04 de abril de 2026
Geral

Quer viver mais? Beba menos

Clarissa Pains
| Tempo de leitura: 2 min

Para quem bebe entre 100g e 200g, a expectativa é de morrer seis meses antes do que deveria, entre as pessoas que bebem mais de 350g por semana, há uma redução de até cinco anos

Cinco taças de vinho ou sete latas de cerveja pilsen tradicional por semana. Deveria ser essa a quantidade máxima de ingestão de bebida alcoólica para evitar risco de doenças cardiovasculares, conclui um estudo liderado por pesquisadores britânicos e publicado ontem na revista científica "The Lancet".

Ao analisar dados de quase 600 mil pessoas de 19 países, os autores observaram que aquelas que bebem mais do que 100g de álcool semanalmente - o que equivale a sete latas de cerveja - têm uma expectativa de vida significativamente mais baixa. Para quem bebe entre 100g e 200g, a expectativa é de morrer seis meses antes do que deveria, e esse índice se agrava à medida em que o consumo de álcool aumenta. Entre as pessoas que bebem mais de 350g por semana, há uma redução de até cinco anos na expectativa de vida.

A partir desses dados, uma das principais interpretações trazidas pelo estudo é que os limites de álcool recomendados mundo afora deveriam ser reduzidos. As diretrizes em países como Itália, Portugal e Espanha, por exemplo, são quase 50% mais altas do que os 100g usados como referencial na pesquisa. Nos EUA, o limite recomendado para homens é quase o dobro: 196g por semana, ou dez taças de vinho. Já para mulheres, devido a diferenças metabólicas, a recomendação é de até 98g por semana.

Brasil não tem recomendação sobre dose

No Brasil, não existe uma recomendação oficial do quanto de álcool seria aceitável ingerir para não aumentar a possibilidade de doenças. Especialista na área, a professora Zila Sanchez, do Departamento de Mecina Preventiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que este tipo de diretriz existe basicamente em países ricos.

"Do ponto de vista de ciência do álcool no Brasil, ter uma diretriz oficial de quantas gramas são recomendadas semanalmente faria uma diferença brutal para as pesquisas, porque padronizaria os estudos. Hoje, temos grande dificuldade de comparar estudos feitos dentro do país, porque cada um se baseia em uma medida internacional diferente. Do ponto de vista de saúde pública, ter uma diretriz também faz todo o sentido, porque o médico pode conversar melhor com o paciente sobre o assunto", afirma.

Cientificamente, a quantidade de álcool é sempre medida em gramas, e é possível ingerir uma quantidade grande de álcool em apenas poucas doses de bebida, porque depende do teor alcoólico de cada uma. Por exemplo, uma cerveja tem, em média, 5% de álcool; o vinho, em torno de 13%; e o whisky, 40%.

Zila Sanchez alerta para a diferença entre beber uma lata por dia e beber todas as sete de uma só vez. Segundo ela, o consumo dessa quantidade de álcool em um intervalo de apenas duas horas em uma festa, por exemplo, é "o pior padrão de consumo", o chamado binge drinking (bebedeira).