10 de julho de 2026
Ciências

O tempo que corre e o câncer! Por Alberto Consolaro


| Tempo de leitura: 3 min

A vida começou com organismos bem simples. Alguns tinham, e outros ainda têm, uma célula. Eles foram evoluindo pelos séculos e milênios, ganhando complexidade na função de órgãos e tecidos.

De uma célula que somos quando o óvulo é fecundado, as divisões ou mitoses sucedem e criam 206 tipos diferentes. No total temos 10 trilhões de células. Se não consegues imaginar o significado do número, imagine em euros na sua conta bancária.

Os 206 clones de células que temos são muito bem coordenados e controlados por um mecanismo de auto-gestão com orçamento participativo. Quando o organismo perde o controle sobre um destes clones, a autonomia adquirida faz com que se torne invasivo e destrutivo para os demais. Esta situação caracteriza uma neoformação corporal ou neoplasia maligna que, de forma generalizada, chamamos de "câncer", mas são conhecidos também como sarcomas, carcinomas e linfomas.

As células neoplásicas malignas vêm de uma célula normal e passam a ser egoístas e egocêntricas. Elas aumentam a quantidade de mitoses e querem ocupar todos os espaços que puder nos órgãos e tecidos. Elas requerem para si todo nutriente que chegar até o organismo, consumindo o máximo que pode para manter um metabolismo voltado para a proliferação incessante: haja comida! Pode se dizer que as células malignas exercem o capitalismo selvagem.

Quando se tem uma neoplasia maligna, a proliferação de suas células é muito mais rápida e incessante que as normais. Se consome tanta energia que as células normais ficam sem nutrientes, a pessoa fica muito magra e seus mecanismos de defesa, definham. A inflamação e a resposta imune ficam cada vez mais inofensivas para as células malignas e este é o seu objetivo. Além de roubar nutrientes, as células malignas liberam substâncias que intoxicam e matam as células normais e de defesa ao seu redor e à distância.

As células malignas querem tomar conta de tudo, tal qual as organizações criminosas, cartéis, monopólios e fundos de investimento. Se não der limites, invadem e destroem os demais. Nos casos avançados, a pessoa fica tão magra e deficiente que caracteriza o estado chamado de caquexia. Por isto, as vezes se diz: aquele indivíduo ou empresa é um câncer para a sociedade ou que aquele país está caquético!

O TEMPO

As bactérias perto das neoplasias malignas parecem inocentes. Quando alguém esquece por uma hora sem tomar o antibiótico, eu explico: a cada 20 minutos cada bactéria transforma-se em duas. Em uma hora temos três períodos de 20 minutos. Faça a conta: uma vira duas, que vira quatro, que vira oito milhões de bactérias a sobreviverem no local. Não vale a pena "esquecer" de ingerir o medicamento.

Nas neoplasias malignas, a cada dia que se atrasa o tratamento, imagine quantos milhões ou bilhões de células malignas proliferam e aumentam ainda mais a chance de invadir os tecidos vizinhos ou outras partes. Postergar o tratamento de uma neoplasia maligna é inominável, ou em palavra mais simples, é inconcebível, ou de uma forma mais direta: é uma sacanagem!

As crianças e adolescentes têm mais células proliferando pelo crescimento o que aumenta a chance de ter câncer. As pessoas mais velhas tinham suas defesas fragilizadas e acumulava mais agressões nas células pelo tempo corrido, aumentando a chance de ter câncer.

Os adultos jovens e até a faixa dos 50 anos ficavam com menor ocorrência de câncer, mas isto acabou nas últimas duas décadas. A grande exposição a produtos industrializados, vida urbana, drogas, vírus, promiscuidade, viagens, tecnologia com radiações e pesticidas, fez com que a faixa etária entre 20 a 50 anos aumentasse muito seu comprometimento pelo câncer!

Não se iludam, apenas 10% dos cânceres são hereditários! A maioria decorre de fatores associados ao estilo de vida, alimentação e meio ambiente. Sobre estes fatores podemos decidir se queremos ou não nos submeter intensamente a eles. Você decide e não fique culpando seus pais! Quem é o dono de sua vida?

Por tudo isto que os picos de frequência das neoplasias malignas não se destacam mais na infância ou na velhice como era antigamente, agora o câncer passou a ser de todos e de todas as idades!

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todos os sábados no JC.