10 de julho de 2026
Bairros

Das igrejas de Bauru para o mundo da música

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 9 min

Fotografia Tâmara
Cantora gospel, Natália Martins apostou em book fotográfico profissional para o lançamento de sua primeira gravação no seu canal Vevo

Além de um ato de fé, frequentar a igreja pode ser o primeiro passo para o encontro com o dom musical. No meio artístico, vários famosos começaram a carreira na religião. Foi assim com Whitney Houston, Stevie Wonder, Katy Perry, Britney Spears e até com Anitta e Di Ferrero do NXZero. Em Bauru, igrejas e congregações das mais diversas denominações existentes pelos bairros formam músicos cantores, instrumentistas e percussionistas. Alguns deles mergulham, literalmente, de cabeça neste universo e alçam voos investindo, inclusive, em carreira solo.

Chico Molina
Natália Martins durante a gravação das faixas para sua primeira live no canal Vevo, em janeiro deste ano, no Espaço Covadonga

O JC Nos Bairros deste domingo traz a história de alguns músicos que começaram suas carreiras nas igrejas da cidade. E traz também a trajetória de outros que continuam animando cultos, missas e adorações, voluntariamente e que não fazem disso seu ganha pão.

CARREIRA

Formada na Igreja Pentecostal Vida Em Cristo, no Jardim Mendonça, Natália Martins é cantora evangélica profissional. Recentemente, ela estreou seu primeiro vídeo em "live session" com músicas gospel no canal Vevo e pretende ampliar o reportório com lançamento de CD próprio até o final deste ano.

Outro nome forte do cenário musical evangélico em Bauru é o cantor Bruno Guimarães, formado na Assembleia de Deus Missionária, no Centro. Atualmente, ele é líder do Ministério de Louvor Adorar-te, que atende convites de várias outras igrejas, independentemente das denominações. Nas próximas semanas, ele pretende lançar um canal próprio no Youtube com canções gospel.

Camila Ramiro/Reprodução
O cantor Bruno Guimarães pretende lançar um canal próprio no Youtube com canções gospel, nas próximas semanas

Lucas Soares, da Assembleia de Deus Ministério Madureira, na Vila Antártica, também é músico formado na igreja, seu pontapé na música. Depois de despontar e passar quase sete anos no Conservatório de Tatuí, ele virou professor de técnicas vocais. E, hoje, atua como assessor de ministérios de outras igrejas, além da Madureira. Ele também pretende lançar um canal no Youtube e Vevo até a primeira quinzena de maio.

Facebook/Reprodução
A cantora e instrumentista Alexandra Dias

Sonho

Ainda no cenário gospel, mas na Igreja Católica, a cantora e instrumentista Alexandra Dias, da Igreja Santo Antônio, no Jardim Bela Vista, sonha em emplacar um canal de Música Popular Brasileira (MPB), mas por enquanto, continua cantando aos finais de semana na igreja e coordenando um grupo de coral de crianças no local.

Há ainda quem use a formação musical apenas como uma ação voluntária dentro dos templos religiosos ou para obter renda extra com trabalhos por fora. 

DOS ENSAIOS NAS IGREJAS AO TRABALHO

Templos também reúnem pessoas que utilizam o aprendizado musical para angariar renda extra

Fábio Crês
Lilian Sartori, Ricardo Bizarra, Bruno Guimarães e Juliana Bizarra: grupo formado musicalmente em igrejas hoje toca em casamentos

André Timex Fotografia
Ricardo Bizarra durante cerimônia de casamento em igreja

Reduto de aprendizados da música em grupo, a igreja também reúne pessoas que utilizam o conhecimento adquirido como forma de angariar uma renda extra.

É o caso do músico Ricardo Bizarra, 38 anos, atualmente jornalista na 96 FM. Ainda na infância, ele se reunia com o coral de crianças da igreja Santo Antônio, no Jardim Bela Vista, para aprender violão. Foi lá que Bizarra aprendeu os primeiros acordes e realizou suas primeiras apresentações. Aos 25 anos, ele mudou-se do bairro e passou a frequentar o Santuário Sagrado Coração, conhecido como Paróquia Universitária, onde também colaborou musicalmente.

Lá, ele conheceu sua esposa a musicista Juliana Bizarra, com quem teve a ideia de montar um grupo musical para tocar em casamentos e complementar a renda da casa. Em 2006, surgia a Encanto Casamentos. "Meu berço musical foi a igreja. Hoje, além de tocar profissionalmente com a Encanto, dou consultoria de som para algumas igrejas, inclusive para a Santo Antônio", comenta Bizarra.

ALÉM DO MINISTÉRIO

O grupo conta ainda com o cantor Bruno Guimarães, 25 anos, que tem história parecida. Ele é músico formado pela Assembleia de Deus Missionária, no Centro de Bauru, igreja fundada por seu avô, o pastor Ivanildo Alves.

Incentivado pela família, ele mergulhou no mundo da música ainda na infância e chegou a receber convites para viajar para igrejas de outras cidades e estados.

Hoje, Bruno continua tocando junto ao Ministério de Louvor Adorar-te, do qual é líder, e canta profissionalmente com a Encanto Casamentos, mas divide a rotina com a profissão de bancário.

"Com o Ministério, canto para igrejas de quaisquer denominações sem cobrar nada, mas o domingo é sagrado, sempre tocamos na Assembleia de Deus Missionária", detalha.

E é nos eventos particulares, em carreira solo, que ele angaria renda extra com a música. 

"Além disso, estou com um trabalho no forno. Em breve, lançarei meu canal com canções gospel em voz e piano, em parceira com o músico Cléber Gaudêncio", acrescenta.

Arquivo pessoal
Lucas Soares durante ministério na Assembleia de Deus Ministério Madureira

MAIS QUE PROFISSÃO

A história do professor de técnica vocal Lucas Soares, de 24 anos, também não se diferencia muito das demais citadas. Aos 9 anos, ele iniciou sua formação musical como cantor na Assembleia de Deus Ministério Madureira, Vila Antártica. De lá, alçou voos e transformou o dom em profissão. Participou da Orquestra Municipal de Bauru e, dos 15 aos 22 anos, atuou no Conservatório de Tatuí, um dos melhores do País.

"Minha carreira começou na igreja e me aprimorei no Conservatório. Sou muito grato a tudo. Além das aulas, hoje presto assessoria para igrejas do Estoril, Quadrangular, Bola de Neve, Centro da Promessa Madureira, Assembleia de Deus do Ipiranga e a Batista Betel", comenta Soares, que hoje é frequentador da 1.ª Igreja Batista de Marília.

Ele possui cerca de 15 músicas próprias e disse que pretende investir na carreira e lançar uma live com as canções gospel até a primeira quinzena de maio em canais no Youtube, Vevo e em sua página do Facebook.

Arquivo pessoal

Arquivo pessoal
Natália Nascimento Martins, além de cantora gospel, também é evangelista

Com dinheiro de CD, cantora gospel sonha construir igreja no Ferradura Mirim

Natália Nascimento Martins, 33 anos, começou sua formação musical na Igreja Pentecostal Vida Em Cristo, no Jardim Mendonça, aos 12 anos de idade. Aos 25, os convites para cantar em outros templos evangélicos foram surgindo.

"Naquela época eu passei a entender o chamado de Deus. Eu tinha uma cabeça fechada, acreditava que para adorar a Deus eu não precisaria gravar nada, mas isso foi mudando", conta.

Além do lançamento de seu canal no Vevo, Natalia, que também é evangelista, pretende lançar um CD neste ano. "Com o dinheiro, quero construir uma igreja no Ferradura Mirim", projeta.

Investir na carreira própria, no entanto, não é algo fácil. Ela conta que começou aulas de canto para aprimorar suas técnicas aprendidas na igreja e que o marido, proprietário de uma loja de móveis usados no Mary Dota, virou seu maior incentivador e patrocinador.

"É uma área muito competitiva, mas consegui parcerias e a gravação foi um sucesso". cita.

Evolução que não diminuiu o respeito delas pelas minhas raízes. "Continuo cantando no culto da minha igreja", comenta Natália.

NO TOM DO VOLUNTARIADO

Sem carreira ou profissão na música, voluntários se unem para animar missas

Arquivo pessoal
Lucas Carrion em ação na missa da Santa Rita; da esquerda para a direita, Guilherme Sbeghen, Lucas Carrion, Vitor Baroni, Nicole Mioni Serni, Gustavo Giraldi e Lucas Guanaes

Há ainda quem utilize o dom da música apenas como trabalho voluntário e dentro das igrejas. É o caso, por exemplo, do instrumentista da igreja católica Lucas Carrion, 20 anos, contrabaixista do Ministério Cantate e Domino da Paróquia Santa Rita de Cássia, na Vila Altinópolis.

Desde os 15 anos ele atua no grupo, um dos cinco que fazem a animação das seis missas realizadas na Santa Rita aos finais de Semana.

Facebook/Divulgação
Alexandra Dias, no canto direito com o violão, coordena o coral na Paróquia Santo Antônio; todos os domingos, às 9h, eles tocam no local

Arquivo pessoal
Grupo do Ministério Cantate e Domino da Paróquia Santa Rita; da esquerda para a direita: Lucas Guanaes, Gustavo Giraldi, Padre Agnaldo Pereira, Carol Ferracioli, Samira Silva, Guilherme Sbeghen e Lucas Carrion

"A maioria do pessoal toca apenas na igreja. Nunca pensei em carreira, faço mais por voluntariado e como um hobby", ressalta Carrion. Ele conta que dua formação musical não teve origem na igreja, foi depois de um curso para aprender a tocar o instrumento de corda que ele passou a integrar o grupo gospel.

"Foi meu primeiro contato com banda e era uma forma de agregar os jovens que participaram da crisma", lembra.

SÓ NA IGREJA

Cantora e instrumentista na igreja Santo Antônio há mais de duas décadas, Alexandra Pereira Dias dos Santos, 41 anos, também atua hoje como voluntária e apenas dentro dos limites da igreja. Nas últimas décadas, ela chegou a dar aulas de violão, mas desistiu do ofício musical para a cursar Terapia Ocupacional.

"A carreira na música é muito instável e pouco valorizada. Eu casei e tive duas filhas, não dava mais para viver só disso. Para ganhar, eu tinha que sair para cantar nas noites", comenta.

Alexandra chegou a escrever algumas composições e até participou de um concurso de letras musicais, mas nunca chegou a gravar nenhuma.

Hoje, a música permanece na vida dela apenas no trabalho voluntário dentro da igreja. Ela coordena um grupo de coral de crianças na Santo Antônio, onde também canta e toca aos finais de semana.

"Até penso em montar um canal de músicas MPB (Música Popular Brasileira) na internet, mas a falta de tempo é maior, por enquanto. Quem sabe um dia", imagina Alexandra. 

Iniciada na igreja há 60 anos, maestrina coordena projeto na Paróquia Universitária

Santuário Sagrado Coração de Jesus/Divulgação
Padre Leonildo Minutti e a maestrina Sonia Berriel, coordenadora do projeto Cultura do Coração, que leva música e arte para o Santuário Sagrado Coração de Jesus, no Jardim Panora

Foi como tecladista na igreja Santa Rita de Cássia e aos 15 anos que a maestrina bauruense Sonia Berriel deu o pontapé em sua vida musical.

Hoje, aos 75, e como forma de retribuir, ela coordena o projeto "Cultura do Coração", junto ao padre Leonildo Minutti Júnior e ao diácono Rafael Mazzoni, no Santuário do Sagrado Coração, mais conhecido como Paróquia Universitária, localizada no Jardim Panorama. "E continuarei trabalhando pela igreja até quando Deus me permitir", fecha questão.

No Cultura do Coração, a cada dois meses, a paróquia se torna palco gratuito de apresentações musicais e de arte.

"A ideia é democratizar, trazer para perto do público as melhores corporações artísticas que temos. Já se apresentaram lá a Orquestra Sinfônica, a Banda Sinfônica e o Grupo de Referência (GR) do Projeto Guri", observa a maestrina.

'Papel da igreja é incentivar'

"Quando uma oportunidade é dada pela igreja ao indivíduo, ele passa a ter uma identidade própria e pode acabar deixando a igreja. Mas é nosso papel compreender essa mecânica e incentivar, afinal pregamos o amor." A observação é do pastor Ubiratan Cássio Sanches, que figura entre as lideranças da igreja evangélica em Bauru.

Historicamente, as igrejas evangélicas possuem mais tradição na formação musical que algumas outras denominações religiosas.

Quioshi Goto/JC Imagens
Pastor Ubiratan Sanches

Parte das igrejas católicas também oferecem formação com cursos de estudos, mas muitas vezes o conhecimento acaba compartilhado entre os fiéis e músicos já formados. "É uma necessidade da igreja ter qualidade musical. Alguns são formados, outros não, mas aprendem entre eles. Já houve épocas em que investíamos em cursos", comenta o padre Agnaldo Pereira, pároco da igreja Santa Rita de Cássia.

Além disso, o padre Agnaldo diz "ver com bons olhos" os fieis que aprendem música na igreja e seguem carreira. "O importante mesmo é que essas pessoas terão suas raízes firmadas na religião", opina o padre.

Samantha Ciuffa
Padre Agnaldo Pereira, da Paróquia Santa Rita de Cássia