04 de abril de 2026
Geral

Filhos: valores e limites até os 6 anos

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 7 min

Samantha Ciuffa
Júlio Furtado: "A criança tem de aprender sobre limites e sobre respeito primeiro para depois começar a aprender a amar"

Os primeiros 6 anos de vida são fundamentais para o desenvolvimento da criança. É nessa faixa etária, segundo os especialistas, que se formam as estruturas psíquicas e de equilíbrio que nos formam adultos em condições de analisar, de ter percepção acerca do mundo. A abordagem é do professor, pedagogo e escritor Júlio Furtado.

Furtado conversou com o JC antes de proferir palestra no colégio FourC, em Bauru. "A primeira infância é essencial a esse desenvolvimento. É nos seis primeiros anos de vida que se formam as estruturas psíquicas e de equilíbrio que nos formam adultos em condições de analisar, de ter percepção da realidade", disse. Ele argumenta que o que aconteceu na primeira infância é que determina a maior parte das dificuldades na fase adulta. "A maior parte das dificuldades, do desequilíbrio com o adulto, nascem na primeira infância", enfoca.

Em razão exatamente desses fatores é que o pedagogo chama a atenção para a função dos pais em estabelecer elementos sobre valores e limites. "Por isso, é na fase dos primeiros anos que a criança tem de aprender a respeitar seus pais, aprender limites. Ela precisa entender nessa fase que suas vontades têm limites", aponta.

Ele posiciona que a criança, em geral, não sabe o que quer. "Ela precisa ser assessorada para que saiba o que ela quer. Ela gera vontades por estimulações imediatas. Os pais perguntam para crianças o que elas querem. E ela precisa ser orientada, precisa entender o que pode e o que não pode. E essas crianças não são assessoradas pelos pais nessa fase e depois surgem inúmeros conflitos", diz.

Furtado pondera: "Não estou dizendo que chega uma situação em que você pode, sim, perguntar à criança o que ela quer. Mas isso precisa ser articulado primeiro. Até que chegue um momento que os pais dizem: do que tem, o que você quer. Mas aceitar birras, manhas, como se fossem reações normais e não corrigir é o sinal de que você não estabeleceu essas orientações".

Ou seja, em um momento a criança pode escolher. "Mas você leva a criança para jantar, escolhe o prato e pergunta à criança o que ela quer, ela pode pedir batata frita e refrigerante. Então, esse processo precisa ser ensinado a ela. Ela não pode querer baseado no desejo dela somente", estabelece.

Para ele, há duas dificuldades sociais em curso. "Uma é a de que, em média, pais que tiveram educação mais rígida têm dificuldade em equilibrar o parâmetro que eles querem adotar para os filhos e o receio de estarem sendo duros em demasia. Outra é que, em média, os professores das gerações atuais foram formados sob paradigmas que, por vezes, não são os da nova geração. E o descompasso entre esses conteúdos aparece na educação em casa e na postura e conduta de parte dos professores na sala de aula", comenta.

'Momento é de crise de verdades''

Júlio Furtado considera que estamos vivendo uma interface de crises difíceis de lidar. "A econômica, de mercado, sempre existiu. Não consigo imaginar um momento em que não estivéssemos vivendo uma crise. É uma coletânea delas ao longo da vida. Intermediar a crise do mundo com a relação dentro de casa sempre foi uma missão. Já a crise dentro de casa é de verdades e certezas. Nossos pais tinham verdades irrefutáveis e certezas e sobre as quais ele não tinha nenhum medo de aplicar. Deixavam de castigo sim, suprimiam benefícios dos filhos se descumprissem algo. E hoje os pais tremem na base ao colocar em prática essas ações com os filhos", aborda.

E, para ele, a maior dificuldade dos pais acaba nascendo nessa crise de verdades. "Eles não estão tendo em que se apoiar para terem a certeza das atitudes educacionais. Estamos saindo de uma sociedade que transitava na disciplina do medo e passando para uma sociedade que vive sob o medo da disciplina. Essa configuração está solta. E os pais não estão sabendo como lidar isso, um apoio que fundamente essas posições. Um fundamento para a necessidade sim dos limites, para as crianças entenderem que terão sim que ouvir o não. Que o não é fundamental para o desenvolvimento emocional dessas crianças", afirma.

Assim, esse ''não' está sendo colocado em dúvida. "Porque os pais convivem sobre o questionamento se este 'não' vai traumatizar, se esse 'não' vai gerar frustrações. Os pais que vivem esse dilema confundem os fundamentos do amor. Esse sistema de 'não' necessário na educação dos filhos é praticar sim o amor, prepara-los para consciência entre o que pode e o que não pode", reitera.

Furtado reflete que pais amam filhos e filhos amam pais. "Mas esse amor tem de ser construído sobre fundamentos. Essa criança tem de aprender sobre limites primeiro, sobre respeito primeiro, para depois começar a aprender a amar. O amor infantil é interesseiro. Vemos pais muito preocupados que os filhos, crianças, digam que os amam. Os nosso pais exigiam de nós respeito. A geração atual de pais, no geral, exige amor dos filhos. A confusão que persiste nisso é saber o que é afeto", justifica.

A carência se mostra na forma dos pais atuais se relacionarem com os filhos. "O que explica, em certo modo isso, é que é uma geração de pais carentes. Ter o filho para suprir essa carência de amor que é do pai, da mãe, é o erro básico que se repete. Construídos, limite, respeito, depois será formado o aprendizado do que é amor por essa criança", conclui.

Apresentar o filho ao mundo

Pixabay
Crianças precisam ter liberdade para brincar e se desenvolver, mas dentro de limites que devem ser estabelecidos pelos pais

Os primeiros 6 anos de vida são fundamentais para o desenvolvimento da criança. É nessa faixa etária, segundo especialistas, que se formam as estruturas psíquicas e de equilíbrio que nos formam adultos em condições de analisar, de ter percepção acerca do mundo. A abordagem é do professor, pedagogo e escritor Júlio Furtado.

Furtado conversou com o JC antes de proferir palestra no colégio FourC, em Bauru. "A primeira infância é essencial a esse desenvolvimento. Nos seis primeiros anos de vida se formam as estruturas psíquicas e de equilíbrio que nos formam adultos em condições de analisar, de ter percepção da realidade", disse. Ele argumenta que o que acontece na primeira infância é que determina a maior parte das dificuldades na fase adulta. "A maior parte das dificuldades, do desequilíbrio com o adulto nasce na primeira infância", enfoca.

LIMITES

Em razão exatamente desses fatores é que o pedagogo chama a atenção para a função dos pais em estabelecer elementos sobre valores e limites. "Por isso, é na fase dos primeiros anos que a criança tem de aprender a respeitar seus pais, aprender limites. Ela precisa entender nessa fase que suas vontades têm limites", aponta.

Ele posiciona que a criança, em geral, não sabe o que quer. "Ela precisa ser assessorada para que saiba o que ela quer. Ela gera vontades por estimulações imediatas. Os pais perguntam para crianças o que elas querem. E ela precisa ser orientada, precisa entender o que pode e o que não pode. Se as crianças não são assessoradas pelos pais nessa fase, inúmeros conflitos depois", diz o pedagogo.

Furtado pondera: "Estou dizendo que chega uma situação em que você pode, sim, perguntar à criança o que ela quer. Mas isso precisa ser articulado primeiro. Até que chegue um momento em que os pais dizem: 'do que tem, o que você quer?'. Mas aceitar birras e manhas como se fossem reações normais e não corrigir, é sinal de que você não estabeleceu essas orientações".

Ou seja, em um momento a criança pode escolher. "Mas você leva a criança para jantar, escolhe o prato e pergunta à criança o que ela quer, ela pode pedir batata frita e refrigerante. Então, esse processo precisa ser ensinado a ela. Ela não pode querer baseado no desejo dela somente", estabelece.

Para ele, há duas dificuldades sociais em curso. "Uma é a de que, em média, pais que tiveram educação mais rígida têm dificuldade em equilibrar o parâmetro que eles querem adotar para os filhos e o receio de estarem sendo duros em demasia. Outra é que, em média, os professores das gerações atuais foram formados sob paradigmas que, por vezes, não são os da nova geração. E o descompasso entre esses conteúdos aparece na educação em casa e na postura e conduta de parte dos professores na sala de aula."