade gera conformidades anatômicas diferentes entre as pessoas. "Têm patologias que afetam pessoas e não afetam outras, em razão da questão genética. Têm pessoas que são portadoras de frouxidão ligamentar, têm pessoas com herança de artrite reumatoide. Então, a anamnese (entrevista completa) do médico com o paciente vai formar esse quadro para o diagnóstico adequado. Já a postura do paciente diante dos aparelhos, as novas tecnologias, potencializa quadros de inflamação. E os excessos formam, ao longo do tempo, outra frente de problemas", posiciona.

NO TECLADO

A associação de fatores tem levado, por outro lado, à concentração de inflamações nos dedos polegar e indicador. "São os dedos normalmente utilizados para utilizar o teclado do telefone celular, que fica o dia todo à disposição das pessoas. Há evidentemente a incidência do uso excessivo de diferentes aparelhos e ao longo de várias momentos, todos os dias. E isso tem concorrido para a antecipação de casos de inflamação. Esses problemas, até poucos anos, apareciam em pessoas acima dos 50 anos. Agora, aparecem, e com frequência, inflamações acometendo jovens, o que é preocupante", cita.  

O médico acrescenta que existem as doenças ocupacionais - relacionadas ao trabalho -, em razão da intensidade da carga horária. "Por isso, temos, por lei, os intervalos obrigatórios e a fisioterapia laboral para administrar essas questões. A dificuldade é esses pacientes se conscientizarem a não realizar a fisioterapia só na hora marcada, mas repetir esses exercícios orientados depois, em casa. Se o profissional levar a sério as orientações, diminui muito a chance de ter problema relacionado à ocupação do trabalho. Dedo em gatilho, tendões, processos inflamatórios articulares são os que mais aparecem", enumera Cleverson.

O ortopedista faz analogia ao preparo a que se submetem atletas para comentar sobre o assunto. "O atleta treina e prepara seu corpo com repetições específicas, prepara o corpo para realizar os movimentos de sua atividade. Há exercícios de força, flexibilidade, resistência. Quem utiliza as mãos, os dedos, por longos períodos e de forma permanente, todos os dias, também precisa se preparar para isso. A conscientização é pelo condicionamento. Hoje, fazemos tudo pelo celular, digita-se em tudo. Tem de prestar atenção com o tempo dessas atividades. O excesso está ligado a lesões", conclui o especialista. 

NO POLEGAR E NA MÃO

Nélson Gonçalves
Excessos: Maria Beatriz acabou lesionando a mão

A saúde das mãos depende de repouso, alimentação, atividade física e alongamento. Maria Beatriz, 32 anos, não observou bem isso. Ela faz pouca atividade física, as mãos ficam ligadas ao teclado do computador no trabalho, por oito horas diárias, e, além disso, a comunicação interpessoal utiliza de forma exagerada o celular.

Sem realizar alongamentos, sem intervalos durante a jornada de trabalho e sem o controle do "vício" nas redes sociais pelo celular, Beatriz é mais uma vítima das inflamações. E precisou usar tipoia, com prescrição de fisioterapia e anti-inflamatório. "Comecei a sentir dores há aproximadamente 15 dias, durante uma aula de yoga. Comecei sentindo dor na palma da mão. Senti dificuldade para realizar os exercícios que exigiam força em mão e em braços. Passaram alguns dias e comecei a sentir dor no pulso e dedão. A dor começou a irradiar para o pulso e, no fim do dia, o antebraço também doía. Passei a ter formigamento na palma da mão, próximo ao pulso", conta.

Ela diz que a dor é suportável em alguns momentos. "Durante a semana, especialmente no fim do dia, a dor é muito mais forte e a medicação passou a ser necessária. Já havia sentido algo aparecido antes, mas, como a dor passou sozinha, não procurei médico. Agora, parece ter piorado a lesão. Meu problema é que, durante a semana, não consigo evitar o computador, pelo menos oito horas por dia, no trabalho", descreve. 

Em relação ao uso do celular, ela reconhece que "utiliza muito tempo". "E o grande problema é que acabava digitando com uma mão só e com o dedão. Segurava e digitava ao mesmo tempo. Estou tentando abandonar esse hábito porque sinto que a dor piora muito quando faço isso. Basicamente, eu digito só com dedão da mão direita (polegar), por ser mais rápido", acrescenta. 

Da consulta com o ortopedista, Maria Beatriz recebeu a orientação para fazer dois exames, uma ressonância e um eletroneuromiografia (este último em virtude do formigamento da palma da mão). "Estou tomando dois remédios, um anti-inflamatório e um relaxante muscular, por 10 dias, e usando uma especie de tipoia por 15 dias. Só tiro para tomar banho. Também me afastei das atividades físicas (muay thay e yoga) porque exigiam muito movimento de mãos e punho", finaliza.