04 de abril de 2026
Geral

O recado social das pipas

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 5 min

Samantha Ciuffa
Thiago Vinícius dos Santos solta pipa no Parque Jaraguá

Entre as inúmeras ruas que cortam o Parque Santa Edwirges, entre uma baixada e uma curva acentuada, um terreno baldio próximo de um barranco virou ponto de encontro de jovens interessados em soltar pipas. Em muitos bairros distantes do Centro da Cidade, a prática tornou-se a principal opção de lazer de jovens. Levantamento realizado pela CPFL aponta, entretanto, que 21,4% das ocorrências de interrupção de energia elétrica pública se dão pelo uso de pipas que enroscam na rede (veja infográfico). O número de chamadas de reclamações pelos usuários cresceu, porém, na inversa proporção da oferta de opções de lazer e esporte aos jovens nos bairros mais distantes de Bauru.

Essa carência de alternativas de entretenimento aos jovens, destacada no Legislativo de Bauru pelo vereador Natalino Davi da Silva (PV) e nas posições do antropólogo Cláudio Bertolli, é sentida no dia a dia, inclusive no Santa Edwirges.

E se não há linhas e pipas, os jovens, em geral, estão atentos ao aparelho celular. Perto do terreno baldio do Edwirges, na alameda Turmalina, quatro amigos não desgrudam do telefone celular. Sentados na calçada, em uma tarde de quinta-feira, Marlon (19), Sandro (32), Cauã (13) e Juninho (17) comentam que "o celular é para matar o tempo. Usamos direto". Além dos aplicativos e o dedo disparado sobre o teclado, outra atividade comum ao grupo é soltar pipas. Segundo eles, a temporada preferida é nas férias escolares. "Em julho aumenta a turma. Em agosto também, porque tem a festa da cidade no Vitória Régia e todo mundo vai pra lá. Mas tudo começa aqui no bairro. Aqui todos têm pipa em casa", conta Marlon.

Três do grupo trabalham em um salão de barbearia e cabeleireiro no bairro. "A gente tem pouco espaço para fazer alguma coisa. Até soltar pipa é complicado. Mas a gente solta por aqui mesmo. Onde tem terreno a gente solta", comenta Sandro. A preocupação com linha de energia elétrica é admitida pelos jovens. Mas eles acrescentam, porém, que isso não é motivo para deixar de soltar pipa.

No Parque Jaraguá, relativamente perto dali, os dois filhos gêmeos de Raquel de Carvalho batem papo à calçada. Eles observam Thiago Vinícius dos Santos, 20 anos, preparando a pipa para soltar. Na quadra 2 da rua Hélio Banda, a senhora reclama da falta de placa 'Pare', na esquina. "O perigoso aqui não é soltar pipa, porque eles tomam cuidado. O perigoso é a esquina, que tem acidente o tempo todo e não colocam placa de 'Pare'. Já pedi várias vezes na Emdurb", reclama.

De fato, Thiago Santos explica que um "terrenão, descampado", próximo de sua casa, é o local preferido da moçada. Sobre a "ausência de perigo", ele garante que a molecada usa muito mais o espaço após a rodovia. Do outro lado do bairro, é pasto e vegetação, área ainda não urbanizada. Se o vento favorecer, as pipas ocupam essa região. O risco é quando o vento está do lado contrário, em direção ao bairro.

LEITURA SOCIAL

O antropólogo Cláudio Bertoli, muito conhecido como professor de pós-graduação da Unesp-Bauru, aponta para a avaliação clássica do culpado na direção do usuário. "A questão parece ser recorrente em boa parte dos serviços coletivos: a culpa sempre é do usuário, especialmente daqueles que são mais pobres. Afirmar que os serviços de força e luz são interrompidos por causa das pipas, que os aguaceiros alagam as vias públicas porque o povo joga o lixo em lugar indevido e que os prontos-socorros sempre estão lotados por causa de gente que procura os serviços sem necessidade corresponde a outros fatos acobertados", indaga.

Para Bertoli, é claro que a população contribui para o caos, mas repete-se nas falas dos administradores públicos ou privados a mesma ideia: o povo sempre é culpado pelos seus infortúnios. "No caso específico das pipas, fica patente o que a reportagem aponta: a escassez de espaços e equipamentos urbanos voltados para o lazer, especialmente na periferia onde, praticamente, inexistem opções se pensarmos no patrocínio público e especialmente privado".

Na observação do antropólogo, ao invés de culpar a população, os serviços de força e luz deveriam empregar uma ínfima parte de seus lucros no financiamento de áreas e equipamentos de lazer na periferia mais pobre das cidades. "Com isso, certamente, o número de incidentes do tipo relatado seria bem menor e, ao final, tanto a população quanto as companhias de eletricidade acabariam sendo beneficiadas. É uma alternativa a ser pensada", conclui.

Carência

O levantamento segundo o qual 21,4% das ocorrências de interrupção de energia elétrica pública acontecem pelo uso de pipas que enroscam na rede foi apresentado pelo vereador Natalino Davi da Silva (PV), após requerimento encaminhado à CPFL.

"Os dados apontam que a administração municipal tem de intensificar o planejamento de podas em árvores, para reduzir a interferência desse tipo de ocorrência. Mas no caso dos jovens está claro na periferia que a falta de opção de lazer, de esportes, acaba incentivando para essa situação", menciona.

Para Natalino, além de direcionar investimentos em lazer e esportes para as áreas mais precárias, a prefeitura tem de aproximar a comunidade das escolas, buscar a participação desses jovens e de seus pais em atividades nas escolas. "Depois de dar opção para o jovem se divertir, a administração tem de fazer conscientização pelo uso de pipas longe da rede de energia. Mas tem de ser ação coordenada, feita de forma permanente e não isolada", defende.

Os dados oficiais sobre distribuição de equipamentos públicos de lazer e esportes confirmam a carência. Há apenas academias ao ar livre instaladas em todos os bairros citados nas estatísticas da CPFL, sendo Vila Dutra, Parque Real, Jaraguá, Ferradura, Fortunato Rocha Lima, Gasparini, Pousada, Vila São Paulo, Ouro Verde, Joaquim Guilherme e Pq. Viaduto. Já ginásios e pista de atletismo ou piscina municipal não existem em nenhum desses lugares. Estádios distritais de futebol existem apenas no Gasparini e na Vila Dutra.