| Quando se inicia uma pesquisa não se imagina que uma patente pode ser obtida |
O menino colecionava figurinhas e tinha um sonho: ter uma bicicleta! Se a pessoa preenchesse a página da seleção da Itália, ganhava uma bicicleta maravilhosa. A página da Seleção Brasileira, quem preenchesse, ganharia um carro. Nas demais seleções, os prêmios eram geladeiras, computadores, telefones e outros menores.
Figurinhas carimbadas e as assinadas pelo jogador eram as mais difíceis. Quase todas as páginas davam direito a prêmio e nem todas eram preenchidas na maioria dos álbuns! Depois da copa, havia promoções de figurinhas sem os prêmios, para preencher o álbum para recordação.
Era impossível ter o álbum todo preenchido; uma página cheia já era motivo de alegria e entrevista na rádio. As vendas das figurinhas da copa do mundo na Rússia não têm prêmios, nem carimbadas e assinadas. Com dinheiro, se preenche rapidamente o álbum. É sem graça quando se chega rapidamente ao objetivo. Tios, avós e pais presenteiam álbuns já preenchidos! Qual é a lição? Que o dinheiro compra tudo? Isto me fez lembrar Cora Coralina em suas reflexões: "O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada. Caminhando e semeando, no fim terás o que colher."
Ir até a banca de jornal trocar figurinhas com outras crianças, adolescentes e adultos ou ganhar as figuras mais difíceis no jogo do bafo faz parte do aprendizado de convivência. Se não preencher o álbum não é frustrante a ponto de sofrer, pois viver é ganhar e perder, nem sempre só ganhar! Bernard Shaw disse: "O homem que nunca fez um erro, nunca fará nenhuma outra coisa." As pessoas com medo de se frustrar, deixam de viver e não fazem nada de original ou relevante. Por medo de chorar, não deixemos de rir. Um sonho é inatingível quando há inércia em quem sonha!
Esta semana tive a sensação que preenchi o álbum de figurinhas e ganhei uma bicicleta. Recebemos a carta-patente definitiva do produto da pesquisa que orientei do doutorado de Mirian Marubayashi Hidalgo (Universidade Estadual de Maringá) com participação de Eiko Nakagawa Itano (Universidade Estadual de Londrina). O projeto foi financiado pela Fapesp.
COMO ASSIM?
Na pesquisa detectou-se anticorpos contra a dentina em pacientes com reabsorção das raízes dentárias no plasma humano. As reabsorções dentárias afetam 5% a 10% da população, são silenciosas, indolores e só aparecem em radiografias e tomografias que são tiradas por uma outra razão qualquer.
Em muitos casos de reabsorções, o dente deve ser extraído pelo estágio avançado do processo. A principal causa é o traumatismo, principalmente aquelas batidinhas nos dentes que nem se considera como importantes e depois nem se lembra mais e nem se conta ao profissional! A perda dentária ocorre quando a reabsorção radicular é descoberta muito tarde.
Os aparelhos ortodônticos podem induzir reabsorções e quando aparecem arredondaram o ápice ou encurtaram as raízes, mas em uma magnitude que não prejudica em nada os dentes. Eventualmente acabam sendo mais severas, mas não se chega a perder os dentes por causa de reabsorções induzidas em tratamentos ortodônticos.
Os anticorpos contra a dentina na reabsorção atuam no local, mas aparecem no sangue, saliva e lágrima em quantidade detectáveis bioquimicamente em uma gota destas secreções. Os anticorpos também são chamados de imunoglobulinas. Este exame pode detectar as reabsorções muito antes de aparecer nas radiografias e tomografias, permitindo controlar suas causas antes de uma destruição significante das raízes.
A pergunta foi: será que anticorpos contra a dentina poderiam ser diagnosticados no sangue, saliva e lágrima desde o momento inicial de uma reabsorção radicular? Será que poderíamos criar um kit diagnóstico para se fazer isto nos consultórios? Estudamos muito para formular esta pergunta. Trabalhou-se muito para obter financiamento. E muito mais para comprar equipamentos, reagentes e se fazer a pesquisa!
Pessoas perguntavam: mas não publicaram ainda! Se publicássemos, perderíamos a patente! Até o registro definitivo foram longos anos e aprendemos muito! Valeu a caminhada e agora é viabilizar comercialmente o produto!
Valeu a caminhada, Mirian e Eiko!
Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas os sábados no JC.