08 de julho de 2026
Articulistas

Algemada independência

Alexandre Benegas
| Tempo de leitura: 2 min

Justin Timberlake passa momentos de seu dia enfileirando objetos na busca da perfeita simetria. Amanda Seyfried declara pavor de dirigir em pontes e atravessar em túneis. Megan Fox descarta o uso de banheiros públicos e talheres de restaurantes, tamanho pavor a germes. David Beckham rejeita objetos em números ímpares. Leonardo DiCaprio refaz o trajeto veicular, ao perceber qualquer alteração de caminho específico.

Alguém, perturbado por pensamentos repetitivos de que pode ter se contaminado ao tocar maçanetas ou outros objetos, passa horas, dos dias, lavando as mãos. Casos típicos do famigerado Transtorno Obsessivo-Compulsivo.

A doença mental, sem distinção sexual, atinge 3% da população mundial. Subdiagnosticada, trata-se de uma patologia oculta e secreta. Apesar da gravidade, os pacientes, subestimam-na, considerando os sintomas, na maioria das vezes, exagerados e anedóticos. Reconhecem, é claro, da impossibilidade de se contrair AIDS tocando numa maçaneta. Ainda assim, incapacitados estão de abandonarem ritual de limpeza. Tão inútil quanto buscar resolução na consequência, negligenciando conhecimento das causas, é crer na cura imediata das neuroses, subestimando a importância do autoconhecimento, das heranças genéticas e de prováveis influências culturais.

Limpar é preciso. É preciso limpar. Uma servidão involuntária capaz de ritualizar banhos, sentenciar constante higienização manual, decretar refinamento da nossa imagem. Dessa forma, seria a obsessão pela limpeza uma necessidade constante de reparar nossas sujeiras internas? Se o é, explica inconscientemente a sanha sanitarista de atestá-la como recurso reparador dos erros cometidos. Ao limpar, livramo-nos da bagunça organizada no mundo. Ao limpar, absolvemo-nos dos pecados surdos e mudos. Ao limpar, inocentamo-nos da consciência acusadora.

Da reflexão lavada com preocupação, reconheço o que me consome. Limpar. Pia pra mim o fogão, o viveiro da calopsita, as roupas das crianças, isso, aquilo lá e aqui. Nessa algemada independência, evidencio minha perfeita imperfeição: limpar. Prisioneiro da própria Bastilha, busco, em vão, momentos de liberdade para arbitrariar os limites da minha obsessão. Pescador de mim, desconheço a profundidade do que me água. Rio abaixo. Rio acima. Rio da minha triste convivência concessiva. Nessas horas, impossível lavar as mãos para meu transtorno, para minha limpeza neurotizadora. Nesses momentos, impensável alienar-se ao alienista.

O interfone toca, interrompendo minha reflexão. A portaria comunica-me a visita. Minha sogra. Rapidamente meu transtorno me convoca a conferir a limpeza dos cômodos. Limpos e organizados, saio da sala e ganho a cozinha. Para meu desespero, sobras de arroz envoltas em um rúcula murcha repousam em desiguais porções nos dois pratos estacionados na pia. Nova intimação. Enquanto lavo-os, a campainha toca. É ela, meu Deus. Peço-lhe gentil aguardo. Ela reclama da minha demora.

Admito amigo(a) leitor(a), ser deselegante deixar alguém - ainda mais sogra! - à espera, enquanto limpo algo. Priorizar a organização da casa, a limpeza dos pratos, longe faria eu ser o melhor genro do mundo, o melhor pai do universo. Ainda assim, pelo que limpo, pelo que faço, saio de alma lavada por deixar minha vida em pratos limpos.

O autor é professor universitário de Língua Portuguesa e colaborador cultural do JC; alexandrebenegas@gmail.com