| Aceituno Jr. |
| Delegado Luiz Augusto Puccinelli: denúncias balizam investigações |
Um levantamento da Polícia Civil aponta que as prisões por tráfico de drogas cresceram 72% em Bauru, nos três primeiros meses de 2018 em comparação com o mesmo período no ano passado. As detenções subiram de 68 para 117, de janeiro a março. A alta decorre de um aumento nas denúncias feitas à polícia pela própria população dos mais diversos bairros. A informação é reiterada tanto pela Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise), quanto pela Polícia Militar (PM).
São denúncias anônimas realizadas ao 190, nas bases da PM nos bairros, aos Disques Denúncias 197 e 181 da Polícia Civil (que recebem ligações do Estado todo), nas delegacias ou até mesmo nos Conselhos Comunitários de Segurança (Consegs) do município. As queixas possuem informações que vão desde a localização de novos pontos de venda de drogas até indicação de nomes de pessoas atuantes no tráfico.
Titular da Dise, o delegado Luiz Augusto Puccinelli tem percebido essa crescente participação da população, nos últimos anos. "E ela é muito importante. Quanto mais informações tivermos, mais investigações serão realizadas e mais mandados de busca conseguiremos cumprir. As pessoas estão mais preocupadas e indignadas com esse crime. Por isso, têm nos procurado mais", comenta.
| Malavolta Jr. |
| As denúncias têm subsidiado também algumas operações da PM, segundo o capitão Milton Cesar Maciel Moraes, coordenador operacional interino da PM de Bauru |
Nem mesmo pais e mães têm poupado os filhos da denúncia. Panorama que é reforçado pelo delegado assessor do gabinete da Secretaria de Segurança Pública do Estado e especialista sobre tráfico de drogas Nelson Munhoz Soares Filho. Segundo ele, 70% das ligações ao Disque Denúncia 181, atualmente, referem-se ao comércio de drogas. E as informações quase sempre culminam em prisões (leia mais abaixo).
APURAÇÃO
Responsável pelos números que incluem tanto ocorrências da Civil quanto da Militar, a Dise, em muitas ocasiões, inicia investigações para descobrir grandes fornecedores de drogas partindo de informações anônimas ou não oriundas da população.
"Muitas pessoas nos procuram pessoalmente. São moradores incomodados com o problema das drogas no bairro. Também recebemos as denúncias feitas ao 197 e 181. São atitudes que nos ajudam a iniciar um trabalho de investigação", comenta o delegado Luiz Augusto Puccinelli.
Entre ocorrências recentes, ele cita um tráfico registrado em fevereiro deste ano, que terminou com a prisão de mãe e filho no Núcleo José Regino. Após receber informações anônimas da população, a Dise realizou trabalho de investigação e conseguiu apreender quase 50 quilos de drogas, que estavam escondidos em tambores enterrados no quintal da casa.
DIRECIONAMENTO
As denúncias têm subsidiado também algumas operações da PM, conforme explica o Coordenador Operacional Interino do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4.º BPM-I), o capitão Milton César Maciel de Moraes.
"Quando a população colabora denunciando, o patrulhamento atua de forma direcionada naquele local e grande parte das ocorrências acaba em flagrante e prisão de microtraficantes, principalmente", cita o policial.
A corporação, assim como a Polícia Civil, no entanto, não dispõe de números sobre a quantidade de denúncias recebidas. Também informa não ser possível apontar se a circulação de drogas aumentou na cidade. "O apoio da comunidade é o segredo da melhoria dos resultados da produção policial", fecha questão o capitão Maciel.
PERFIL
A maior parte dos presos por tráfico tem idade acima dos 18 anos e é reincidente no crime, segundo Puccinelli.
"Tem gente que eu já prendi quatro vezes. A pena não é branda, as polícias, o Ministério Público e o Judiciário têm um trabalho sério. Acontece que os benefícios como o livramento condicional, a saidinha e a progressão de pena não ajudam muito", critica o delegado.
Puccinelli elenca as regiões consideradas mais críticas pela polícia da cidade quando o assunto é tráfico de drogas. "O tráfico está em toda a cidade, mas no Parque Real, Fortunato Rocha Lima, Ferradura Mirim e Jardim Vitória há número maior de pontos de venda. São locais de difícil acesso para a polícia, o que dificulta o trabalho, além de possuírem olheiros e rotas de fuga estabelecidas", detalha o delegado.
Consegs incentivam
Criados com a proposta de discutir, analisar, planejar e acompanhar os problemas comunitários de segurança nas cidades, os Consegs também têm papel importante nas denúncias ligadas à traficância. "Geralmente, no final das reuniões, os moradores acabam conversando com os policiais presentes e denunciando situações nos bairros. E temos incentivado casa vez mais isso", cita Evaldo Roberto Coratto, coordenador estadual dos Consegs.
Em Bauru, há dois Consegs ativos, o Leste/Norte e o Centro/Sul. Neste primeiro, situações de denúncias relacionadas ao tráfico são comuns. "Essas conversas acontecem nos cantos das reuniões, porque as pessoas temem a exposição. Às vezes, nem eu fico sabendo", comenta a presidente do Conseg Leste/ Norte Maria Helena Menezes.
'Nem pais e mães têm aguentado'
"Nem os pais e mães têm aguentado filhos traficantes e usuários. Chegamos a um ponto em que as famílias e até vizinhos têm denunciado quem fornece a droga". A afirmação é do delegado Nelson Munhoz Soares Filho, especialista sobre o tráfico de drogas e assessor do gabinete de Segurança Pública do Estado.
Ele confirma que a população tem participado mais do processo da Segurança Pública e, como exemplo, cita que, hoje, 70% das ligações ao 181 são relacionadas ao tráfico.
As informações são redirecionadas para a região e, muitas vezes, culminam em prisões. "É como o estupro na sociedade. É um crime que sempre aconteceu, mas, agora, a denúncia aumentou e a prisão tem ocorrido", relaciona.
EDUCAR PARA FREAR CONSUMO
O problema, contudo, parece longe de ser resolvido, de acordo com ele, porque para acabar com o tráfico é preciso antes acabar com o consumo. "A droga é um negócio que lida com muito dinheiro. Quando um traficante morre ou é preso, outro aparece no lugar. E, para o usuário, é uma alteração química que ajuda na fuga da realidade, da mesmice e dos problemas", cita Nelson.
Para ele, campanhas de conscientização e a educação são as melhores saídas para lidar com o problema. "Mas as repostas são lentas, entre 10 ou 15 anos", frisa.
Novas drogas preocupam
Novas drogas desenvolvidas como forma de ludibriar a polícia e até de tornar mais atrativo o uso de entorpecentes têm preocupado as autoridades. Segundo o especialista sobre tráfico de drogas Nelson Filho, as chamadas drogas sintéticas têm sido a bola da vez.
"Laboratórios clandestinos estão a todo vapor, não é mais preciso a planta. Eles têm alterado as substâncias químicas para criar novas drogas que imitam outras, causando efeito estimulante ou depressor", comenta Filho. "O IML de São Paulo vive um problema sério com isso, porque são muitas substâncias novas surgindo. Os médicos criaram até a expressão Black Monday para se referir à segunda-feira, quando os atendimentos médicos de jovens por causa do abuso de drogas no final de semana acontecem", completa.
Ele cita que há uma lista de aproximadamente 120 substâncias não conhecidas pelas autoridades, atualmente.
Das conhecidas e já encontradas no Brasil, além do oxi, derivado da cocaína oxidada, que já foi alvo de matéria do JC, há também outras novas: a droga Krokodil, derivada do ópio, já encontrada no Rio de Janeiro, a Spice, derivada da maconha e encontrada na Capital, a 25B-NBOMe, estimulante com efeito semelhante ao LSD, também encontrada na Capital, e a Paco, produzida com restos de cocaína e de lâmpada fluorescente moída, que tem efeito 100 vezes mais potente que o crack, e que foi apreendida no Paraná.
"Aonde tem droga tem crime. Até a população de Amsterdã, onde a droga é tolerada, tem pressionado o governo para voltar a restringir a venda de entorpecentes, porque a criminalidade aumentou", observa Nelson Filho.
Proerd trabalha conscientização
Existente em Bauru desde 1997, o Programa Educacional de Resistência às Drogas (Proerd) realizado pela Polícia Militar é uma das únicas campanhas governamentais amplas ativas com foco na conscientização para em coibir o uso de entorpecentes. Em Bauru, 2.336 crianças entre 9 e 12 anos de 53 escolas participaram as ações do Proerd, neste primeiro trimestre.
Uma vez na semana, por três meses, eles têm aulas com policiais que, por meio de dinâmicas, palestras e outras atividades, mostram os problemas do avanço das drogas e os incentiva a não consumir. "Abordamos os efeitos provocados pela dependência de substâncias químicas e os motivamos a pensar e tomarem decisões com boas escolhas, longe das drogas", detalha a cabo Andriana Marta da Silva, instrutora e mentora do Proerd.