08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Sobre o Morrer...

Élida Yonamine
| Tempo de leitura: 2 min

Sou agora uma pequena centelha de luz na imensidão. Foi muito difícil deixar tudo e todos, minha mãe, meus irmãos, meu filho, amigos, companheiros de caminhada e de risadas, pessoas que descobri que gostava, quando já não tinha muito tempo para me expressar, minhas crianças, que não tive tempo de me despedir!

Fisicamente tudo mudou, mas o tempo vivido com elas vai permanecer para sempre, em mim e nelas. Vou continuar fazendo parte de suas vidas, o sentimento resiste a este tipo de partida, a saudade fica...

Quanto a mim, estou meio sem entender tudo o que aconteceu, o sofrimento cessou antes de me despedir, na verdade, quando fui embora, não tinha mais a sensação do que eu era, não fazia mais ideia do corpo que ocupara, do espaço que tinha neste mundo, da minha importância ou da minha identidade, simplesmente não percorria mais a mesma estrada que comecei a trilhar quando nasci, entendo agora que o nascimento talvez seja o início da partida para o final.

Porém, tudo isso deve ter um sentido maior, em conhecimento, em oportunidades. Sou agora uma centelha de luz, tentando achar o espaço adequado para poder ficar, em toda essa imensidão!

Quanto a vocês que ficaram do outro lado da estrada, vejam minha morte como uma chance de renascimento, sim, renasçam! A cada dia, a cada hora, a cada segundo; toda vez que respirar você vai estar renascendo para uma nova oportunidade nessa vida; oportunidade de amar mais, ficar mais próximo dos seus, viver o companheirismo, a amizade. Tente, mas tente de verdade, ser alguém melhor a todo instante, não melhor em acumular, em enriquecer, em ter poder, o melhor como ser humano.

Não se esqueça de amar, de ter paciência, humildade, solidariedade, cumplicidade. Peço-lhes! Vejam minha morte como um novo início, como um novo ciclo. Enquanto vivemos aqui, dentro de nosso mundinho, não damos valor ao tempo que temos, não conseguimos muitas vezes ver o próximo, doente, sozinho.

Acumulamos roupas, quando tantos estão esfarrapados, acumulamos comida, quando existem tantos famintos, acumulamos palavras sem sentido, quando tantos precisam só de uma palavra, para sua vida ser sentida, acumulamos rancor, quando tantos precisam de perdão.

A vida e a morte estão separadas por uma linha muito tênue, que pode se romper a qualquer instante, porém, caminham juntas, sempre.

"Morrer é apenas não ser visto. Morrer é a curva da estrada". (Fernando Pessoa)